Editorial

Esta edição da Revista Diálogos do IRELGOV apresenta a cobertura do IV Congresso Internacional do instituto, realizado no dia 29 de maio. O evento reuniu mais de 300 espectadores e 40 painelistas, em 16 painéis em dois palcos simultâneos. Foi um dia marcado por trocas intensas e debates sobre temas relevantes não apenas para os profissionais da área, mas para a sociedade como um todo. Compartilho aqui minha fala de abertura do evento, que expressa como o IRELGOV pretende seguir consolidando sua atuação como think tank dedicado a promover o diálogo com a sociedade e a aprimorar a interação público-privada por meio de uma troca clara e bem fundamentada:

“O diálogo é parte essencial da democracia. O lobby também.

É com esta frase, que inaugura o Manifesto do IRELGOV pela legitimidade do lobby e pelo fortalecimento da democracia, que inicio minha fala no dia de hoje.

As relações governamentais, representação organizada de interesses ou lobby, são práticas legítimas, éticas e necessárias em toda democracia sólida. São práticas que garantem que diferentes perspectivas da sociedade — sejam elas vindas de representantes de empresas, do terceiro setor, academia e outras instituições da sociedade civil organizada — participem da elaboração e da implementação de políticas públicas de maneira transparente, embasada em dados, estruturada e, principalmente, responsável.

No Brasil, ainda convivemos com posições que associam o lobby a práticas ilícitas. Essa distorção não só empobrece o debate, mas também afasta a sociedade da participação qualificada que ela deve ter na construção de políticas públicas mais adequadas e efetivas.

Temos aqui profissionais inseridos nas mais diversas estruturas, comprometidos com uma relação ética e transparente entre os setores público e privado. O lobby representa a democracia em ação. Trata-se do exercício legítimo do direito de petição e de representação de interesses, previsto na Constituição Federal.

A regulamentação responsável do lobby, inspirada nas melhores práticas internacionais, fortalece a transparência que, por sua vez, aumenta a confiança nas relações entre Estado e sociedade.

As atividades de relações governamentais e institucionais devem seguir padrões éticos, com integridade e conformidade com o ordenamento jurídico. Quanto mais diversos forem aqueles que participam do processo decisório, mais equilibradas e efetivas serão as políticas públicas. Precisamos de um país mais transparente, participativo e, consequentemente, democrático.

Reconhecer o lobby como ferramenta legítima de participação é essencial para isso. Não estamos falando de defender interesses privados acima da sociedade como um todo, mas de garantir espaço institucionalizado para um diálogo rico, onde todos possam contribuir para soluções sustentáveis.

Precisamos, como profissionais de RelGov e de áreas correlatas, estabelecer pontes dentro e fora das nossas instituições. Como fellow de pesquisa do IRELGOV até o final de 2025, quando assumi a cadeira da diretoria-executiva, o que eu mais ouvi dos colegas foi: “Preciso trabalhar intensamente dentro da minha própria empresa/instituto/escritório para desmistificar a figura do profissional de RelGov como aquele que só aperta mão de político, almoça e janta duas vezes e ninguém sabe exatamente o que faz ou, pior, acha que está envolvido em atos de corrupção ou tráfico de influência”.

Trabalhar em relações governamentais também pressupõe contribuir para uma visão positiva da nossa reputação: profissionais íntegros, que compartilham dados embasados em informações verificadas e verificáveis, com argumentos claros e agendas transparentes só ajudam a tornar a profissão mais conhecida – o que atrai novos ingressantes – e mais reconhecida, o que certamente ajuda a melhorar nossa imagem e a torná-la cada vez mais próxima da realidade.

Neste ano, ano de eleições, o Congresso do IRELGOV adotou um formato diferente: ao invés de chamarmos para painéis principalmente nossos colegas e profissionais da área para falar, incluímos aqui tomadores de decisão em um formato inovador para debaterem conosco temas tão relevantes como polarização política, participação da sociedade no processo de elaboração de melhores políticas públicas, democracia e – claro – lobby. Academia, stakeholders de peso, empresas e movimentos da sociedade civil estão aqui, em dois palcos simultâneos, para abordar temas que poderiam ser – e de fato são – objeto de intensa discussão por anos. Temos um dia para fazer valer essas trocas, para que essas mudanças não fiquem restritas a este espaço e, mais importante, que saiam do discurso para a vida de cada um de nós, num efeito multiplicador provocado pela potência das pessoas que prestigiam nosso evento.

Desejo a todas e todos uma ótima leitura!

Por Mariana Chaimovich, diretora-executiva do IRELGOV

Nesta Edição

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ARTIGOS

NOVOS ASSOCIADOS IRELGOV

Coluna Radar

IV Congresso Internacional do IRELGOV reúne lideranças para debater democracia, governança e os desafios das relações governamentais

O IRELGOV realizou, no dia 29 de maio, no Teatro B32, em São Paulo, o IV Congresso Internacional do instituto, reunindo especialistas, autoridades públicas, representantes do setor privado, academia e lideranças nacionais e internacionais para debater os principais desafios políticos, institucionais e econômicos do Brasil e do mundo.

Ao longo do dia, o congresso promoveu debates estratégicos sobre política nacional, democracia, comércio exterior, lobby, participação política, inteligência artificial e governança, reafirmando o papel das relações governamentais na construção do diálogo institucional e na mediação entre os diferentes setores da sociedade.

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Nova Gestão do IRELGOV 2026-2028: conselheiros e diretores tomam posse no IV Congresso Internacional

O fortalecimento das Relações Governamentais e Institucionais no Brasil passa por lideranças comprometidas com a ética, a transparência e a construção de soluções para o país.

Parabenizamos a presidente Lara Gurgel, a vice-presidente Mariana Guimarães Borborema, os integrantes do Conselho Deliberativo — Thomaz D’Addio, Josemar Franco, Roberto Campos, Tatiana Porto, José Pimenta, Silvia Menicucci, Ariela Simoni e Rafael Barreto — e os membros do Conselho Fiscal: José Augusto Dias de Castro, Rebeca Lucena, Gustavo Bernard, Demetriuz Cruz, Luiz Santiago e Beatriz Gagliardo.

Com a contribuição dessas lideranças, o IRELGOV segue fortalecendo o diálogo entre os setores público e privado, promovendo conhecimento, governança e o desenvolvimento das Relações Governamentais no Brasil.

Desejamos uma gestão de muito sucesso, inovação e impacto positivo para o setor!

IRELGOV promove Encontro com Especialistas na Ágora

No dia 19 de junho, o IRELGOV promove nova edição do Encontro com Especialistas, com Rebeca Gharibian, Managing Director e sócia da Quiddity. A convidada debaterá a “Pesquisa Tensões Culturais”, que investiga as emoções e os comportamentos dos brasileiros diante de incertezas econômicas, políticas e sociais. O encontro será conduzido por Thomaz D’Addio, diretor executivo da Ágora.

📍 Escritório Ágora – São Paulo | Rua Bruxelas 188, cj 6 e 7 – Sumaré
🗓️ 19 de junho
⏰ 09h às 11h
Inscreva-se aqui.
Evento exclusivo para associados ao IRELGOV

IRELGOV participa do Encontro Nacional de RIG do Sistema CNDL

No dia 28 de abril, a presidente do IRELGOV na gestão 2024-2026, Patricia Nepomuceno, participou do painel “Principais aspectos de uma atuação estratégica da área de Relações Institucionais e Governamentais por instituições privadas”, durante o Encontro Nacional de RIG do Sistema CNDL.

A agenda reuniu especialistas e lideranças do setor para debater a importância de uma atuação institucional integrada na construção de políticas públicas, no acompanhamento de temas legislativos e regulatórios e no fortalecimento da atuação estratégica do varejo no Brasil.

O encontro contou ainda com a presença de representantes do Sebrae, da equipe de RIG da CNDL e de profissionais de diferentes estados, promovendo uma troca qualificada de experiências e perspectivas para o desenvolvimento do setor.

📷 CNDL Brasil

Diretoria regional do IRELGOV em MG promove workshop sobre os riscos políticos e regulatórios e os desafios do setor de extração mineral

Profissionais de Minas Gerais estiveram reunidos no ida 18 de maio, de forma híbrida, para avaliar o cenário político de 2026 e as estratégias de abordagem institucional nas esferas regional, nacional e internacional. Além de estudar o cenário econômico da mineração e lançar luzes sobre a comunicação mais assertiva em tempos de riscos políticos, o advogado Diretor de Assuntos Corporativos da Mineração Morro do Ipê e pleno da Associação Comercial de Minas Gerais (ACMinas), Cristiano Parreiras, falou sobre estratégias governamentais, partidos políticos e tendências no setor minerador, além de desenhar um panorama da atividade.

A conversa, mediada pelo jornalista Consultor de Comunicação e Relações Governamentais e Diretor do Irelgov em Minas Gerais, Gustavo Bernard, permitiu gerar conteúdos e debate para qualificar localmente a atuação dos profissionais de relações institucionais e governamentais. Esse foi o primeiro evento workshop com a participação presencial e remota em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Diálogo como ferramenta democrática

O IV Congresso Internacional do IREGOV abriu com uma defesa direta da ideia de que diálogo é parte essencial da democracia e que o lobby, quando exercido de forma responsável, também integra esse campo.

Para Mariana Chaimovich, diretora-executiva do IRELGOV, as relações governamentais são práticas legítimas, éticas e necessárias à construção de políticas públicas mais representativas. “Ainda persiste no Brasil uma associação indevida entre lobby e ilicitude, o que empobrece o debate público. No entanto, quanto mais diversos forem os participantes do processo decisório, mais equilibradas tendem a ser as decisões. Regulamentação e transparência aparecem como instrumentos de fortalecimento da confiança entre Estado e sociedade”.

Patrícia Nepomuceno, presidente do IRELGOV na gestão 2024–2026, fez um balanço do ciclo recente da entidade. Ela lembrou que, há dois anos, a posse em São Paulo marcou uma etapa de crescimento, estruturação e definição de processos internos. Desde então, o instituto promoveu duas missões internacionais, a Washington e Bruxelas, e ampliou sua agenda de relações governamentais e políticas públicas. A gestão também fortaleceu o programa de mentoria, que envolveu 145 pessoas, além de 24 bolsistas, e impulsionou cursos e publicações. “O avanço institucional foi acompanhado por instrumentos, como o IRELGOV Mais, o selo de boas práticas, o conselho honorário e o comitê de ética.”

A presidente eleita para a gestão 2026-2028, Lara Gurgel, destacou que sua trajetória começou no voluntariado e no planejamento estratégico, antes de assumir a diretoria-executiva. Ela ressaltou a condição do IRELGOV como a maior instituição de relações governamentais do Brasil. “O crescimento do instituto depende da participação ativa dos associados na construção de suas pautas. Devemos ser um espaço de contribuição coletiva e debate cada vez mais aberto à sociedade”.

Juliana Marra, vice-presidente do IRELGOV na gestão 2024–2026, reforçou que o instituto acumula uma agenda robusta de treinamentos, capacitações e webinares. “O desafio agora é atrair ainda mais pessoas interessadas em conteúdo qualificado e em troca profissional consistente. Todos temos um ponto em comum: o desejo de fortalecer a área”.

Da direita ao centro

O primeiro painel do palco principal – “Relgov 360º – Política nacional: da direita ao centro” – abriu espaço para uma conversa franca sobre o papel das relações governamentais em um cenário de radicalização política. Conduzido pela diretora-executiva do IRELGOV, Mariana Chaimovich, contou com a presença do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, entrevistado por Mariana Guimarães, da SETA Public Affairs, Juliana Marra, da Unilever, e Bruno Perman, conselheiro honorário do IRELGOV, e Marina Zago, professora na FDUSP.

Leite destacou como as demandas chegam ao poder decisório. “É essencial que profissionais de RelGov atuem com relacionamento qualificado, traduzindo temas técnicos para vereadores, secretários, prefeitos e governadores. Nós, políticos, não temos como conhecer profundamente todos os temas: uma interlocução bem estruturada evita que o debate seja capturado por simplificações e protege a sociedade de decisões baseadas em percepções equivocadas”. Para ele, a legitimidade do lobby cresce quando ele se ancora em transparência, ética e evidências e o diálogo institucional se fortalece quando o setor privado e a sociedade civil participam de forma técnica e organizada.

Ao analisar o contexto político, o governador apontou que o Brasil vive um movimento de polarização que se conecta a tendências globais. Segundo ele, a frustração da classe média e a sensação de estagnação funcionam como terreno fértil para o populismo, tanto de direita quanto de esquerda. Nesse ambiente, soluções complexas perdem espaço para narrativas fáceis que elegem culpados e prometem respostas imediatas.

