JOTA: Suelma Rosa, diretora de RelGov da Dow e Presidente do IRELGOV, falou ao JOTA sobre a valorização da atividade.
22 de setembro de 2020

 

O aumento de importância da área tem expandido a busca por profissionais de relações governamentais. “Isso é bem interessante, porque vai na contramão da lógica do momento econômico”, destaca Suelma Rosa.

 

Nos primeiros meses da pandemia, em março e abril, era impossível monitorar todas as normas decorrentes da Covid-19. Tamanho volume de decretos, portarias e outras decisões do poder público obrigou os profissionais de relações governamentais a realizarem uma força tarefa. “Nós criamos uma série de grupos de WhatsApp estaduais para ajudar no monitoramento coletivo estadual”, conta Suelma Rosa, diretora de relações governamentais da Dow e presidente desde junho do Instituto de Relações Governamentais (IRELGOV).

Com a pandemia, houve uma valorização do profissional de relações governamentais, já que as decisões dos governos tiveram impacto em todos os setores. “Tenho ouvido muito dos colegas, principalmente daqueles que estão em ambientes corporativos, de como a área teve seu valor percebido”, afirma Rosa. “Na pandemia, como tudo ficou muito concentrado, com muitas regulamentações, todas as áreas das empresas tiveram, necessariamente, contato com as áreas de relações governamentais.”

A presidente do Instituto de Relações Governamentais (IRELGOV) conversou com o JOTA sobre carreira, capacidades necessárias para a carreira em RelGov, o atual desenvolvimento e busca por diversidade na área e a busca pelo entendimento da sociedade da legitimidade do lobby.

Quais as principais dificuldades a pandemia trouxe para os profissionais de relações governamentais?

A pandemia nos impôs a dificuldade de desenvolver um método de relacionamento e de influência com governos federal, estaduais e municipais de maneira virtual. Essa foi a primeira onda de desafio. No primeiro momento, tanto governo como nós, profissionais de RelGov, estávamos nos adaptando a esse processo.

Mas o maior desafio foi o número de normativas, decretos municipais, estaduais e federais, que foram se avolumando nos primeiros dois meses de pandemia. Esses decretos eram publicados diariamente, muitas vezes com diários oficiais extras, às vezes noturnos. E não tínhamos tempo de construir posicionamento sobre essas normativas. Nos primeiros dois meses de pandemia, nenhum profissional, nem mesmo as empresas de consultoria, tinham capacidade de processar o volume de informação, de regulamentações que foram geradas simultaneamente. Por isso, foi importante que a gente se unisse como rede, como comunidade de profissionais.

Nós criamos uma série de grupos de WhatsApp estaduais para ajudar no monitoramento coletivo estadual.

Nos meses de março e abril, nenhum profissional de relações governamentais do Brasil teve um fim de semana livre ou trabalhou menos que 20 horas por dia.

Faz falta o corpo a corpo com tomadores de decisão?

No resultado final do trabalho faz pouca falta, porque todos os Poderes do país se adaptaram a esse novo ambiente virtual muito rápido. O Congresso brasileiro foi a primeira casa parlamentar no mundo a operar virtualmente.

Isso impôs à dinâmica de relacionamento, de uma certa maneira, a conclusão de um ciclo de incorporação de ética e integridade no comportamento da profissão que me parece positiva.

O ajuste nessa fase de transação é complexo. Por isso, passamos a criar novos mecanismos de influência. A visita ao gabinete, a conversa com o parlamentar no corredor, se transformou em uma rotina de, obrigatoriamente, formular pedidos de audiência, marcar conversas por videoconferência e transformar isso em um diálogo praticamente público. Porque nas conversas por plataformas você não sabe quem está gravando o quê do outro lado, então isso trouxe muito mais transparência na relação. Desse ponto de vista, há algo positivo.

Claro que nenhum profissional de relações governamentais gosta da atividade porque tem medo de gente ou não gosta de gente. O que mais nos causa estranheza não é o novo ciclo de relacionamento com as autoridades, o que nos causa estranheza é não podermos estar juntos, porque uma parte importante de relações governamentais é coletiva. O RelGov de uma empresa, uma assessoria, uma consultoria, não trabalha sozinho.

Por exemplo, no projeto de lei gás natural [aprovado na Câmara no começo de setembro], 60 entidades assinaram uma carta pública sobre o posicionamento do PL. Primeiro, para tentar colocar em regime de urgência e depois para pautar a votação. Nós não conseguimos nos reunir, não conseguimos estar juntos. Isso tem efeitos práticos, porque a atividade de influência, a gestão do relacionamento não é feita um a um, e não deveria ser feita um a um, ela é coletiva. Isso causou maior impacto do que a dificuldade de comunicação com os parlamentares e assessores.

Pouco a pouco, nos últimos seis meses, todos foram se adaptando e já existe um modus operandi bastante avançado de como fazer a comunicação sem ser presencialmente.

