Por Bernhard Smid
Uma tecnologia pode ser extraordinária. Seu verdadeiro potencial, porém, revela-se quando consegue resolver problemas reais, conectar pessoas e organizações e gerar valor para um ecossistema inteiro. Essa percepção ajuda a explicar uma transformação em curso nas Relações Governamentais. O profissional da área deixa progressivamente de ser apenas um intérprete do processo decisório público para assumir uma função de inteligência estratégica, conectando governo, empresas, investidores, tecnologia e sociedade.
O desafio contemporâneo não é apenas acompanhar uma agenda regulatória cada vez mais complexa. É compreender como diferentes decisões, interesses e informações se relacionam e como podem contribuir para a construção de soluções. Mudanças climáticas, transição energética, segurança alimentar, infraestrutura, mobilidade, cidades inteligentes e transformação digital são desafios que dificilmente podem ser enfrentados por uma única organização. São ecossistemas nos quais produtores, empresas, governos, instituições financeiras, consumidores e prestadores de serviços possuem informações, responsabilidades e interesses distintos. Nesse ambiente, conhecer individualmente cada stakeholder já não é suficiente. É preciso compreender as conexões entre eles.
Nesse contexto, a aplicação provisória do Acordo de Comércio UE-Mercosul, iniciada em 1º de maio de 2026, adquire especial relevância. O acordo amplia as perspectivas de comércio e investimento entre os dois blocos e coloca ainda mais em evidência a importância de padrões, controles, transparência e requisitos aplicáveis aos produtos comercializados. Para o agronegócio brasileiro, esse cenário pode ser interpretado não apenas como um desafio de conformidade, mas também como uma oportunidade estratégica de modernização e diferenciação.
Rastreabilidade significa muito mais do que saber de onde veio determinado produto. Significa acompanhar informações ao longo da cadeia, conferir sua origem, compreender processos e oferecer maior transparência a compradores, autoridades e consumidores. A União Europeia considera a rastreabilidade um elemento central da segurança e da transparência dos alimentos, permitindo acompanhar produtos e ingredientes desde a produção até a distribuição, além de apoiar o combate a fraudes e a resposta rápida diante de riscos. Para empresas brasileiras que desejam ampliar sua presença no mercado europeu, transformar essas informações em dados confiáveis e acessíveis pode representar uma vantagem competitiva concreta.
É precisamente nesse ponto que tecnologia e Relações Governamentais se encontram. Soluções capazes de integrar dados fragmentados ao longo da cadeia produtiva transformam a rastreabilidade não apenas em uma exigência, mas também em um diferencial estratégico. Um exemplo dessa abordagem é a KIREAP, uma empresa europeia de tecnologia profunda e agrotecnologia — DeepTech e AgTech, respectivamente — em processo de expansão no Brasil. Sua plataforma System of Systems (SoS) combina inteligência artificial, soberania digital, blockchain, inteligência geoespacial e governança segura de dados em um único ecossistema de apoio à decisão. Inicialmente aplicada ao agronegócio, a solução conecta agricultores, compradores, operadores logísticos, adquirentes finais (off-takers) e outras partes interessadas, utilizando dados de campo, sensoriamento remoto e tecnologias de rastreabilidade. O objetivo é criar um ecossistema que não apenas otimize processos em toda a cadeia de valor, mas também melhore a visibilidade, a coordenação e a resiliência das cadeias produtivas, com potencial de aplicação também nas áreas de matérias-primas críticas, manufatura e logística. A KIREAP também trabalha no desenvolvimento de um computador quântico fotônico.
Por ser uma empresa europeia de tecnologia, a KIREAP ilustra uma oportunidade de complementaridade entre as tecnologias desenvolvidas na Europa e a escala e a diversidade produtiva brasileiras. O cenário abre espaço para parcerias, joint ventures, projetos com empresas e instituições de pesquisa e novas possibilidades de investimento. Mais do que um mercado de expansão, o Brasil pode constituir uma plataforma estratégica para soluções tecnológicas voltadas à América Latina.
O profissional de Relações Governamentais tem, nesse cenário, um papel central de integração. Cabe a ele interpretar novas exigências regulatórias e comerciais, identificar seus impactos sobre diferentes segmentos e aproximar empresas, governos, entidades setoriais e provedores de tecnologia. Em vez de enxergar a regulação apenas como uma obrigação, o profissional de RelGov pode ajudar a transformá-la em estímulo à modernização e à construção de vantagens competitivas. Isso exige combinar leitura política com compreensão tecnológica, capacidade de relacionamento com análise de informações, conhecimento regulatório com visão internacional e negociação com pensamento sistêmico.
Essa mesma lógica interessa ao mercado de venture capital. A ampliação das relações comerciais entre o Mercosul e a União Europeia e a formação de um mercado combinado de cerca de 720 milhões de pessoas podem favorecer novas oportunidades de negócios, parcerias e investimentos. Nesse ambiente, setores como agritech, rastreabilidade e compliance, energias renováveis, minerais críticos e tecnologias digitais ganham relevância. Empresas europeias encontram no Brasil escala produtiva e oportunidades de aplicação de tecnologias; empresas brasileiras, por sua vez, podem ampliar sua presença em mercados europeus e tornar-se mais atrativas para o capital internacional.
Para os investidores, o valor está menos na tecnologia isolada e mais na capacidade de solucionar problemas concretos em escala, conectando atores e gerando valor para o ecossistema. Soluções que integrem rastreabilidade, eficiência logística, qualidade e sustentabilidade podem atuar em diferentes pontos de uma mesma cadeia e, justamente por isso, apresentar elevado potencial de geração de valor.
A inovação, nesse contexto, deixa de ser apenas uma questão tecnológica. Torna-se também uma questão de articulação. Tecnologia não escala sozinha. Capital também não. Políticas públicas tampouco. A escala acontece quando tecnologia, capital, instituições, mercado e sociedade constroem condições para que uma solução deixe de ser apenas uma inovação promissora e passe a produzir valor real.
Nesse cenário, o profissional de Relações Governamentais poderá ocupar uma posição cada vez mais estratégica: não apenas entre o governo e as organizações, mas no centro das conexões que permitem transformar informação em inteligência, inteligência em decisão e decisão em impacto.
Talvez esse seja um dos grandes desafios — e também uma das maiores oportunidades — para o profissional de RelGov nos próximos anos: ajudar a transformar a complexidade dos novos ecossistemas em oportunidades concretas de inovação, competitividade, investimento e desenvolvimento.