Leite revelou que o gestor público recebe melhor propostas da iniciativa privada que sejam tecnicamente estruturadas e já alinhadas com a área técnica do governo. Ele destacou que o país só avança quando Estado e iniciativa privada reconhecem que compartilham o mesmo destino. “Precisamos ter um setor privado vibrante que empreenda e gere riqueza. E é claro que haverá relações com o estado. É preciso ter uma regulamentação, mas que não impeça o empreendedorismo e que ao mesmo tempo resguarde os interesses da sociedade”.

Admirável mundo novo

O mundo está diante do fim da ordem multipolar? Como o Brasil deve se posicionar nesse novo contexto? Essa e outras perguntas estiveram presentes no painel “Relgov 360º – Nova geopolítica: o comércio exterior em ambiente de mudanças geopolíticas”, que reuniu Tatiana Prazeres, secretária de Comércio Exterior do MDIC, ao lado dos entrevistadores Ana Paula Duarte, coordenadora de Relações Institucionais e Governamentais (RIG) na TOTVS, Erik Camarano, conselheiro honorário do IRELGOV, Feliciano Sá Guimarães, editor-chefe do CEBRI-Journal e Floriano Pesaro, diretor de Gestão Corporativa (COO) da ApexBrasil.

A discussão partiu da constatação de que o cenário global já não é mais guiado apenas pela lógica econômica, mas por segurança nacional, disputas tecnológicas e reacomodação de blocos. Nesse contexto, a atuação de RelGov foi apresentada como instrumento essencial para interpretar riscos, abrir mercados e sustentar estratégias de longo prazo. Tatiana Prazeres observou que o comércio internacional atravessa uma mudança profunda, marcada por maior ceticismo em relação à integração e por uma leitura mais ampla dos riscos. Segundo ela, a fronteira entre comércio e segurança nacional ficou mais porosa, e decisões antes restritas à economia agora envolvem soberania, dados e infraestrutura crítica.

Para Tatiana, o Brasil reúne ativos raros, como potência alimentar, abundância de água e menor exposição direta aos grandes conflitos geopolíticos. Essa condição amplia sua margem de manobra, mas exige autonomia, preparo técnico e capacidade de negociação em múltiplas frentes. “É essencial não se alinhar de forma automática e ser percebido como um país capaz de manter sua autonomia política. O fato de o Mercosul ter fechado acordos com EFTA (Associação Europeia de Livre Comércio, composta por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein), Cingapura e União Europeia nos fez dar um salto de inserção entre os países que valorizam o comércio baseado em regras e acreditam no potencial da integração”.

Em relação à China, Prazeres destacou que sua ascensão representa uma mudança estrutural na ordem internacional e exige leitura geoeconômica permanente. “A China aprendeu a calibrar respostas, a operar dentro das organizações multilaterais e a defender a estabilidade de organizações como a OMC (Organização Mundial do Comércio)”.

Coesão social pela democracia

O painel “IRELGOV Entrevista – Democracia” contou com a participação de Denilde Holzhacker, doutora em Ciência Política pela USP e coordenadora-geral de pesquisa e pós-graduação stricto sensu da ESPM, que trouxe reflexões sobre os desafios contemporâneos das democracias, participação política e cenário internacional. A conversa, conduzida por Carlos Petiz, senior fellow do IRELGOV, traçou um panorama dos sistemas democráticos no mundo atual.

A discussão partiu da constatação de que a democracia ainda organiza a política internacional, embora sob pressões muito mais intensas. Diante das aceleradas transformações pelas quais o mundo vem passando nos últimos anos, a pergunta central passou a ser se os princípios democráticos seguem estruturando as relações entre Estados ou se foram relativizados.

Denilde Holzhacker lembrou que sua formação começou no início dos anos 90, em meio à redemocratização brasileira e ao entusiasmo com a expansão da participação social. Naquele momento, parecia natural imaginar uma governança global mais aberta à sociedade, aos movimentos e à opinião pública. Hoje, afirmou, o quadro é outro: os mecanismos de pressão persistem, mas os espaços institucionais estão mais restritos. “O enfraquecimento dos fóruns centrais, a mudança de estratégia dos Estados Unidos e o desgaste das instituições multilaterais redesenharam o ambiente. Ainda assim, acredito que a sociedade pode construir novos canais de influência, inclusive por meio de governos locais e arranjos mais descentralizados”.

Ao analisar a crise democrática, a professora da ESPM destacou que o mundo vive o maior número de autocracias das últimas décadas. Segundo ela, o cenário atual combina democracias limitadas, regimes eleitorais com baixa liberdade e autocracias fechadas. A desinformação, nesse contexto, não aparece como causa única, mas como parte de uma transformação mais ampla na comunicação. Com a migração para sistemas descentralizados e o avanço dos algoritmos, o problema deixou de ser apenas a fake news e passou a envolver a velocidade e a circulação das narrativas.

Nesse cenário, a coesão social passou a ser um fator decisivo para a sobrevivência das instituições democráticas. Ao olhar para o Brasil, Holzhacker afirmou que um mundo bipolar ou multipolar trará desafios e oportunidades distintos, exigindo decisões estratégicas do país. “Para o novo profissional de RelGov, a principal habilidade será pensar criticamente. Outro ponto importante é ser capaz de ter resiliência, porque teremos um mundo com muita incerteza”.

Representação política e transformações sociais

O painel “RelGov 360º – Participação política e sociedade” reuniu Marlon Reis, presidente-executivo da Brazil Tang Chinese Education & Technology e idealizador da Lei da Ficha Limpa e, como entrevistadores, Ariela Zanetta gerente-executiva de Relações Institucionais e Governamentais (RIG) da TOTVS, Gabriel Morais, diretor de Relacionamento Institucional do RenovaBR, Janina Onuki, professora titular do Departamento de Ciência Política da FFLCH-USP e Lara Gurgel, diretora-executiva da Associação Brasileira das Empresas de Transporte Internacional Expresso de Cargas (ABRAEC). O debate abordou cidadania, participação social, fortalecimento institucional e os desafios da representação política em um ambiente de constantes transformações sociais e tecnológicas.

Será que estamos construindo uma cidadania mais participativa? Marlon Reis revelou que nunca viu um momento de tanta ebulição política, causado por um desejo das pessoas por maior envolvimento das decisões. “Democracias só fazem sentido como instrumentos para canalizar vontades, e o problema é que hoje ninguém está se sentindo ouvido”.

Ao retomar a trajetória da Lei da Ficha Limpa, Marlon afirmou que ela se tornou parte do DNA da democracia brasileira. Segundo ele, a mobilização popular foi decisiva para transformar um movimento nacional em norma aprovada e incorporada ao sistema político. Desde 2010, a lei já levou cerca de 6 mil pessoas à inelegibilidade, mudando a lógica da disputa eleitoral no país. “Houve uma grande mobilização da sociedade na época, que ajudou a conseguirmos a aprovação. Mas é uma lei que não precisaria existir se a sociedade fosse organizada e cobrasse os políticos”.

O painelista defendeu ainda que o Brasil precisa enfrentar novos marcos institucionais, incluindo o debate sobre o artigo 9º da Constituição. O desafio é construir um sistema mais transparente, mais plural e mais conectado à sociedade real. “Nosso sistema político hoje é inconstitucional, pois não reflete nossa diversidade como povo. O congresso nacional não faz sentido se não for um espelho da sociedade. E, para isso, RelGov e participação cidadã precisam caminhar juntos”, afirmou.

Lobby, fundamento da democracia

O evento também promoveu o painel “IRELGOV Entrevista – Lobby”, com a ex-senadora e comentarista do Canal Agro, Ana Amélia Lemos, em conversa conduzida por Gilvan Bueno, diretor regional do IRELGOV no RJ e comentarista da CNN Brasil, sobre transparência, diálogo institucional, evolução da atividade de lobby no Brasil e o papel da atividade no aprimoramento das decisões públicas.

Bueno abriu a discussão destacando a relevância do tema em um momento de intensa disputa de narrativas. Para Lemos, as relações institucionais e governamentais já não podem ser vistas como algo marginal, mas como parte essencial da engrenagem democrática. Para ela, o termo lobby foi por muito tempo manchado por associações negativas, embora hoje haja mais compreensão sobre sua função legítima. No Brasil, a luta pela regulamentação ganhou fôlego ainda em 2007, com apoio de nomes como Marco Maciel. “É importante para a legislação brasileira e para a democracia”.

Ana Amélia ressaltou que, em função da representatividade que a atividade começa a ter junto a autoridades, o lobby é hoje uma profissão cada vez mais qualificada e generalista, exigindo compromisso ético permanente. “Num país com tanta insegurança jurídica, a regulamentação trará tranquilidade para quem exerce a atividade com transparência”.

A ex-senadora citou temas como aumento de importações chinesas, carga tributária, taxa de juros e discussões sobre a jornada de trabalho como exemplos de agendas que pedem articulação técnica. “Em vez de radicalização, o país precisa ampliar o diálogo institucional e superar a lógica do confronto. Só assim o lobby deixará de ser tratado como ruído e passará a ser reconhecido como instrumento legítimo da democracia”.

Construção de consensos na política

Encerrando a programação do palco principal, o painel “RelGov 360º – Política nacional: da esquerda ao centro” levou ao público temas como desenvolvimento sustentável, direitos humanos, participação política e políticas públicas voltadas ao futuro do país. O encontro teve como entrevistada a deputada estadual Marina Helou, com mediação da presidente do IRELGOV na gestão 2024-2026, Patricia Nepomuceno, e participação da conselheira honorária do IRELGOV, Suelma Rosa; Aline Siqueira (Unilever); Mariana Chiesa (Insper e FGV Law) e Helena Mader (SETA).

Marina Helou, deputada estadual de São Paulo, afirmou que o sistema político hoje é fortemente moldado pelas emoções. Na sua leitura, o centro passou a ser visto muitas vezes como falta de posição, quando deveria representar capacidade de diálogo e de construção. A política, segundo ela, deixou de ser um espaço apenas institucional e passou a ser atravessada pelas redes sociais. “Hoje, elas moldam o comportamento político. Nesse ambiente, a disputa por likes e reconhecimento tem pressionado o debate e reduzido a qualidade da conversa pública”.

Helou explicou que sua atuação parlamentar parte da tentativa de construir pontes, e não de aprofundar embates. Segundo ela, isso a afasta dos extremos e, ao mesmo tempo, amplia a possibilidade de diálogo com diferentes setores da sociedade. “Quando a polarização domina o debate, o Parlamento tende a funcionar mais pela lógica da desmoralização do outro do que pela construção de soluções. Isso enfraquece as instituições e compromete a credibilidade do país”. Para a parlamentar, a sociedade precisa recuperar a consciência de que tem poder para cobrar qualidade da representação política.

Ao tratar das diferenças entre campos ideológicos, Helou afirmou que pautas como meio ambiente, gênero e primeira infância não pertencem a um único lado do espectro. O desafio está na qualidade do debate e na coragem de construir consensos. “O futuro dependerá da capacidade de reduzir a lógica do antagonismo e recuperar a disposição para conversar. E essa é uma tarefa que envolve Parlamento, governo, setor privado e sociedade civil ao mesmo tempo”.

Padrões que fortalecem o relgov

O primeiro painel do Espaço IRELGOV+, “ESG, Rastreabilidade e o Papel de Relações Governamentais”, mostrou como padrões globais de identificação – conhecidos pelo código de barras unidimensional ou pelos QR Codes – contribuem para a viabilização de políticas de ESG (Ambiental, Social e Governança), a economia circular e o fortalecimento de Relações Governamentais (RelGov).

O destaque foi a atuação da GS1 Brasil (Associação Brasileira de Automação), associação técnica que congrega mais de 61 mil associados, cujo objetivo é estabelecer padrões globais de identificação para itens, caixas, paletes e localizações, com utilidade na indústria, no varejo e nos distribuidores. “Somos uma entidade que agrega vários setores da economia. Daqui a uns dias, vamos bater a marca de 70 segmentos da economia representados dentre os nossos associados”, afirmou Leonardo Nunes, analista Sênior de Relações Governamentais da GS1 Brasil.

Líder de relacionamento da GS1 com atores governamentais, Pedro Henrique Di Martino revelou que a atuação da empresa na área de RelGov em Brasília é pautada na construção de canais de comunicação técnicos com o governo. “É impossível viabilizar a sustentabilidade em larga escala sem a participação ativa do Estado e o engajamento técnico dos setores produtivos e dos consumidores. O consumidor precisa de informação clara e confiável na gôndola para basear suas decisões de compra — seja para avaliar a pegada de carbono ou a origem ética do produto. A informação de qualidade confere segurança à decisão de consumo, e é nesse ecossistema de transparência que atuamos de forma integrada com a sustentabilidade”.

