As Relações Institucionais e Governamentais (RIG) vêm passando por profunda transformação no Brasil. Tradicionalmente associada à interlocução entre organizações e o poder público, essa atividade ampliou seu escopo e passou a ocupar posição estratégica nas instituições que dependem de interação permanente com governos e formuladores de políticas públicas.
Essa evolução exige uma nova compreensão sobre o papel do profissional de RIG. Mais do que representar interesses, acompanhar agendas legislativas ou manter relacionamento com agentes públicos, cabe a esse profissional compreender as prioridades do Estado e convertê-las em oportunidades capazes de gerar valor para a sociedade. Sua atuação consiste em transformar demandas institucionais em projetos públicos viáveis, alinhados às políticas governamentais.
Essa competência torna-se especialmente relevante em setores como a saúde, onde hospitais filantrópicos, universidades, entidades do terceiro setor e organizações parceiras do Sistema Único de Saúde (SUS) convivem com desafios relacionados a expansão da assistência, modernização tecnológica e sustentabilidade financeira.
É comum que uma instituição identifique a necessidade de adquirir equipamentos, ampliar unidades ou implantar novos serviços. Entretanto, essas demandas representam apenas necessidades internas. O Estado financia políticas públicas, programas e ações voltados ao interesse coletivo. É justamente nesse ponto que o profissional de RIG exerce sua função estratégica.
Sua missão é compreender a realidade institucional, analisar o contexto das políticas públicas, identificar programas governamentais compatíveis e estruturar projetos que demonstrem a relevância do investimento e seus benefícios para a população.
O foco deixa de ser o equipamento ou a obra e passa a ser o impacto público produzido. Um equipamento de diagnóstico, por exemplo, representa muito mais do que inovação tecnológica: significa redução do tempo de espera para exames, diagnósticos precoces, ampliação do acesso a serviços especializados, fortalecimento da regionalização e maior eficiência na aplicação de recursos públicos.
Essa mudança de perspectiva exige competências que ultrapassam o relacionamento institucional. O profissional de RIG precisa dominar planejamento estratégico, políticas públicas, orçamento governamental, financiamento público, gestão de projetos, análise de indicadores, comunicação institucional e governança, além de compreender o funcionamento da administração pública e de seus processos decisórios.
Sua principal contribuição é atuar como integrador de interesses. De um lado, conhece as necessidades da instituição; de outro, compreende as prioridades governamentais. Sua capacidade está em construir convergências entre esses dois universos, estruturando projetos tecnicamente consistentes, socialmente relevantes e politicamente viáveis.
Essa atuação fortalece a legitimidade das organizações perante o poder público e amplia a efetividade dos investimentos. Mais do que captar recursos, o profissional contribui para direcioná-los a iniciativas alinhadas às políticas públicas e capazes de produzir resultados mensuráveis para a sociedade.
O novo cenário exige um perfil profissional que vai além da articulação institucional. As organizações necessitam de profissionais capazes de interpretar cenários, estruturar projetos, mobilizar parcerias, acompanhar sua execução e avaliar seus resultados.
Em um ambiente marcado pela crescente complexidade da gestão pública e pela busca de maior eficiência na aplicação dos recursos, o verdadeiro diferencial do profissional de RIG está na capacidade de transformar necessidades institucionais em políticas públicas concretas, conectando estratégia, gestão e interesse coletivo.
Construir novos caminhos além de abrir portas é parte das Relações Institucionais e Governamentais. E é nessa capacidade de transformar demandas em projetos, projetos em investimentos e investimentos em benefícios para a população que reside uma das maiores contribuições da atividade para o fortalecimento das instituições e para o desenvolvimento do Brasil. A relevância do profissional de RIG é consistente com a do Estruturador de Projetos Públicos.

Marcelo Reis é diretor de Relações Institucionais e Governamentais do Hospital do Câncer e Coração Grupo Santa Casa de Franca SP
*As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do(s) autor(es) e não representam, necessariamente, o posicionamento institucional do IRELGOV.
