Fábio Zambeli é diretor-geral da Athos Public Affairs
Há um erro frequente na leitura empresarial dos ciclos de poder: considerar janeiro como o ponto de partida de um novo governo. A posse tem força simbólica, mas uma parcela cada vez mais relevante das decisões que condicionam os primeiros meses de gestão começa a ser tomada logo após as urnas.
Entre a proclamação do resultado e o primeiro dia útil do ano seguinte, transcorre um período curto, politicamente intenso e ainda subestimado pelo mundo corporativo. São semanas em que se definem prioridades, nomes, competências, espaços de influência e a maneira como os principais problemas chegarão ao chefe do Executivo.
Isso vale para alternâncias de poder e também para reeleições. A recondução de um presidente ou governador costuma produzir mudanças de equipe, redistribuição de atribuições, revisão de programas e acomodação de novas forças políticas. A urna altera o peso dos aliados e reorganiza a correlação interna de forças. Mesmo quando o governante permanece, o enredo da gestão seguinte começa a ser escrito nesse intervalo.
No plano federal, a Lei nº 10.609/2002 e o Decreto nº 7.221/2010 disciplinam a equipe de transição e o acesso às informações da administração. Nos estados, o ambiente é menos uniforme e depende das regras locais e da maneira como cada governo organiza a passagem de informações.
A qualidade desse processo varia bastante. Mudanças de comando marcadas por tensão política podem gerar bases incompletas e diagnósticos frágeis. Em governos reconduzidos, dezembro também costuma ser um período de revisão, com programas reavaliados e prioridades submetidas a uma nova hierarquia.
É quando a informação de qualidade ganha valor político.
Empresas e entidades possuem dados que, muitas vezes, o poder público não consegue produzir com a mesma velocidade. Investimentos previstos, geração de empregos, gargalos regulatórios, dificuldades de execução e efeitos concretos de políticas públicas ajudam a equipe que prepara o governo a compreender setores complexos.
Uma contribuição tecnicamente sólida, com metodologia clara e leitura equilibrada dos problemas, tende a circular como subsídio à formulação. A abordagem centrada apenas em demandas corporativas pode empurrar a empresa para a fila comum dos interesses que procuram acesso. A qualidade da entrada costuma influenciar a interlocução que virá depois.
Dezembro também revela muito sobre a distribuição real de poder.
Os responsáveis pela transição frequentemente assumem posições relevantes na administração ou preservam a proximidade com os principais centros de decisão. Passam semanas examinando orçamento, programas, estruturas e passivos. Ao final, estão entre os poucos integrantes do grupo eleito com visão ampla da máquina pública.
O mesmo vale para quadros menos conhecidos. Secretários-executivos, chefes de gabinete, diretores e técnicos responsáveis pela preparação de decisões começam a aparecer nesse período. Alguns terão pouca exposição pública e enorme influência sobre o funcionamento do governo.
Acompanhar apenas o primeiro escalão produz um mapa incompleto e superficial. O organograma oferece uma fotografia realista de quem responde formalmente por determinado assunto. A dinâmica interna mostrará quem tem trânsito com o presidente ou governador, quem controla a circulação de documentos e quais áreas ganharam força na negociação política.
O calendário fiscal acrescenta ainda um caráter de urgência a esse período. O governo que assume em janeiro executará um orçamento preparado no ciclo anterior e precisará definir rapidamente sua programação financeira. A Lei de Responsabilidade Fiscal estabelece prazos para o cronograma de execução e desembolso, obrigando a nova equipe a tomar decisões relevantes quando ainda está se instalando. Setores ausentes da conversa em dezembro podem entrar no ano discutindo limites já fixados.
Em 2027, a reforma tributária tornará esse período ainda mais sensível. União, estados e empresas estarão diante de decisões relacionadas à CBS, ao Imposto Seletivo, ao IBS e aos mecanismos de compensação de benefícios fiscais.
Nos estados, a substituição gradual do ICMS pelo IBS começará em 2029 e exigirá preparação administrativa. O Fundo de Compensação de Benefícios Fiscais dependerá do trabalho técnico das administrações tributárias estaduais, com efeito direto sobre companhias que estruturaram investimentos a partir de incentivos concedidos no passado. A escolha dos representantes estaduais no Comitê Gestor do IBS adicionará outra frente de atenção.
Esse cenário exige um acompanhamento institucional mais sofisticado, apoiado em leitura política, consistência técnica e relações construídas com método e antecedência. Também exige governança. Integrantes de equipes de transição exercem função pública, e qualquer interlocução empresarial precisa seguir padrões claros de integridade, registro e representação institucional.
A companhia que se prepara cedo consegue organizar informações, identificar interlocutores relevantes e escolher quais temas justificam presença no debate. Evita chegar ao governo já instalado com uma pauta montada às pressas, quando as agendas estão mais congestionadas e algumas decisões já ganharam curso próprio.
Janeiro oferecerá ao público a imagem oficial das novas gestões. Para as empresas, a leitura mais útil estará nos movimentos anteriores: quem ganhou espaço, quais temas avançaram na fila e que decisões começaram a amadurecer antes da posse.
Companhias expostas à regulação, ao orçamento público, à tributação ou a grandes decisões de investimento deveriam incorporar esse intervalo ao planejamento institucional de 2026. Vale chegar a novembro com conteúdo técnico consistente, interlocutores mapeados e critérios claros de relacionamento.
Quando os novos gabinetes abrirem as portas, muita coisa ainda estará em discussão. A qualidade da presença construída nas semanas anteriores pode definir quem terá condições de participar dos debates cruciais do novo ciclo político de forma assertiva e com maior chance de sucesso.