Carina Lins, coordenadora de sustentabilidade da GS1 Brasil, explicou que a empresa compreendeu que poderia ir além, elevando a sustentabilidade ao patamar de pilar estratégico de negócios na GS1. “Em 2022, realizamos uma revisão profunda da nossa estratégia e definimos quatro grandes pilares estratégicos: bioeconomia e biodiversidade, economia circular, rotulagem ambiental e inteligência de dados. Precisamos escutar ativamente o mercado, compreender a evolução tecnológica e as novas exigências regulatórias, e conectar as diferentes bases de dados existentes para entregar informações qualificadas e transparentes tanto para o consumidor final quanto para o órgão regulador. A colaboração é o único caminho.”

Antirracismo e relgov

Quais as interseções entre as práticas de Relações Governamentais (RelGov) e o antirracismo? As respostas foram debatidas no segundo painel do dia, quando foram apresentados os dados da pesquisa “Relações Governamentais e antirracismo — Estratégia ou apenas discurso?”, realizado em parceria com o Coletivo Pretas e Pretos em RelGov e com o apoio da Fundação Tide Setubal.

Dayana Moraes, consultora de diversidade e políticas públicas e uma das organizadoras do estudo, disse que no início os pesquisadores se depararam com um primeiro desafio – o receio dos entrevistados em abordar o tema. “Esse posicionamento já representava um diagnóstico claro do tamanho do desafio que tínhamos pela frente. Identificamos dados muito interessantes, como quando perguntamos sobre as estruturas dedicadas à temática de diversidade nas áreas de RelGov das empresas ou organizações: 36% indicaram que não possuem qualquer tipo de área ou comitê definido. Somente 28% das empresas possuem uma área específica para equidade racial; 24% integram a pauta dentro de uma estratégia mais ampla de diversidade e inclusão; e 12% realizam apenas ações pontuais”.

Para Jaqueline Brito, coordenadora do coletivo Pretas e Pretos em RelGov, em 2020 já era possível perceber esse isolamento que ao qual a pesquisa deu contornos numéricos, evidenciando a escassez de profissionais pretos no setor e a quase total ausência em posições de gestão e liderança. “Embora muitas companhias estejam avançando com comitês e grupos de afinidade — o que é excelente —, o grande desafio é estruturar metodologias que institucionalizem o antirracismo nas políticas internas da empresa. O tema não pode ficar vulnerável a mudanças de gestão, pois quando o processo é institucionalizado e integrado aos processos de avaliação de risco e conformidade da empresa, ele ganha blindagem e sobrevive às oscilações institucionais. Precisamos incorporar a análise de impacto racial e social em nossos relatórios e defesas institucionais. O papel do profissional de RIG moderno é reconhecer essas assimetrias socioambientais e subsidiar a formulação de estratégias corporativas e políticas públicas mais diversas, justas e representativas para o país”.

Aumento da licença-paternidade para um mundo mais justo

O painel “Licença-paternidade, masculinidade e a economia do cuidado” discutiu um dos avanços estruturais mais significativos das últimas décadas no Brasil: a aprovação da ampliação da licença-paternidade, liderada pelo Movimento Mulher 360 e pela coalizão CoPai (Coalizão Licença Paternidade). Com isso, a licença legal no Brasil será ampliada gradualmente ao longo de três anos, passando de 5 para 20 dias. O debate central focou em demonstrar que, embora a vitória legislativa seja histórica, o verdadeiro desafio reside na transformação cultural e de mindset necessária para que a lei se converta em realidade prática nas famílias e nas corporações.

De acordo com Margareth Goldenberg, que lidera o Movimento Mulher 360, principal apoiador e patrocinador do movimento CoPai (Coalizão Licença Paternidade), após um árduo trabalho de dois anos no Congresso Nacional, a próxima fase é ainda mais desafiadora: a transformação de mentalidade (mindset) e de cultura, algo que depende diretamente de cada um, das corporações e da sociedade como um todo para se concretizar. “Conheço inúmeras empresas que já ofereciam uma licença ampliada de forma voluntária antes mesmo da nova lei, mas o grande obstáculo era que os homens simplesmente não usavam o benefício. Ou, quando utilizavam, não compreendiam o real propósito do período, que é cooperar na adaptação à nova rotina familiar. Sem essa mudança de comportamento nas relações cotidianas, a lei corre o risco de virar letra morta”, afirmou. Goldenberg anunciou, em primeira mão, a criação de um selo de certificação — cujo nome provisório é “Selo Pró-Família” — com o apoio de organizações multilaterais de grande relevância, para certificar e valorizar as empresas que adotam práticas exemplares de acolhimento familiar. “Sabemos que o mundo corporativo responde muito bem a selos, rankings e certificações, e usaremos essa ferramenta para acelerar a transformação”.

A advogada e escritora Ruth Manus acredita que é importante debater profundamente a masculinidade, pois se a forma como os homens se colocam na estrutura social não for alterada a equação não será resolvida. Segundo ela, a ampliação da licença-paternidade não é um favor ou uma concessão paternalista. “Isso é excelente para o homem. Qualquer pai que compreenda a dignidade de seu papel sabe o valor inestimável de acompanhar de perto esse início de vida. Os filhos precisam afetar a carreira dos pais da mesma forma que afetam a carreira das mães. Precisamos parar de tratar esse impacto na carreira como um “dano” intransponível. Devemos encarar isso como algo natural e benéfico para o filho e para o pai e, por consequência justa, como uma divisão equilibrada na vida da mulher”.

O jogo de poder no Brasil

O painel “Previsibilidade institucional e a dinâmica do poder real em meio à incerteza”, conduzido por Iago Bolívar, diretor de conteúdo do JOTA, destacou como, no Brasil, o ambiente institucional passou a depender menos da letra da lei e mais da dinâmica concreta do poder. Ao tratar da relação entre incerteza política e tomada de decisão, ficou claro que pequenas alterações regimentais e administrativas podem redesenhar completamente a correlação de forças em Brasília.

Na avaliação do jornalista, o ambiente político recente tornou o trabalho de Relações Governamentais (RelGov) mais complexo, exigindo leitura constante de movimentos formais e informais. Isso ocorre porque o jogo institucional deixou de ser explicado apenas por grandes reformas e passou a ser influenciado por mudanças discretas, porém decisivas.

Um dos pontos centrais da apresentação foi um estudo liderado por Fernando Mello, do JOTA, publicado na American Political Science Review, que analisou pedidos de credenciamento na Câmara dos Deputados. Os dados mostram que, entre 1995 e 2018, sindicatos e associações de classe dominavam amplamente o acesso. A partir de 2019, porém, os representantes diretos de empresas privadas ultrapassaram essas organizações pela primeira vez na série histórica. A mudança foi atribuída ao fim do financiamento empresarial de campanhas, que encerrou a lógica do lobby preventivo antes das eleições. Com campanhas sustentadas majoritariamente por recursos públicos, as empresas passaram a estruturar áreas de RelGov mais robustas para dialogar com parlamentares já eleitos.

Em um cenário político e institucional de alta volatilidade, onde as forças de poder parecem agir de forma imprevisível por meio de mudanças regulatórias ou portarias governamentais, analisar esses acordos de bastidores e as teias de interesse real é o que de fato reduz a incerteza para as empresas. “Compreender o fluxo real de poder é hoje condição básica para reduzir riscos e antecipar cenários. Nesse contexto, o JOTA busca transformar informação qualificada em instrumento de previsibilidade para empresas e agentes públicos”, disse.

Opinião pública, polarização e estratégia

Como a sociedade percebe o país e as instituições? Essa questão fundamental para o exercício da atividade de Relações Governamentais (RelGov) no Brasil foi um dos pilares da pesquisa “Tensões culturais — Opinião pública, polarização e estratégia de RelGov”, tema deste painel do Espaço IRELGOV+.

O painel, conduzido por Thomaz D’Addio, diretor executivo da ágora, apresentou a quarta edição da pesquisa, realizada em parceria com a Quiddity, empresa de pesquisa do ecossistema Untold, do qual a ágora faz parte. O levantamento parte da premissa de que, para dialogar com o setor público, é preciso compreender como a sociedade se enxerga. O estudo foi apresentado como um termômetro sobre comportamento, sentimentos, economia, confiança institucional e consumo de mídia no Brasil, capaz de orientar estratégias de Relações Governamentais, Public Affairs e comunicação em um ambiente marcado por polarização e fragmentação.

Um dos principais pontos foi o chamado “efeito gangorra” emocional: 78% dos entrevistados disseram acreditar que 2026 será melhor do que o ano anterior.
Ainda assim, apenas 46% afirmaram começar o ciclo cheios de energia, enquanto 43% declararam viver um estado de ansiedade ou preocupação.

A pesquisa revela um brasileiro otimista, mas exausto, que acumula cansaço crônico após anos de tensão econômica e social. “A polarização também molda a forma como cada grupo lê a realidade econômica. Entre os entrevistados que se identificam com a esquerda, só 38% acreditam na alta da inflação; entre os que se declaram de direita, o índice salta para 78%”.

No campo da informação, WhatsApp, YouTube, buscadores e Instagram lideram o consumo, mas a confiança ainda se concentra no núcleo íntimo e no rádio.
Diante desse cenário, o painel recomendou que as estratégias de RelGov sejam construídas em camadas. “No centro está o decisor; ao redor, especialistas, think tanks e academia; e, por fim, a opinião pública e a mídia local, decisivas para furar bolhas. Para nós, profissionais de Relações Governamentais e Public Affairs, o grande ensinamento dessa pesquisa é que, ao desenharmos uma estratégia de posicionamento de marca ou de defesa de interesses no debate público, precisamos ter clareza de que qualquer informação técnica ou dado factual que apresentarmos será recebido de forma dual pela sociedade”.

O novo profissional de Relações Governamentais

A apresentação da pesquisa “Perfil, competências e habilidades do novo profissional de Relações Governamentais”, por Mariana Chaimovich, diretora-executiva do IRELGOV, e Tatiane Guimarães, assistente de pesquisa do instituto e mentora na Dama Consultoria, trouxe ao centro do debate a profissionalização das relações governamentais no Brasil. A pesquisa parte da constatação de que o antigo estereótipo do profissional baseado apenas em contatos já não dá conta da complexidade do setor e que hoje é importante identificar competências, trajetórias e padrões que sustentem uma atuação mais estratégica e legítima diante do poder público.

A metodologia combinou 19 entrevistas semiestruturadas com organizações de diferentes perfis e a análise de cerca de 100 vagas reais do mercado. O recorte revelou trilhas distintas entre terceiro setor, empresas, consultorias, associações setoriais e escritórios de advocacia. No ambiente corporativo, o desafio é explicar à alta gestão o valor estratégico da área e afastar leituras reducionistas sobre lobby. Já no terceiro setor, sobressaem propósito e impacto social, embora o orçamento limitado ainda imponha restrições importantes à carreira. Nas consultorias, a rotina aparece como intensa e multifacetada, enquanto nas associações a habilidade central é a articulação política entre interesses divergentes. Os escritórios de advocacia, por sua vez, têm forte ancoragem jurídica e regulatória.

“Anteriormente, nossa atividade era caracterizada por uma dependência excessiva de atributos de relacionamento puramente pessoais e dinâmicas informais de contatos. Hoje, observamos um esforço coordenado do mercado para transformar o RelGov em uma atividade científica, baseada em análise técnica profunda, evidências empíricas consistentes de impacto socioeconômico e planejamento estratégico de longo prazo alinhado aos objetivos de negócio das companhias”, explicou Tatiane Guimarães.

De acordo com Mariana Chaimovich, a pesquisa demonstra que, em RelGov, existe um espaço de enorme valor para o desenvolvimento de especialistas técnicos seniores focados em análise de inteligência de dados, produção de conteúdo técnico de alta qualidade e modelagem de cenários de risco político de back office. “O profissional técnico pode e deve crescer e ser valorizado em planos de carreira dedicados, sem que precise necessariamente assumir atribuições de liderança administrativa de pessoas para as quais ele talvez não possua afinidade”, disse.

Processos e compliance para maior segurança

O painel “Integração e cooperação entre as áreas de Relgov e Compliance: Oportunidades e Boas Práticas” debateu a engrenagem que sustenta a atuação institucional da companhia, mostrando como a área de RelGov deixou de ser apenas uma frente de relacionamento para se consolidar como estrutura de inteligência, governança e proteção jurídica.