Talvez o que falte é que as duas casas legislativas, Câmara dos Deputados e Senado, tenham canais transparentes para que a sociedade civil organizada possa canalizar suas demandas. Talvez um canal para receber sugestões, comentários, comunicados a parlamentares, sugestões de emendas. Isso ainda não existe, ainda estamos nos comunicando por WhatsApp, por reuniões de Zoom, por e-mails, cartas.

A senhora entende que a pandemia aumentou a importância dos departamentos de RelGov considerando que houve um volume alto de medidas do governo para conter os impactos do coronavírus na economia?

Sem dúvida. Tenho ouvido muito dos colegas, principalmente daqueles que estão em ambientes corporativos, de como a área teve seu valor percebido. Na pandemia, como tudo ficou muito concentrado, com muitas regulamentações, todas as áreas das empresas tiveram, necessariamente, contato com as áreas de relações governamentais.

Isso principalmente nas empresas que tinham área de relações governamentais nova ou que ainda estavam em um grau de maturidade inicial.

Na minha experiência na Dow já não era assim, porque tem uma área de RelGov madura, tem uma estrutura global, além de canais de influência e participação nas decisões estratégicas. Mas para muitos colegas que ainda não estavam nesse patamar de maturidade dentro da empresa, não há mais dúvidas sobre a relevância e o papel estratégico da área.

Há um crescimento nas empresas dos departamentos de RelGov?

Pela escalada, se percebeu um aumento de vagas em relações governamentais nesse período de pandemia. Isso é bem interessante, porque vai na contramão da lógica do momento econômico.

A área de relações governamentais tem duas grandes finalidades para uma empresa.

Uma delas é traduzir o ambiente externo para a análise de risco do negócio. E às vezes as empresas optavam por ter um profissional exclusivamente para isso, para traduzir o ambiente político e econômico para o ambiente decisório. Às vezes esse profissional nem tinha, efetivamente, a função de influenciar alguma normativa ou decreto.

Outras empresas não tinham a área. Às vezes tinha um CFO tentando fazer isso ou a área jurídica desenvolvendo a atividade de forma paralela às funções jurídicas. Em muitos casos, as pessoas nem sabiam que estavam exercendo a atividade de relações governamentais.

Quando veio a pandemia, teve um aumento tão grande de regulamentações, que não dava mais para acumular funções.

A atividade de RelGov é muito plural e os profissionais da área são oriundos de diversos ramos, como Direito, Comunicação, Ciências Políticas, Relações Internacionais e Ciências Econômicas. Qual é o perfil necessário para trabalhar com RelGov?

A atividade, por natureza, precisa ser plural, porque cada tipo de atividade econômica de uma empresa exige um perfil.

Alguns elementos mínimos são necessários e cada profissional, não importa a origem técnica ou de área de conhecimento, precisa buscá-los.

Um desses elementos é entender o funcionamento dos três Poderes, como se formulam política públicas, como se formulam leis e como se criam regulações no âmbito de agências reguladoras. Isso você pode aprender em cursos.

Um outro elemento necessário é o poder de comunicação. De alguma maneira, um profissional de relações governamentais é um tradutor entre a linguagem do setor público e do setor privado, e que são idiomas completamente diferentes. O papel é de construção de pontes. Se você não consegue traduzir uma linguagem a outra, simplificando e adequando a mensagem ao seu interlocutor, a conversa não acontece. E muito dos ruídos na conversa entre o público e o privado vem dessa dificuldade de entendimento.

Para esse nosso momento, também é importante entender o ambiente digital.

Eu constituí um grupo de pesquisa sobre política na era digital com alguns colegas justamente para entender como o ambiente digital tem influenciado o tomador de decisão. Dada essa nova realidade, que o canal digital é um novo campo de influência, podemos ter influenciadores tradicionais, como ONGs, sindicatos e empresas, como os não tradicionais, como a Anitta e o Felipe Netto. E esse é um outro elemento, de como o profissional de relações governamentais consegue influenciar neste ambiente digital. É uma habilidade que todos nós precisamos adquirir.

Outra parte muito importante para um profissional de relações governamentais é o entendimento de negócio. O profissional de RelGov não pode se preocupar somente em entender o setor público, ele precisa entender o negócio onde está para ser um agente estratégico dentro da empresa ou da empresa para qual está prestando consultoria. Tem que ser capaz de monitorar riscos, monitorar novas tendências regulatórias e de trazer isso para dentro da empresa. Às vezes, você não vai influenciar um processo legislativo ou de política pública, mas sim ajudar a empresa a se adaptar a esse novo cenário.

Como é a rotina de quem trabalha com RelGov?

Trabalhar com RelGov é a garantia de que você não tem rotina. Para quem gosta de processos ou rotinas, não é esse o seu lugar.

