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Painel – Um pouco de história

Se tem um setor econômico no Brasil cuja história se confunde com a das relações governamentais é a indústria. Essa foi a hipótese que norteou o segundo painel, moderado pelo presidente-executivo da Abrasce (Associação Brasileira de Shoppings Centers), Pablo Cesário. “O Barão de Mauá foi um dos primeiros lobistas do Brasil, pois mudou leis para poder fazer estaleiros”, contou. 

A gerente de Relações Institucionais da Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), Patricia Nepomuceno, lembrou que, em 1820, ainda no Brasil Império, foi dada a autorização para a primeira associação industrial do país – a Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional –, ironicamente voltada para apoiar a agricultura, então o segmento forte da economia. “A indústria nacional só teve autorização para produzir no Brasil em 1808; logo, com 12 anos de existência ainda era incipiente”,
explicou.

Letícia Yumi de Rezende, gerente de Relações Governamentais da Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná), explicou que, após a Segunda Guerra Mundial, o país precisava qualificar seus trabalhadores e, para dar conta da tarefa, foi criado o Senai. “O Senai nasce em 1944, antes mesmo da Fiep, em 1946. Com o passar do tempo, surge a necessidade de colocar a indústria como protagonista no ambiente político nacional. Ao longo dessas décadas, as pautas praticamente não mudaram – estamos falando de Reforma Tributária há 50 anos. O que muda são as formas com as quais trabalhamos essas causas. Hoje há mais atenção ao social, o ESG está muito presente, as causas do meio ambiente são muito humanizadas.”

O diretor do escritório de Brasília da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Marcos Lima, concorda que as pautas se alteraram pouco desde a fundação das federações até os dias atuais. “A Fiesp é cem anos mais velha do que a Firjan, porque ela nasce como Ciesp, em Santos. Desde Getúlio Vargas, passamos por diversos processos políticos, mas a pauta se mantém. A principal é a da reindustrialização, que o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, chama de neoindustrialização. Na verdade, acho que o Brasil precisa de uma revolução industrial, pois nós ainda não tivemos uma. Nossa matriz econômica continua presa à produção de commodities. Não é demérito ter um agronegócio forte, mas ele não pode ser a única matriz econômica do país.”

Para a indústria, é necessário ter clareza das pautas essenciais para o setor. A CNI (Confederação Nacional da Indústria) elabora, a cada quatro anos, um documento para o novo governo eleito com propostas para a melhoria do ambiente de negócios. “Na Firjan”, afirmou Patrícia, “fazemos um trabalho similar, fruto de uma união empresarial que traz as convergências do setor industrial do Rio de Janeiro, que se traduzem em propostas em âmbitos estadual e federal. Além disso, produzimos um diagnóstico dos mais de 5 mil municípios do Brasil, com informações sobre quatro áreas – autonomia, gastos com pessoal, a liquidez e os investimentos feitos pelo município –, e fazemos um ranking com os melhores em gestão fiscal.” 

Segundo Marcos Lima, a indústria sofre com um problema que não afeta o agronegócio – a dispersão entre os setores. “Mas concordo que a forma de trabalhar é ter pautas claras. Nós, de RelGov, somos a ponta que chega até os agentes políticos. E o relacionamento é muito importante nesse sentido – foi complicado quando a pandemia de Covid-19 nos impediu de trabalhar nos corredores. Há uma resistência natural do setor industrial em relação à política, mas os avanços passam por esse debate”, afirmou.

Atualmente, se a indústria é uma formuladora de propostas para os governos, isso é fruto de um trabalho desenvolvido ao longo de anos. “Somos interlocutores junto ao poder público como legítimos representantes da pauta industrial”, diz Rezende. “As instituições possuem um papel importante porque representam do pequeno ao grande. A gente fala pela indústria, do vestuário ao setor químico.”

Na opinião de Marcos Lima, o que vai determinar a capacidade de influência é ter pautas universais, concretas, e encontrar formas de dialogar com o Congresso de maneira diferente de como era feito há 20 anos. “Antes do [ex-presidente] Bolsonaro, você discutia com as lideranças do Executivo, que tinham poder de pautar temas. Com ele, o Congresso ganhou muito mais autonomia. Temos que entender que hoje as pautas são mais importantes do que as relações diretas que tínhamos antes.” 

O trabalho também deve caminhar em direção aos municípios – um ambiente diferente do encontrado em Brasília ou nas capitais. “Por isso, mapeamos todos os nossos sindicatos para encontrar pessoas locais que possam nos representar. Eles devem atuar como nossos porta-vozes”, comentou a gerente de Relações Governamentais da Fiep, Letícia de Resende. Patricia Nepomuceno, da Firjan, adota a mesma estratégia. “Fazer relações governamentais nos estados depende muito de uma atuação em rede. É necessário um mapeamento de stakeholders bem feito para entender quais são os problemas locais.”

Marcos Lima, Patricia Nepomuceno, Letícia Yumi de Rezende, Pablo Cesário | Foto: Thiago Lustosa
Tags: SETEMBRO - EDIÇÃO 03
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