Em uma empresa de alta complexidade operacional como a Vale, a previsibilidade das decisões depende de processos bem desenhados e de uma leitura qualificada do ambiente regulatório. A defesa de interesses exige método, rastreabilidade e integração entre áreas e relacionamento público, quando bem estruturado, também é instrumento de gestão de risco. Essa lógica vem moldando a atuação da empresa em diferentes esferas de poder e o resultado é uma cultura corporativa que busca converter informação em governança.

Segundo Vitor Pedrosa, da equipe de Relações Institucionais da Vale em Brasília, a empresa mantém cerca de 70 profissionais distribuídos entre as frentes internacional, federal, estadual e municipal. “Esse time está estruturado entre as frentes de relações internacionais, relações governamentais no âmbito federal e relacionamento em nível estadual e municipal. Cobrimos todas as localidades onde a empresa possui operações ativas de ferrovias, portos e mineração. Além dessas frentes de campo, temos as nossas áreas corporativas de suporte”. A estrutura, explicou, permite transformar monitoramento político e regulatório em inteligência de cenários.

Na diretoria de gestão, Luciana Amantea detalhou uma célula de oito profissionais dedicada ao suporte técnico de RelGov de campo. O trabalho se organiza em quatro frentes: planejamento estratégico, inteligência da informação, engajamento institucional e dispêndios externos. “Esse trabalho de bastidor desenvolvido pela equipe de gestão garante previsibilidade, consistência e conformidade ética para os profissionais que estão na linha de frente do relacionamento institucional”, explicou.

A empresa também finaliza uma nova Política de Relações Institucionais e Governamentais, construída a partir de benchmarking com grandes organizações. Para Marina Hecksher, da equipe de Integridade Corporativa, a documentação rigorosa é uma salvaguarda, e não uma barreira. “Quem ouve falar sobre esse volume imenso de sistemas de registro, regras corporativas de conformidade e políticas rigorosas que precisam ser alimentadas pode pensar que é uma burocracia sem fim. Mas este olhar integrado sob a ótica de compliance demonstra o real valor dessas ferramentas. Esses mecanismos protegem não apenas a reputação da pessoa jurídica, mas garantem a salvaguarda jurídica do próprio profissional na pessoa física, já que a legislação anticorrupção prevê a punibilidade individual dos envolvidos”.

Riscos da radicalização eleitoral

No painel “Riscos políticos e Relações Governamentais em ano eleitoral”, o especialista em RelGov e Compliance e senior fellow do IRELGOV, Carlos Petiz, destacou como o ambiente político brasileiro se tornou mais instável e sensível à imagem corporativa. Em vez de uma polarização tradicional, se instalou um cenário de radicalização, no qual até marcas historicamente neutras podem ser arrastadas para disputas ideológicas. Nesse contexto, o trabalho de RelGov passa a exigir uma integração permanente com as áreas de compliance e assessoria jurídica.

Petiz ressaltou que a prevenção de risco não depende apenas de boa intenção, mas de procedimentos claros, documentação e vigilância contínua, em especial em períodos eleitorais, quando a exposição reputacional cresce de forma acelerada e pode atingir tanto a empresa quanto seus executivos. Por isso, a atuação institucional precisa ser orientada por cautela, governança e leitura fina do tabuleiro político. Um dos pontos centrais foi a distinção entre os riscos que recaem sobre a pessoa jurídica e aqueles que afetam a pessoa física.

Petiz também chamou atenção para a politização involuntária de marcas, lembrando casos recentes que expuseram empresas a crises de imagem. Diante desse cenário complexo, o que os profissionais de Relações Governamentais devem fazer para proteger as organizações? “O primeiro passo é óbvio é preciso redobrar a atenção e o rigor ético em todas as interações e reuniões mantidas com tomadores de decisão pública. Em segundo lugar, as áreas de RelGov precisam atuar em total sinergia com os departamentos Jurídico, de Compliance e de Relações Públicas (PR) da empresa. Cabe a nós orientar ativamente o conselho de administração (board), os acionistas e as lideranças executivas sobre as restrições legais e os riscos reputacionais inerentes ao período eleitoral”.

Muitas corporações desenvolvem e distribuem cartilhas internas de orientação eleitoral e termos de conduta para redes sociais. Essas diretrizes lembram aos colaboradores que a publicação de posicionamentos radicais ou o uso de marcas da empresa em perfis pessoais pode gerar sérios prejuízos de imagem para a companhia. “A paixão e as escolhas políticas pertencem aos indivíduos e o nosso papel técnico é garantir que essas escolhas não asfixiem a sobrevivência e a reputação das corporações”.

Como regulamentar o lobby?

O painel “A regulamentação do lobby no Brasil — Mitos, desafios e os modelos de referência” conduzido por Rafael Arantes, diretor da ABRIG SP (ABRIG  – Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais) e diretor de relações institucionais da Dasa, levou ao público um debate sobre a regulamentação do lobby no Brasil e defendeu a urgência de um marco legal nacional para a atividade. Segundo ele, a ausência de regras claras mantém a representação de interesses em um limbo institucional que prejudica empresas, autoridades e profissionais.

Arantes destacou que o lobby continua sendo tratado com desconfiança, apesar da crescente sofisticação técnica do setor, e argumentou que a regulamentação pode conferir legitimidade, segurança jurídica e previsibilidade às relações com o poder público, além de ser essencial para democratizar o acesso às decisões públicas. Ao tornar o diálogo institucional mais transparente e equilibrado, é possível proteger tanto quem representa quanto quem recebe as demandas. “A ABRIG SP defende a regulamentação baseada em três princípios fundamentais: o diálogo transparente, a segurança jurídica para o profissional e para a autoridade, e a democratização do acesso. A ausência de uma lei regulatória faz com que o acesso ao tomador de decisão seja um privilégio restrito aos grandes grupos econômicos e aos profissionais mais experientes e influentes do mercado”.

Segundo ele, o excesso de burocracia adotada no modelo dos Estados Unidos acabou concentrando o mercado em grandes grupos capazes de arcar com altos custos de conformidade. Em contrapartida, o exemplo chileno foi apresentado como referência de simplicidade, gradualismo e transparência ativa. “Propomos um modelo de registro leve e digital, minimalista e simplificado, inspirado no Chile, focado na declaração das audiências mantidas e temas discutidos, sem exigir complexas e intermináveis comprovações financeiras ou relatórios exaustivos de despesas que inviabilizariam a atuação de profissionais independentes ou pequenos setores econômicos”.

Gênero como estratégia

Debater a presença de mulheres nos espaços decisórios: esse foi o objetivo do painel “Gênero, políticas públicas e mulheres em RelGov — A saúde como estratégia para governos e empresas”. Conduzido por Fabi Marra, da Associação Mulheres em RelGov, e Tacyra Valois, vice-presidente da ABRIG e pesquisadora do Cebrap, o painel debateu a inserção das mulheres nos espaços de poder, a diferença entre igualdade e equidade de gênero, e a importância de usar dados científicos e recortes territoriais específicos para desenhar políticas públicas e corporativas de saúde e de trabalho que gerem real impacto e justiça social.

O primeiro passo é reconhecer diferenças de forma a produzir justiça social. Essa é uma condição sine qua non tanto para o Estado quanto para organizações privadas. De acordo com as debatedoras, saúde e trabalho precisam ser tratados como dimensões estratégicas de governança e não como temas periféricos em relação às decisões centrais de política e gestão.

Valois destacou que equidade não se resume a declarar que há espaço para mulheres. Segundo ela, é preciso criar mecanismos capazes de compensar barreiras estruturais e desigualdades acumuladas. A pesquisadora apresentou a pesquisa CoPHS (Co-production of Health Services), desenvolvida em parceria internacional e aplicada no Brasil, Índia e África do Sul. No recorte brasileiro, o estudo observou a atenção primária em São Paulo e Fortaleza. A proposta, explicou, é traduzir a escuta da comunidade em indicadores concretos de gestão. Isso permite que o gestor público enxergue diferenças territoriais, de renda e de acesso aos serviços. Sem esse recorte, as médias escondem problemas reais. Com ele, a política pública se torna mais precisa, mensurável e justa. “A grande lição desse estudo é que não basta garantir o “lugar de fala” para as mulheres ou para as comunidades; é preciso consolidar o lugar de escuta. O Estado e as organizações precisam de uma escuta ativa qualificada, capaz de traduzir os relatos das pessoas em indicadores consistentes”, disse.

A apresentação também trouxe o projeto de cálculo do salário digno, em parceria com o Anker Research Institute e o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). O modelo incorpora, de forma inédita, o custo do cuidado não remunerado, tema que ainda recai majoritariamente sobre as mulheres. Tacyra Valois mostrou que pensar remuneração sem considerar território, moradia, alimentação e transporte produz diagnósticos incompletos. Na mesma linha, anunciou o lançamento do Observatório de Saúde Corporativa da ASAP, na Fiesp. A iniciativa busca apoiar empresas na gestão inteligente de saúde, um dos seus maiores custos operacionais.

Fabiana Marra defendeu práticas de decência organizacional, como horários flexíveis, trabalho híbrido e licenças parentais ampliadas. Ela ressaltou que muitas empresas de tecnologia e bens de consumo já oferecem licenças maternidade de seis meses e licenças paternidade de 30 ou 60 dias de forma totalmente voluntária, independentemente de incentivos fiscais estatais ou de legislação, simplesmente porque compreenderam o valor estratégico de reter talentos qualificados. “Nós, enquanto assessores estratégicos das empresas em RelGov, não devemos limitar nossa atuação à análise estrita do cumprimento da legislação vigente. Precisamos incentivar as nossas organizações a escutarem ativamente suas bases e a adotarem práticas de governança interna verdadeiramente democráticas”.

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A superação do lobby tradicional na gestão das cidades dinâmicas: o caso Goiânia como paradigma de necessidade técnica

Gustavo Carvalho é sócio e diretor-executivo da Métrica Viabilidade

Goiânia é hoje a terceira capital brasileira em valorização imobiliária, com crescimento médio de 11,5% no último ano, segundo o Índice Fineza. Esse dinamismo, contudo, revela uma das mais agudas patologias das cidades em rápida expansão: a persistência de um modelo de interlocução público-privada que confunde acesso com expertise e negociação política com planejamento urbano.

A crescente sofisticação do mercado imobiliário goiano contrasta dramaticamente com a inércia burocrática no atualizar de Planos Diretores e com a prevalência de um lobby amador, centrado unicamente em contatos e em transações corruptíveis que alimentam vazios urbanos, desigualdades territoriais e conflitos jurídicos irresolúveis. 

A tese que proponho é simples em sua formulação, mas radical em suas implicações: O Plano Diretor de cidades dinâmicas não pode ser refém da inércia estatal nem do lobby tradicional de balcão; exige-se, em seu lugar, um Lobby Técnico que atue como ponte inteligente entre a uranologia de vanguarda e a política real, baseado em dados robustos, análise multidisciplinar e segurança jurídica preditiva.

O crescimento imparável como fato econômico

A Região Metropolitana de Goiânia (RMG) concentra 90% de sua população em apenas quatro municípios (Goiânia, Aparecida de Goiânia, Senador Canedo e Trindade), refletindo um crescimento que não responde à vontade política, mas a dinâmicas econômicas estruturantes. Entre 2020 e 2022, o mercado imobiliário local registrou alta de 63% nas vendas no primeiro quadrimestre de 2022, com 4.237 unidades lançadas—praticamente o triplo do mesmo período em 2021. Aproximadamente 42% dos lançamentos desde 2020 procedem do programa Casa Verde Amarela, evidenciando a financeirização acelerada da moradia urbana. 

O vácuo de qualidade em infraestrutura urbana que resulta desse modelo é preenchido, subsequentemente, por conflitos jurídicos, custos de remediação exponenciais e fragmentação territorial. Goiânia já exibe os sinais: aproximadamente quatro cidades da RMG (Trindade, Goiânia e Aparecida de Goiânia) lideram índices nacionais de retomada de casas por inadimplência, segundo levantamento BTG Pactual/Resvale. A financeirização predatória da moradia, sem regulação técnica clara e sem segurança jurídica, transformou-se em máquina de exclusão. 

A ilegitimidade do lobby baseado unicamente em contatos

O modelo tradicional de lobbying – fundamentado em “quem você conhece” e em transações informais com decisores públicos – é não apenas moralmente questionável, mas economicamente ineficiente para o setor imobiliário moderno. Esse modelo prospera exatamente onde impera a assimetria de informação, onde decisões urbanísticas são tomadas sem fundamentação técnica robusta, e onde a corrupção opera como lubrificante das operações.