Estamos muito suscetíveis a mudanças de ambiente político. Seja em uma sexta-feira em que cai um ministro ou em uma decisão do Supremo Tribunal Federal que impacta o negócio onde você trabalha. Todas essas ocorrências do ambiente externo acabam afetando a nossa atividade. Ao atuar com relações governamentais no Brasil o imponderável está sempre presente no nosso dia a dia.

Conseguimos nos planejar com rotinas de pautas de votação e nos processos de negociação com o Poder Executivo. Mas existe uma dimensão imponderável que nos afeta e que precisa de respostas.

Por outro lado, se você atuar em uma empresa ou em uma consultoria que atende a uma empresa, também tem todos os temas relacionados a crise. 80% do tempo de trabalho fora do horário comercial está relacionado a algum tipo de crise. Não é incomum trabalhar de fim de semana.

Os postos relacionados ao poder ainda são ocupados predominantemente por homens. Como é a composição na atividade de RelGov? Existe diversidade?

Estamos começando essa jornada de discutir diversidade.

Até o IRELGOV ter um eixo específico para discutir diversidade e inclusão, só existiam grupos de mulheres buscando equidade dentro da comunidade de relações governamentais. Eu, inclusive, sou fundadora de um deles, o Mulheres em Relações Governamentais.

Até junho deste ano, quando a nova chapa do IRELGOV, sob minha liderança e do Fábio Rua, que é meu vice, criou um eixo específico de diversidade e inclusão, sob a liderança da Helga Franco, não existia sequer movimentos sobre outras diversidades. Depois que a gente criou o eixo, o Leon Rangel e o Gabriel Borges, da BMJ (consultoria de relações governamentais), criaram um grupo sobre diversidade LGBT+. Além disso, foi criado o Pretas e Pretos nas Relações Governamentais pelo Creomar de Souza e a Verônica Moreira Horner Hoe Lopes. Esse último coletivo ainda não alcançou o número de 20 pessoas.

Pela primeira vez a gente começa a conversar sobre pluralidade na comunidade, sobre outras dimensões de diversidade. Ainda não temos um mapeamento.

Em termos de diversidade de gênero, temos duas iniciativas. Em 2018, a professora Andréa Gozetto, da FGV, entrevistou profissionais de relações governamentais para ter essa dimensão. O estudo trouxe um indicativo de que as mulheres estavam na base da carreira e que havia poucas ocupando posições de liderança e diretoria. No Anuário Origem, feito no ano passado, considerando o universo dos profissionais registrados no anuário, que é muito pequeno, também se identificou essa falta absoluta de diversidade na comunidade.

Nenhuma outra diversidade é medida. Por exemplo, não temos qualquer medição de pessoas com deficiência. Uma das atividades que nós já programamos no eixo de diversidade e inclusão do instituto é justamente o mapeamento. Estamos em uma fase de sair do silêncio e mapear.

O termo lobby carrega um caráter pejorativo grande no Brasil. Isso vem mudando ou ainda há dificuldade de as pessoas entenderem que a defesa de interesses é algo legítimo?

Sim, ainda existe essa carga pejorativa sobre o lobby.

Os dois pilares de atuação do IRELGOV são educação e reputação. E no eixo de reputação estamos tralhando o orgulho de ser relações governamentais.

Eu sempre me apresento como lobista. A diferença entre lobista e corruptor ou corrupto é distinguida pelo Código Penal.

É um esforço enorme fora da comunidade, porque é um diálogo sobre o papel dos grupos de interesse na consolidação da democracia. A democracia representativa pressupõe a representação de interesses, e esses interesses estão agrupados em diversas estruturas da sociedade, de ONGs a associações de bairros, e de empresas a associações setoriais. Todos grupos são legítimos e fazem parte do processo democrático. E o lobby é o ato de influência do processo decisório, da formação de políticas públicas e do processo legislativo. Essa é uma dimensão de diálogo entre nós, profissionais da área, e a sociedade

Tem uma outra dimensão, que é de nós, profissionais da área, conosco. Porque a não aceitação do termo lobby pelos próprios profissionais reforça essa percepção negativa da sociedade. Sendo que o que precisamos é alertar a sociedade sobre a diferença entre influenciar e representar interesses e o direito de petição, de qualquer coisa diferente disso. Tráfico de influência é crime, corrupção ativa é crime, corrupção passiva é crime, suborno é crime, então se acontecer algo nesse sentido, já está tipificado no Código Penal e não é lobby, é crime.

Se não tivermos coragem como profissionais de explicar à sociedade, que ainda tem uma baixa formação política, não vamos ajudar a consolidar esse entendimento.

Estamos promovendo o conceito de cidadão lobista. A Anitta, ao fazer uma live e alterar o resultado do processo legislativo, é uma cidadã que está fazendo lobby.

Nossa responsabilidade como profissional é promover um diálogo ético, transparente e íntegro. Isso também passar por incorporar práticas de ética e integridade em todos os níveis.

 

Publicado originalmente dia 21/09/2020 em Coberturas Especiais – Às Claras 2.0 – JOTA

 



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