Paradoxalmente, esse lobby tradicional gerou menos lucro ordenado para as partes envolvidas: ineficiência regulatória traduziu-se em custos ocultos de litígio, instabilidade de investimento e, consequentemente, em menor previsibilidade. O presidente da Ademi-GO, Felipe Melazzo, reconheceu em declaração recente que quando há segurança jurídica, diálogo institucional e ambiente regulatório estável, o setor responde com investimento, inovação e crescimento sustentável.” Essa assertiva é simultaneamente diagnóstico e prescrição: o setor experimenta crescimento apesar da insegurança jurídica, não por causa dela. A sofisticação do mercado exige, portanto, uma qualidade correspondente de interlocução.

O profissional de relações governamentais como “maestro” multidisciplinar

A superação do lobby amador exige a emergência de um novo profissional – não o intermediário político, mas o “maestro” de equipes multidisciplinares integradas por urbanistas, engenheiros, advogados especializados em direito urbanístico e analistas de políticas públicas. O produto dessa interlocução não é o “acesso”, mas a Nota Técnica de Viabilidade: documento que articula análise jurídica rigorosa, desenho urbanístico sustentável, viabilidade econômica comprovada, e enquadramento institucional compatível com tendências políticas reais.

Isso representa uma mudança fundamental na concepção do que é “influência”: deixa de ser poder informal para ser competência argumentativa baseada em evidências. Uma corporação que apresenta ao Poder Executivo municipal uma nota técnica rigorosa, sustentada em dados de infraestrutura, análise comparativa de legislação urbanística, e modelagem de impactos fiscais, não está “pedindo favor” – está oferecendo inteligência que reduz riscos decisórios para gestores públicos. Isso é fundamentalmente diferente de um lobby tradicional que opera via pressão ou promessas.

A tríade da viabilidade: o tripé inescapável

Nenhuma política pública de densidade urbana, reforma regulatória ou investimento imobiliário prospera sem a articulação simultânea de três variáveis interdependentes: (1) viabilidade técnico-urbanística, (2) segurança jurídica preditiva e (3) tendência política.

A variável técnica diz respeito a infraestrutura, capacidade de mobilidade, densidade populacional sustentável, e compatibilidade com padrões ambientais. A variável jurídica envolve clareza regulatória, proteção contratual, e previsibilidade de enforcement. A variável política refere-se à coalização governante, seu programa de governo, a receptividade de decisores-chave e a dinâmica eleitoral subjacente.

Nenhuma dessas variáveis pode ser negligenciada. Um projeto urbanístico impecável em seus aspectos técnicos, mas sem suporte político, nunca será aprovado. Uma reforma legal perfeitamente enquadrada em marcos legais superiores, mas tecnicamente inviável, perpetuará ineficiência. Uma janela política favorável, mas sem fundamentos técnicos e jurídicos robustos, produzirá decisões que serão revertidas ou judicializadas.

O profissional de RelGov técnico domina essas três variáveis simultaneamente, não sequencialmente. Ele não espera que a tecnologia resolva para depois buscar enquadramento jurídico, nem que a política abra janelas para depois montar argumentação técnica. Ele opera sinopticamente, identificando as restrições e oportunidades em cada eixo, e desenha estratégias que otimizam a viabilidade integrada. Isso é fundamentalmente diferente de um lobista tradicional que conhece “gente”, mas ignora engenharia.

Conformidade global e excelência técnica: o subsídio à democracia

Quando um profissional de RelGov oferece ao Poder Público uma análise rigorosa que melhora a qualidade de decisão urbanística, reduz litigiosidade, e promove crescimento mais ordenado, está oferecendo bem público, não buscando privilégio privado. A distinção é crucial: um lobista amador pressiona para que restrições urbanísticas desapareçam; um profissional técnico estabelece que certas restrições eram funcionais a objetivos já alcançados e propostas mudanças dentro de marco regulatório que preserva função social da propriedade.

Conclusão: necessidade estrutural, não opção estética

O Plano Diretor de cidades dinâmicas e em expansão rápida não pode ficar refém de dois extremos igualmente destrutivos: da inércia burocrática que congela a cidade, ou do lobby predatório que a desorganiza. Goiânia vive simultaneamente ambos—crescimento sem planejamento, sofisticação de mercado sem sofisticação regulatória.

A solução exige reconhecer que Lobby Técnico é um instrumento de boa governança, não uma patologia a ser eliminada. O setor imobiliário moderno, que gera empregos, arrecadação fiscal e movimentação de cadeias produtivas, merece interlocução de qualidade. Porém, essa interlocução só preserva legitimidade democrática quando opera via transparência, fundamentação técnica robusta e articulação sincera das três variáveis de viabilidade. 

O futuro de Goiânia como hub de valorização ordenada de imóveis e de empreendimentos imobiliários sustentáveis depende dessa transformação. Não é uma questão de preferência estética – é necessidade estrutural. O crescimento de 11,5% observado recentemente é ilusório em seu caráter “saudável” se não vier acompanhado de segurança jurídica que permita investimento de longo prazo, de planejamento técnico que distribua densidades de forma equilibrada, e de tendência política que reconheça que desenvolvimento urbano é bem público. O RelGov técnico, operando em sua plenitude, é o único caminho capaz de convergir essas exigências.

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Todos querem governar o mundo? - De Tears for Fears à lógica de poder nas Relações Governamentais

Lucas Borges é cientista político

No contexto do IV Congresso Internacional do IRELGOV, há uma questão incômoda, mas inevitável: é possível fazer Relações Governamentais de forma estratégica sem compreender, de fato, o poder? A prática cotidiana da área ainda é, em grande medida, orientada por ferramentas, rotinas de monitoramento e respostas rápidas ao ambiente institucional. No entanto, em um cenário de crescente complexidade regulatória e instabilidade política, essa abordagem já não é suficiente. Compreender os fundamentos do poder deixou de ser um diferencial tornou-se uma exigência. 

É nesse ponto que a cratologia, estudo científico do poder, desenvolvida por V.F. Khapilov em Science About Power (Cratology) e Kratology: All About Power, an Encyclopedic Textbook, oferece uma ruptura importante. Em vez de tratar o poder como um conceito difuso, Khalipov o transforma em objeto de análise sistemática. Em Science About Power, ele delimita com precisão o que está sendo estudado, diferenciando poder de autoridade, influência e controle, distinções que, embora pareçam teóricas, têm implicações diretas na prática. Já em Kratology, o autor vai além e constrói uma verdadeira “engenharia do poder”, detalhando suas tipologias, níveis de manifestação e mecanismos operacionais, como legitimação e persuasão.

Talvez o ponto mais provocativo esteja na ideia de “anatomia do poder”: a constatação de que aquilo que aparece como centro decisório nem sempre coincide com onde as decisões realmente são tomadas. Existem zonas de opacidade, redes informais e dinâmicas subterrâneas que escapam à leitura institucional tradicional. Para quem atua em RIG, isso muda tudo. Monitorar atos oficiais deixa de ser suficiente: torna se necessário rastrear fluxos reais de influência e identificar onde, de fato, o poder se exerce.

Essa leitura ganha força com Bertrand de Jouvenel, em o Poder – História natural de seu Crescimento, ao demonstrar que o poder não é estático e cresce. E cresce por uma lógica própria, quase orgânica, expandindo continuamente sua capacidade de intervenção. Isso significa que o ambiente regulatório nunca está “estável”: ele está sempre em processo de ampliação. Antecipar esse movimento é o que separa uma atuação estratégica de uma atuação meramente reativa. 

Mas há uma camada ainda mais profunda e frequentemente negligenciada que diz respeito à forma como o poder é percebido. Em o “Horizonte de consciência do brasileiro: conceitos e métodos para o estudo da política e cultura nacionais”, Olavo de Carvalho propõe uma ideia simples, mas poderosa: as pessoas não reagem à realidade em si, mas à forma como a compreendem. O “horizonte de consciência” define o que é visível, pensável e, portanto, politicamente possível.

No Brasil, esse horizonte é frequentemente limitado por categorias importadas, leituras superficiais e uma dificuldade histórica de interpretar a própria realidade. O resultado é um ambiente decisório onde narrativas e percepções têm tanto peso quanto ou até mais do que os fatos objetivos. Para as Relações Governamentais, isso implica uma mudança de chave: não basta saber quem decide, é preciso entender como esse ator percebe o mundo, quais ideias o influenciam e quais limitações moldam seu julgamento. No cenário político Brasileiro de 2026 vemos a Revista Valete do MBL, para o Partido Missão, novo player para as relações entre partidos, governos e sua nova projeção de país para o mundo. 

Quando ampliamos essa análise para o cenário internacional, o quadro se torna ainda mais complexo. Entender as ideias que governam os líderes da China, por exemplo, é fundamental para entender os freios e contrapesos do cenário internacional, além do ambiente se tornar mais denso e orientado por cálculo estratégico. Compreender as ideias que moldam a tomada de decisão da China é condição para antecipar agendas, decifrar sinais do Estado e atuar com precisão em um sistema político altamente coordenado com suas empresas.

Ainda no campo das relações governamentais, New Asian Marxisms, organizado por Tani Barlow, mostra algo operacional: os ensaios analisam como intelectuais chineses reconfiguraram categorias como classe, trabalho e modernidade para sustentar agendas concretas de desenvolvimento e organização estatal na China. Não é teoria em abstrato, mas produção de linguagem política aplicável à governança e isso tem implicações diretas para a análises rivais de atores globais como os EUA.

Em determinados contextos, a separação entre Estado e mercado não é tão clara quanto nos modelos ocidentais. Empresas podem operar dentro de ecossistemas estratégicos mais amplos, onde interesses econômicos e objetivos políticos se entrelaçam. Para quem trabalha com RIG, isto significa que analisar stakeholders internacionais exige um olhar mais sofisticado, que vá além das categorias tradicionais.

Nesse sentido, torna se essencial compreender como grandes empresas pensam, se posicionam e interagem com estruturas regulatórias e estatais. Não se trata de assumir posições simplistas nem desconfiança automática, nem de aceitação ingênua, mas de reconhecer a complexidade desses arranjos e incorporá-la à análise estratégica.

Essa necessidade de profundidade também se reflete no uso da tecnologia. Fábio Akita, Cofundador da Codeminer42, chama atenção para um problema recorrente: a ilusão de que ferramentas substituem entendimento. Em RIG, dashboards sofisticados e inteligência artificial podem ampliar a capacidade de processamento, mas não corrigem análises mal fundamentadas como, por exemplo, uso indiscriminado de IA para análise política sem saber lógica de programação, estatística e teoria dos grafos, entre outras. 

Por outro lado, iniciativas como a de Ivan Ervolino, no Sigalei, mostram o caminho possível: integrar tecnologia com teoria. Ao transformar grandes volumes de dados em inteligência acionável, sua abordagem evidencia que o verdadeiro diferencial não está na ferramenta, mas na forma como ela é orientada por fundamentos sólidos.

No fim, a questão é menos técnica e mais intelectual. As Relações Governamentais estão diante de uma encruzilhada: permanecer como atividade operacional, centrada em ferramentas, ou evoluir para uma verdadeira ciência aplicada do poder. A segunda opção exige mais esforço, mais estudo e mais rigor, mas também oferece algo que a primeira nunca poderá entregar: capacidade real de antecipação e influência.

O IV Congresso Internacional do IRELGOV surge, assim, como uma oportunidade rara. Não apenas para discutir práticas, mas para redefinir o nível de exigência da área. Menos automatismo, mais inteligência. Menos reação, mais estratégia. Menos superfície, mais profundidade. Porque, no fim, quem não entende o poder dificilmente consegue operá-lo e, mais cedo ou mais tarde, acaba sendo operado por ele.

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O atropelo dos veículos de micromobilidade no Rio de Janeiro

Lucas Maia é doutorando em sociologia política no IUPERJ

No dia 07 de abril deste ano, o prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, publicou um decreto regulamentando o uso de bicicletas e patinetes elétricos e veículos autopropelidos que circulam pela cidade. A regulamentação impõe uma série de regras novas, como a obrigatoriedade de uso de capacete e a proibição de circulação em vias com limite de velocidade acima de 60 km/h para todos, além da necessidade de habilitação categoria A, registro e emplacamento do veículo para os ciclomotores.

O decreto veio a reboque de uma tragédia ocorrida no final do mês de março quando mãe e filho, que trafegavam em uma bicicleta elétrica, foram atropelados e mortos por um ônibus na Tijuca, Zona Norte da cidade. O drama de mãe e filho chamou a atenção da mídia local e nacional, pressionando o alto escalão do Poder Executivo municipal a buscar uma solução para um assunto de tráfego difícil. Como quem muda de faixa sem dar a seta, a prefeitura publicou a regulamentação sem aviso prévio, gerando reclamações de quem teve que apertar o freio de repente. 

A Comissão de Ciclistas do Rio criticou o decreto apontando falta de diálogo, restrições à circulação e um possível conflito com o Código de Trânsito Brasileiro. Argumentou também que o texto não ouviu os especialistas no assunto e defendeu o óbvio: mais investimento na mobilidade urbana do município. A reclamação da expansão da infraestrutura cicloviária parece ter sido antecipada pelo Executivo, num esforço de rechaçar a crítica.

Um dia antes da publicação do decreto, o governo acelerou também para anunciar um investimento de R$ 20 milhões na construção de ciclovias e ciclofaixas, com conclusão prevista até 2028. Se tudo der certo, seremos a primeira cidade do país a organizar o trânsito de ciclomotores, bicicletas e patinetes elétricos. No entanto, sobretudo na cidade do Rio de Janeiro, existem leis que “pegam” e leis que “não pegam”. 

Embora o executivo tenha agido com pressa, o sinal já estava vermelho há bastante tempo e foi, como em muitos casos, ignorado. Dados da Comissão de Segurança no Ciclismo do RJ, com base em informações da Secretaria Municipal de Saúde, já indicavam a gravidade do tema muito antes. O número de acidentes envolvendo patinetes elétricos, autopropelidos, ciclomotores e outros veículos leves saltou de 274, em 2023, para 2.199, em 2024. Dados do Painel de Acidentes de Transporte Terrestre da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro apontam para números ainda maiores. O atendimento a ciclistas (todos) vítimas de acidentes saltou de 3.554 casos, em 2024, para 4.761, em 2025, um aumento de 34%. 

A verdade é que o trânsito desse tipo de veículo virou uma febre na cidade. A facilidade de compra, baixo custo de manutenção e a praticidade de deslocamento fizeram com que muitos cariocas preferissem esse meio de transporte no lugar dos habituais carro, moto, ônibus, trem e metrô. Basta uma breve caminhada pelas ruas do Rio para vê-los, aos montes, por aí. O carioca hoje tem mais alternativas para se deslocar, e isso, claro, aumenta os riscos de acidentes.

No entanto, o atropelo da regulamentação na tentativa de sanar do dia para a noite um problema complexo, nos apresenta uma outra grande questão. A maioria das leis que é, de fato, respeitada, depende de um amplo esforço de fiscalização e punição. O famoso: vigiar e punir, de Foucault.

Se quiser ver as novas regras sendo cumpridas em toda a cidade, a Prefeitura do Rio terá que dispor de um alto esforço financeiro, pessoal e, principalmente, de tempo, com o objetivo de instruir aquilo que já poderia ter sido ensinado se tivesse unido outros poderes, a sociedade civil e entidades de classe em torno de um debate maior, o que não ocorreu. 

Só depois do diálogo entre todos os agentes interessados na pauta, deveriam vir a elaboração de regras e a fiscalização. Em paralelo à discussão, isso sim, investimento em infraestrutura cicloviária que é o que, de fato, irá proporcionar mais segurança e mobilidade para quem utiliza os veículos de micromobilidade. 

Infelizmente não foi isso que aconteceu. O processo de regulamentação foi açodado e a fiscalização foi para as ruas no mesmo dia da sua publicação. Acontece que, ao contrário do que se pudesse prever, a vigilância não iniciou pelas ruas, mas sim pelas orlas da cidade, região recheada de ciclovias e sinalização. 

Ocorre que o ônibus que atropelou mãe e filho na Tijuca não trafegava pela ciclovia, e sim nas ruas, onde, de fato, existe um sério problema a ser resolvido, onde a regulamentação visa atuar com mais rigor e onde a fiscalização, por óbvio, deveria iniciar. 

A desordem, neste caso, não causou somente uma regulamentação apressada, como também uma fiscalização incoerente. Por isso, defendo que, em muitos casos, como este, aproveitar uma grande repercussão para unir a sociedade em torno de uma discussão mais ampla sobre um tema relevante e que impacta diretamente no dia a dia do cidadão é uma saída muito mais eficiente do que puxar o freio de mão com o carro andando e correr o risco de vê-lo capotar. 

Enviar a pauta para a discussão do Legislativo, construir um diálogo com a sociedade por meio da realização de audiências públicas e trabalhar num texto que possa ser, de fato, respeitado, me parece um caminho mais democrático e assertivo.

No dia 07 de abril de 2026, o Rio ganhou um regulamento que torcemos para que dê o resultado esperado e evite novos acidentes, mas perdeu uma oportunidade de construir por meio do diálogo.

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Quando o cidadão não cabe na decisão pública

Tacyra Valois é fundadora da Sinapse Brasil

Em uma democracia, o problema nem sempre está na falta de lugar de fala. Ele se torna mais grave quando esse lugar não se converte em escuta. É aí que a legitimidade começa a se estreitar e a decisão pública se distancia da sociedade que deveria servir.

O desafio do nosso tempo não está apenas em garantir canais de manifestação, mas em assegurar que instituições, processos e instâncias decisórias sejam capazes de ouvir, processar e responder de forma qualificada às demandas, tensões e interesses que atravessam a vida pública. Quando a escuta vira formalidade, a participação perde densidade, a representação enfraquece e o cidadão deixa de se reconhecer no processo que organiza decisões em seu nome.

No Brasil, esse mal-estar não é apenas intuitivo. A OCDE registrou, em relatório sobre confiança nas instituições públicas no país, que em 2022 cerca de sete em cada dez brasileiros entendiam que as instituições públicas não estavam funcionando no interesse público. Não é um detalhe. Quando essa percepção se espalha, o problema deixa de ser apenas de imagem institucional e passa a ser de legitimidade democrática.

Há decisões que cumprem o rito, recolhem contribuições, escutam setores, registram posições e, ainda assim, deixam a impressão de que o cidadão passou pela porta, mas não entrou de fato na sala onde importa estar. Esse talvez seja um dos sinais mais silenciosos de desgaste da democracia: quando a participação existe, mas não produz pertencimento; quando a escuta acontece, mas não produz consequência; quando o processo convida à presença, mas resiste à incidência.

A crise, portanto, não é apenas de representação. É de mediação.

Governar sociedades complexas nunca foi o mesmo que apenas decidir por elas. Governar exige interpretar, ponderar, traduzir, justificar e sustentar escolhas em ambiente plural. Exige reconhecer que o poder democrático não se completa no ato de decidir, mas na capacidade de fazer com que a decisão seja compreensível, inteligível e legitimamente processada. Por isso, escutar não é ceder a toda demanda, nem dissolver a autoridade do Estado. Escutar é admitir que a qualidade da decisão depende, em parte, da qualidade da interlocução que a antecede.

Não por acaso, a OCDE mostrou em seu levantamento comparado de 2024, feito em 30 países, que a percepção de ter voz nas ações do governo está entre os fatores mais ligados à confiança pública. No mesmo estudo, 39% disseram confiar no governo nacional, 37% afirmaram confiar que o governo equilibra os interesses das gerações presentes e futuras, e 41% disseram acreditar que ele usa as melhores evidências disponíveis para decidir. O dado mais importante, porém, não está apenas nos percentuais. Está na mensagem: confiança institucional não depende só de resultados. Depende também do modo como as decisões são construídas.

Hannah Arendt escreveu que o espaço público, como mundo comum, é aquilo que nos reúne e ao mesmo tempo evita que “caiamos uns sobre os outros”. A imagem é poderosa porque lembra algo que o debate público brasileiro tem dificuldade de preservar: a política não é apenas disputa de posições, mas construção de um espaço compartilhado em que diferenças possam ser processadas sem que a vida comum se rompa. Quando esse espaço encolhe, a decisão continua existindo, mas perde lastro, densidade e vínculo com a sociedade que deveria ordenar.

É por isso que o problema não está apenas na ausência de canais, mas na precariedade da escuta. Há hoje excesso de manifestação e escassez de interlocução consequente. Multiplicam-se notas, campanhas, pressões organizadas, disputas digitais e mobilizações reativas. Ainda assim, permanece limitada a capacidade institucional de transformar divergência em insumo legítimo para formulação de políticas, regulação e prioridades públicas. Em vez de mediação, muitas vezes há apenas sobreposição de vozes. Em vez de escuta, recepção. Em vez de participação, rito.

Os indicadores comparados ajudam a iluminar essa diferença. No retrato do Brasil no Rule of Law Index 2025, do World Justice Project, o país aparece com 0,71 em publicização de leis e dados governamentais, mas com 0,51 em participação cívica e 0,56 em mecanismos de reclamação. A discrepância sugere algo importante: transparência formal é indispensável, mas não basta. Abrir informação não resolve, por si só, o problema quando o cidadão continua sem caber plenamente no processo decisório. (World Justice Project)

É nesse ponto que o tema da escuta deixa de ser apenas uma agenda cívica e passa a ser também uma agenda de governança. A pergunta relevante não é só quem decide, mas como se decide, com quais mediações, sob quais critérios e com que capacidade de processar interesses, tensões e impactos. A legitimidade democrática não decorre apenas da autoridade formal para decidir. Ela depende, cada vez mais, da capacidade de sustentar o processo que conduz até a decisão.

Isso ajuda a reposicionar também o debate sobre relações institucionais e governamentais. Durante muito tempo, esse campo foi reduzido, no imaginário público, à defesa de interesses organizados ou à intermediação de acesso. Essa leitura é estreita. Em sua expressão mais qualificada, relações governamentais também significam tradução entre linguagens, redução de assimetrias de informação, organização de interlocuções e construção de pontes entre instituições, setores e sociedade. O próprio IRELGOV, em seu manifesto pela legitimidade do lobby, associa essa atuação ao diálogo, à pluralidade de vozes e à construção de políticas públicas mais justas e equilibradas com participação de empresas, organizações, imprensa e cidadãos.

Essa distinção é essencial porque democracias sólidas não são aquelas em que não há conflito de interesses. São aquelas em que os conflitos encontram regras, canais, visibilidade e critérios minimamente reconhecidos para seu processamento. O problema não está na existência de pressões, divergências ou disputas. O problema começa quando o cidadão comum percebe que algumas vozes entram com método, repertório e acesso, enquanto outras apenas assistem à decisão ser consolidada à distância.

Nesse cenário, a exclusão política não nasce apenas da desigualdade material. Ela nasce também da experiência de irrelevância.

E talvez poucas coisas sejam tão corrosivas para a democracia quanto a experiência de irrelevância pública. Quando audiências não alteram nada, quando consultas não oferecem devolutiva, quando documentos são produzidos em linguagem quase inacessível e quando critérios de escolha permanecem obscuros, a mensagem implícita é dura: o sistema admite presença, mas resiste à influência. O cidadão é tolerado como audiência, mas não reconhecido como parte efetiva da construção da decisão.

Esse padrão ajuda a explicar um paradoxo do nosso tempo. Ao mesmo tempo em que cresce a demanda por participação, diminuem os sinais concretos de que participar vale a pena. E quando a sociedade deixa de perceber consequência na escuta, cresce o cinismo de que nada muda ou, no extremo oposto, o apelo de soluções fáceis, personalistas e hostis à mediação institucional. Nenhum desses caminhos fortalece a República.

Reconstruir esse espaço exige mais do que multiplicar canais. Exige qualificar a interlocução. Exige processos mais transparentes, linguagem mais inteligível, maior clareza sobre critérios decisórios e compromisso mais consistente com devolutivas, justificativas e formas reais de consideração das contribuições recebidas. Exige reconhecer, também, que técnica e escuta não são opostos. Em sociedades complexas, a técnica ganha força pública quando demonstra capacidade de dialogar com os impactos concretos que produz.

Também exige uma cidadania menos intermitente. O lugar do cidadão não pode ser reativado apenas em eleições, crises ou momentos excepcionais de mobilização. Democracia robusta pressupõe presença mais contínua, acompanhamento, cobrança, compreensão institucional e disposição para participar para além da indignação episódica. Sem isso, o espaço entre representantes, organizações e sociedade tende a ser ocupado por ruído, ressentimento ou simplificação.

A questão central, portanto, não é apenas ampliar a presença do cidadão no discurso público. É reconstruir as condições para que ele caiba, de fato, na decisão pública. Isso significa aceitar uma verdade simples, mas exigente: sem escuta qualificada, o poder até decide, mas decide cada vez mais sozinho. E quando decide sozinho, pode até preservar a forma da autoridade, mas começa a perder a substância da legitimidade.

Talvez este seja um dos testes mais decisivos da democracia contemporânea. Não apenas saber quem fala em nome da sociedade, mas verificar se a sociedade ainda encontra lugar real no processo que organiza decisões em seu nome.

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O futuro das Relações Governamentais e os desafios e convergências entre Brasil e Estados Unidos

Edmilson Gama é consultor empresarial em projetos de relações institucionais e governamentais

As Relações Governamentais e Institucionais (RelGov) passam por uma transformação global sem precedentes.

Hoje em dia não pode mais ser percebida como uma atividade estritamente baseada em “contatos” ou em redes de influência. A disciplina consolidou-se como uma função de inteligência estratégica, de gestão de riscos e de conformidade.

Este artigo analisa as idiossincrasias do cenário atual no Congresso Nacional brasileiro e as lições fundamentais que podem ser extraídas do modelo norte-americano, muito mais avançado e consolidado.

Nos Estados Unidos, a prática de Relações Governamentais é intrínseca ao sistema democrático e frequentemente é referida como a “quinta ramificação do governo”. Observe que a atividade é protegida pela Primeira Emenda da Constituição, que garante o direito de petição ao governo.

A regulamentação, por meio do Lobbying Disclosure Act (LDA) e do Foreign Agents Registration Act (FARA), estabeleceu um padrão de transparência que serve de referência global.


Em resumo, o sistema americano exige fundamentalmente:

1.    Uma transparência ativa, com a exigência de relatórios trimestrais que detalhem não apenas quem são os clientes, mas também quais temas específicos foram discutidos e o montante exato investido na defesa desses interesses.

2.    O rigor da profissionalização técnica por meio da figura do representante de interesses, que é vista como provedora de subsídios técnicos. Assim, em um ambiente legislativo saturado de informações, os profissionais de RelGov atuam como especialistas que auxiliam os parlamentares a compreender os impactos econômicos e sociais de cada projeto de lei.


No Brasil, apesar dos pesares, vivemos um momento histórico de amadurecimento institucional.

O debate central no Congresso Nacional, personificado no PL 1202/2007, reflete a necessidade de formalizar o que já ocorre na prática.

Entendo que a ausência de uma regulamentação específica muitas vezes abre margem para interpretações equivocadas quanto à legitimidade da interlocução entre os setores público e privado.

Diferentemente do passado, a discussão atual não se limita à legalidade do lobby, mas foca na sua exposição ética.

Iniciativas como as agendas públicas (e-Agendas) e os portais de transparência das agências reguladoras demonstram que o setor público está mais exigente quanto à forma como recebe os pleitos da sociedade civil e das corporações, o que pode ser compreendido como um avanço importante.

Para navegar neste ecossistema em constante evolução, o profissional de Relações Governamentais e Institucionais deve dominar três dimensões básicas que transcendem a simples articulação política: inicialmente, um comprometimento total e inegociável com a conformidade e a ética.  A adesão estrita à Lei Anticorrupção (Lei 12.846/2013) e aos códigos de conduta internos não é mais um diferencial, mas um pré-requisito. A integridade no trato com o agente público é o que garante a sustentabilidade da representação a longo prazo e a lisura das relações.

O segundo ponto é formado pelo uso e capacitação elevados em inteligência de dados e análise de cenários. Na medida em que vivemos em um cenário de polarização e excesso de informação, a capacidade de traduzir o “ruído” político em impactos reais para o negócio é vital. Isso envolve monitoramento legislativo preditivo e análise de redes de influência.

E, por último, a indispensável transparência e legitimidade na defesa de interesses que devem ser públicas e fundamentadas em dados técnicos. O profissional moderno compreende que a melhor defesa é aquela que demonstra como o interesse da organização converge com o desenvolvimento do país ou do setor.

A convergência entre os modelos brasileiro e norte-americano aponta para um futuro em que a ética e a técnica se tornam indissociáveis.

A profissionalização do setor de RelGov no Brasil, aliada a uma regulamentação moderna, é o caminho para fortalecer a democracia, trazendo maior previsibilidade aos investimentos e garantindo que o diálogo entre os poderes seja transparente e proveitoso para toda a sociedade como um todo, e não apenas para uma parte.

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Quando a política externa começa nas redes — e o que podemos aprender com a crise entre Washington e o Vaticano

Aline Siqueira é gerente de Relações Institucionais e Governamentais da Unilever Brasil

Como comunicadora, foi impossível não reparar na recente publicação — e rápida retirada — de uma imagem em que Donald Trump aparece associado a simbologias cristãs. O episódio foi mais do que um simples ruído de comunicação. Ele jogou luz sobre a crise entre o governo dos Estados Unidos e a Igreja Católica, agravada por ataques diretos do presidente ao Papa e por divergências profundas sobre guerras, direitos humanos e valores éticos.

Ainda que esse caso específico não tenha produzido efeitos diretos e imediatos para o Brasil, ele ajuda a entender algo maior: o tipo de tensão internacional que surge quando grandes forças se chocam. E como, historicamente, conflitos desse tipo costumam gerar impactos bem concretos — econômicos, regulatórios e reputacionais — para países inseridos nas cadeias globais de comércio e governança.

No comércio exterior, situações assim afetam previsibilidade, clima de negociação e a coordenação em fóruns internacionais, especialmente em temas sensíveis como sanções, cadeias globais de valor e acordos multilaterais. Quando o olhar se volta para a agenda ESG — ambiental, social e de governança — o distanciamento entre governos e atores influentes, como é o Vaticano, enfraquece debates sobre direitos humanos, justiça social e sustentabilidade. E esses temas estão cada vez mais ligados a exigências regulatórias e ao acesso a mercados.

Nas relações multilaterais, episódios simbólicos também cobram seu preço. Eles corroem confiança, dificultam consensos e elevam o custo político da articulação internacional. Hoje, diplomacia não se faz apenas à mesa: reputação, narrativa e comportamento institucional contam. E contam muito.

No campo regulatório, a mensagem é clara: política internacional também se constrói no plano simbólico. Postagens, discursos e gestos institucionais não são ruídos periféricos — eles produzem efeitos reais, moldam credibilidade, influenciam o diálogo multilateral e interferem diretamente na previsibilidade regulatória.

Para quem atua com Relações Governamentais e gestão de reputação, o alerta é objetivo e direto: política externa, regulação e confiança caminham juntas. E, cada vez mais, aprendemos que as grandes crises do nosso tempo já não nascem mais nas mesas de negociação ou nos textos oficiais. Elas surgem nas narrativas, nos símbolos e nos comportamentos que moldam os ambientes, sejam eles regulatórios, sociais, físicos e, sobretudo, digitais.

Compreender isso não é apenas um exercício analítico; é uma exigência estratégica. Em um mundo hiper conectado, onde uma imagem pode atravessar fronteiras em segundos, antecipar riscos, cuidar das narrativas e agir com coerência institucional torna-se parte inseparável da diplomacia contemporânea. Afinal, na política internacional de hoje, o gesto também governa — e a narrativa também regula.

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Reforma tributária e atração de investimentos: desafios e oportunidades para o desenvolvimento regional brasileiro

Felipe Teixeira é mestre em Estudos Internacionais pela UFRGS

A aprovação da reforma tributária brasileira, consubstanciada na Emenda Constitucional nº 132/2023 e em processo de regulamentação, representa uma das transformações mais estruturais do sistema fiscal do país nas últimas décadas. Para além dos impactos sobre a simplificação tributária e a eficiência econômica, a reforma impõe desafios de ordem federativa, notadamente a reconfiguração dos instrumentos pelos quais estados e municípios brasileiros disputam e atraem investimentos privados para seus territórios.

Ao mesmo tempo em que se redesenha o arcabouço tributário doméstico, o contexto internacional da atração de investimentos passa por transformações igualmente relevantes. O Relatório sobre Investimento Mundial da UNCTAD (2025) aponta o uso crescente de incentivos fiscais como instrumento de atração de IED, sobretudo em países emergentes, como forma de compensar desvantagens estruturais. Tal dinâmica convive com a ascensão da economia digital, que reorienta os critérios de localização: mais do que a carga tributária, ganham centralidade fatores como energia confiável e competitiva, conectividade digital, mão de obra qualificada e estabilidade regulatória.

Essa reorientação dos fluxos globais tem implicações diretas para a estratégia de atração de investimentos dos entes subnacionais. Se a concorrência fiscal perde efetividade em determinados setores, abre-se espaço para territórios capazes de oferecer ativos estruturais. Dessa forma, o desafio não é apenas adaptar-se à reforma tributária, mas repensar o modelo de inserção na dinâmica contemporânea de atração de investimentos.

O modelo de concessão de créditos presumidos por meio da renúncia parcial à arrecadação – do ICMS, principalmente – utilizado pelos estados, e que caracterizou a “guerra fiscal” como instrumento de atração de empresas, criou um ciclo no qual a concessão por um ente pressionava os demais a responder com incentivos ainda mais elevados. Não obstante, tal alívio fiscal estratégico muitas vezes suprimia a articulação de políticas industriais mais sofisticadas em âmbito local em médio e longo prazo.

A reforma tributária aprovada em 2023 altera de forma estrutural essa lógica. O elemento central reside na adoção do princípio do destino no Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), que substituirá o ICMS e o ISS. O tributo passa a pertencer ao local de consumo, e não de produção. Em termos práticos, os estados perdem o principal instrumento de atração: a possibilidade de reduzir a carga tributária na origem. Como o IBS incide no destino, benefícios na produção deixam de gerar vantagem econômica. Tem-se, assim, o esgotamento do fundamento da guerra fiscal tal como praticada.

A extinção dos benefícios de ICMS será gradual, entre 2029 e 2032. Embora necessária, a transição introduz incerteza para os estados, que precisarão redesenhar suas estratégias sem os instrumentos tradicionais. O Fundo de Compensação de Benefícios Fiscais (FCBF) mitiga perdas no período, mas há dúvidas quanto à suficiência dos recursos e aos critérios de distribuição (SAGESSE, 2025).

Ademais, os estados poderão utilizar instrumentos financeiros diretos — como subvenções, crédito subsidiado e concessão de áreas — como substitutos dos benefícios fiscais. Surge, assim, o risco de substituição da guerra fiscal por uma “guerra de subsídios”, com potencial de reproduzir distorções semelhantes e ampliar a pressão sobre as finanças públicas. A regulamentação será decisiva para definir limites a esses instrumentos.

A ruptura promovida pela reforma não implica o enfraquecimento da capacidade de atração de investimentos, mas sua reorientação. O eixo desloca-se da vantagem tributária de curto prazo para a construção de ativos estruturais de longo prazo. Nesse contexto, a noção de território como ecossistema torna-se central. A competitividade passa a depender da articulação de fatores como infraestrutura, energia, logística, capital humano, inovação e estabilidade regulatória, e não de um único instrumento tributário. Por consequência, o papel das instituições de promoção de investimentos ganha nova centralidade. Sem o instrumento tributário, sua atuação desloca-se para a articulação de ativos, facilitação regulatória e produção de inteligência territorial — uma verdadeira “engenharia institucional” da atração de investimentos.

A dinâmica global reforça essa transformação. Setores como data centers, inteligência artificial, semicondutores e energia limpa demandam infraestrutura robusta e mão de obra qualificada, reduzindo a relevância relativa da tributação. O Brasil dispõe de oportunidades, mas enfrenta gargalos estruturais em energia, conectividade e qualificação.

Nesse cenário, a construção de clusters produtivos emerge como estratégia central. A aglomeração de empresas, fornecedores, instituições e infraestrutura gera externalidades positivas, reduz custos e aumenta a atratividade, criando vantagens competitivas mais sustentáveis do que incentivos isolados.

Há, contudo, desafios relevantes. O primeiro é o risco de ampliação das desigualdades regionais, dado que territórios mais desenvolvidos partem em vantagem. O FNDR pode mitigar esse efeito, desde que orientado ao enfrentamento de gargalos estruturais. Por sua vez, o segundo refere-se à instabilidade institucional. A construção de vantagens estruturais exige políticas de longo prazo, mas o ambiente brasileiro ainda é marcado por descontinuidade e incerteza regulatória.

A reforma tributária encerra um ciclo da política de atração de investimentos baseado no ICMS, mas não elimina a competição entre entes subnacionais — apenas a reorienta. O risco é a migração para uma disputa via subsídios. A oportunidade, por sua vez, é significativa: alinhar a estratégia brasileira às tendências globais, centrando a atração de investimentos em ativos estruturais e ecossistemas competitivos. Em um cenário em que infraestrutura, capital humano e ambiente regulatório são determinantes, serão esses fatores que definirão a inserção dos territórios brasileiros nos fluxos globais de investimento.

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Os pilares da ética na profissionalização de Relações Governamentais e os desafios da integridade institucional

Pedro Ditomaso é pós-graduando em Relações Institucionais e Governamentais pelo IDP-Brasília

Nos últimos anos, a profissionalização das Relações Governamentais no Brasil deixou de ser uma atividade de bastidores para se tornar um elemento central do debate democrático. À medida que a sociedade se desenvolveu, aumentou a percepção de que estabelecer pontes entre o setor privado, a sociedade civil e o poder público é algo não só legítimo mas, também, necessário. No entanto, essa intermediação só é sólida quando apoiada em pilares éticos inegociáveis, pois sem uma estrutura de valores coesos e um padrão de conduta pré-estabelecido pela lei, o diálogo técnico e democrático acaba se convertendo, em alguns casos, em tráfico de influência, e isso vai de encontro aos princípios da Administração Pública, presentes no artigo 37 da nossa Constituição de 1988.

Observando-se o cotidiano das Relações Governamentais, percebe-se que a transparência não é apenas um conceito abstrato, mas o primeiro pilar de toda a atividade, pois isso exige que o profissional se apresente com total clareza em cada interação, sem ambiguidades sobre quem representa ou quais são seus reais objetivos. No entanto, a transparência vai muito além de uma simples identificação inicial; ela demanda um registro rigoroso de atividades, reuniões e posicionamentos. Quando há a ausência dessa transparência, abre-se espaço para a desconfiança que, atualmente, está no holofote da sociedade quanto à integridade das principais instituições da República.

Um exemplo crítico dessa fragilidade ética pode ser observado no recente desgaste da imagem do Supremo Tribunal Federal (STF), o qual vem sendo abordado com inúmeros relatos e reportagens investigativas que apontam uma “zona cinzenta” preocupante no relacionamento entre membros da alta corte e interesses privados específicos, como no caso envolvendo o Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro. O problema central dessa situação não é apenas a legalidade estrita, mas a percepção pública de uma proximidade excessiva que fere o pilar da impessoalidade e da publicidade, dessa forma, a fronteira entre o interesse público e o privado se torna perigosamente turva.

Essa situação nos leva ao segundo pilar fundamental: a legalidade interpretada sob a luz da ética. Já dizia o provérbio: “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Defere-se que não basta que uma conduta não esteja explicitamente proibida em um código penal; ela precisa ser compatível com a dignidade do cargo e com a integridade do processo de decisão. O escândalo envolvendo as supostas infrações de limites éticos por membros do STF em suas relações com o Banco Master ilustra perfeitamente como esses episódios podem deteriorar a confiança institucional. Para o profissional de Relações Governamentais, esse cenário serve como um alerta de que o “acesso facilitado” nunca deve substituir a argumentação técnica e a conformidade regulatória.

A veracidade das informações é o terceiro pilar que sustenta a credibilidade de qualquer negociação. Na atuação profissional das Relações Governamentais, os dados, estudos e evidências apresentados devem ter um rigor metodológico exemplar, uma vez que a informação é manipulada, ou omitida, para favorecer um grupo econômico ou agente privado específico todo o sistema é prejudicado. Posto que o maior ativo de um profissional de Relações Governamentais é a sua credibilidade; quando essa é perdida por conta de informações imprecisas ou intencionalmente enviesadas, o acesso legítimo é cessado e o profissional torna-se uma persona non grata no ambiente institucional.

Não obstante, os profissionais que atuam seriamente com Relações Governamentais devem considerar os impactos de suas propostas sobre os diferentes estratos da sociedade. O grande desafio ético moderno é evitar a “captura do Estado”, onde o poder econômico de agente privados ou instituições, como o Banco Master, conseguem sobrepujar o interesse coletivo por meio de uma proximidade desproporcional com os tomadores de decisão. Atendo-se à Corte Suprema – embora saibamos que há outras instituições vinculadas ao escândalo do Banco Master – quando esta se vê envolvida em suspeitas de que alguns de seus membros podem estar ultrapassando limites éticos na relação com os litigantes, o equilíbrio democrático é rompido, proporcionando uma crise de legitimidade que afeta a percepção de ética e moralidade da sociedade em geral.

A integridade profissional, portanto, deve ser o principal pilar que orienta o comportamento cotidiano, dado que se exige coerência entre o discurso ético e a prática de campo. Se o profissional prega a transparência, porém atua com mecanismos obscuros, ele está não apenas sendo contraditório, mas contribuindo para a deterioração do ambiente de negócios no Brasil. O caso do STF e as reportagens sobre as relações com o Banco Master mostram que a sociedade brasileira e a imprensa estão cada vez mais vigilantes e interpretam, atualmente, que a hospitalidade excessiva, que antes era vista como “cordialidade social”, passa a ser interpretada, no mínimo, como um potencial vetor de parcialidade institucional.

Diante do exposto, a profissionalização das Relações Governamentais deve servir para fortalecer a democracia, fomentar o ambiente de negócios e promover o desenvolvimento socioeconômico. O respeito aos limites éticos não deve ser considerado um entrave aos negócios, mas sim a única garantia de que o ambiente institucional permanecerá íntegro, estável e previsível. O desgaste que o STF vem sofrendo frente às notícias de proximidade indevida com o Banco Master demonstra que, no século XXI, a ética da aparência é tão importante quanto a ética da essência. Para que a atividade de Relações Governamentais seja respeitada e legitimada na sociedade, ela precisa se distanciar dessas práticas obtusas de troca de favores e se consolidar como uma atividade baseada em dados, transparência e, acima de tudo, no respeito absoluto aos limites que dissociam a amizade privada do dever público.

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A nova geopolítica

Mauricio Niel é consultor

Os movimentos que as nações, e não necessariamente das potências político-econômicas usuais, vêm realizando em tempos recentes podem redesenhar o mundo tal como conhecemos desde o final da Segunda Guerra Mundial e posteriormente, no colapso do bloco socialista na Europa. 

Seguem aqui alguns fatos e fatores, não necessariamente em ordem de importância ou cronológica, mas que vêm impactando e poderão impactar ainda mais a ordem mundial para os próximos anos, talvez décadas.

– Importância econômica pelo domínio das chamadas “terras raras” e a consequente expertise na extração dos minerais que as compõem;

– Interferência nas mídias sociais e disseminação de fake news em pleitos eleitorais ou mesmo em conflitos, sejam armados ou econômicos;

– Pesquisa e desenvolvimento de novas fontes sustentáveis de energia (tanto no meio ambiente como econômico);

– Domínio de rotas estratégicas comerciais e de tráfego/transporte;

– Reservas e controle hídrico para produção de alimentos e abastecimento das populações;

– Domínio na utilização da I.A. e outras fontes de tecnologia e comunicação;

– Exploração espacial e descoberta de novas fronteiras do universo;

– Impactos no meio ambiente e “descoberta” de novas possibilidades com o desgelo dos polos.

Percebemos que, daqueles países que desde o final do XIX e durante o século XX dominavam o mundo (EUA, Alemanha, França, Inglaterra, Japão e Rússia), seja no aspecto econômico, político ou de tecnologia, se somam, já há alguns anos, a China e talvez em pouco tempo a Índia também.

Durante o século XX, quem tinha o poder econômico ou o poderio militar maior era quem dominava as ações no Globo mas, a partir desse século, quem obtiver o controle dos aspectos que listei acima terá, ou poderá ter, as rédeas do planeta.

A diversidade de temas que hoje fazem parte do espectro para dominar as ações no mundo faz com que países e seus governantes sofram uma “crise” de adaptação e transformação a essa nova realidade, fazendo com que antigos países dominantes, hoje já não tão dominantes assim, e outros atores até então desconhecidos ou menos relevantes ganhem subitamente importância, notoriedade e poder de controle de algumas ações, impactando no desenvolvimento global e do resto das nações e povos.

Ou até o final do ano passado alguém poderia apostar que o maior corredor econômico marítimo do mundo está “dependente” do Irã e de sua política religiosa? 

Tudo isso acarreta também um processo de retrocesso naquilo que vivemos nos anos 1990 e início dos anos 2000, a globalização e a instituição das cadeias globais de fornecimento & valor, pois os países e governantes já não querem ficar dependentes de outros povos e antigos parceiros para ter o domínio de materiais e tecnologias ou até fontes de energia estratégicas. 

Exemplos atuais se avolumam: EUA & Europa; países do Golfo Pérsico e a OPEP; EUA & América Latina; economias capitalistas, já não tão parceiras assim…

Assim, que mundo teremos ao final do Século XXI?

Ou talvez até antes do final desse século….digamos, daqui a 40 ou 50 anos….

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A peleja do diabo contra o dono de céu e a participação política na sociedade brasileira

Carlos Parente é fundador da Midfield Consultoria Empresarial

Discutir parece ser a nova palavra de ordem. Para o bem ou para o mal. No bom e no mau sentido. A discussão é grande, em qualquer tópico. Pequeno ou grande. E independe da complexidade do assunto, pois tudo é simplificado na superficialidade das redes sociais. A peleja do Diabo contra o Dono do Céu acontece a cada instante. Essa disputa cotidiana está na sua vida? E na vida da sua empresa ou da empresa em que você atua como profissional de relações institucionais e governamentais?

Com a explosão de informes, postagens, vídeos e materiais liberados diariamente, a todo momento, a rolagem infinita e o bombardeio dos algoritmos, nunca se consumiu tanta informação. Mas informação em excesso não significa, necessariamente, conhecimento acumulado. Ao lado de coisas úteis, há também uma grande quantidade de desinformação, fake news, informações rasas ou fúteis, debates polarizados inúteis que não levam a nada, além de muitas análises enviesadas ou de pouca profundidade.

Estamos vivenciando uma época em que há inúmeros meios e plataformas para as pessoas, entidades e empresas se manifestarem. Mas a multiplicidade de canais não é garantia de conteúdo abundante de qualidade, de bom repertório. Recebemos e estamos expostos a novas informações o tempo todo. No mundo corporativo, será que que isso ajuda a acelerar o amadurecimento institucional? Pense nisso em próximas ações de comunicação.

Outro ponto de atenção constante é a relação público-privada. O relacionamento entre o setor privado e as entidades públicas tem estado, nas últimas décadas, no centro das atenções e das tensões. Essa relação sempre transitou por uma fronteira delicada mas, com o advento e o avanço de grandes ações investigativas, o debate sobre postura ética, questões anticorrupção, crimes e transparência passou a ser mais acirrado e acalorado.

Aqui, uma grande e importante reflexão se coloca. Como construir e sedimentar uma nova relação público-privada, em linha com os anseios da sociedade atual mas que, ao mesmo tempo, seja importante para o meio empresarial, cristalina para o setor público e relevante para a sociedade?

“Com tanto dinheiro girando no mundo

Quem tem pede muito quem não tem pede mais

Cobiçam a terra e toda a riqueza

Do reino dos homens e dos animais

Cobiçam até a planície dos sonhos

Lugares eternos para descansar”

(Trecho da música “A peleja do Diabo com o Dono do Céu”, composição de Zé Ramalho, 1979)

Trata-se de uma reflexão poética e mística sobre o eterno conflito entre o bem e o mal, que se mistura no dia a dia, mesclando dualidade existencial e crítica social. A música retrata a batalha cotidiana da humanidade, em que cobiça, ganância e desigualdade social enfrentam, sempre, a luz e a esperança, como o diabo desafiando a ordem divina na Terra. Zé Ramalho expõe o moto-contínuo da insatisfação humana e a busca incessante por riqueza e aceitação, que afeta tanto ricos quanto pobres. Há uma permanente frustração de um futuro melhor que nunca chega, especialmente para os mais pobres, que seguem numa estrada sem fim esperando por justiça e por redenção, em meio à superficialidade de muitas das discussões e soluções. Ou seja, a luta entre o bem e o mal é também social e política, refletindo as contradições do nosso Brasil.

No relacionamento público-privado, muito se tem falado em regras, regulamentações, compliance, controles etc. Tudo isso é importante, mas não é suficiente. Se as pessoas não se sentirem engajadas e se não houver uma narrativa integradora e transformadora, toda a boa intenção se perde.

Por isso, é fundamental a construção de uma nova relação público-privada, com base nos parâmetros e nas exigências do mundo e da sociedade atual, conjugados com propósito, direcionamento estratégico e convicção genuína.

Sobre a participação política de cada um

Por tudo o que já foi dito aqui, o que podemos dizer sobre a participação política na sociedade brasileira?

A participação política da maioria da maioria das pessoas, em nosso país, está muito voltada ao posicionamento digital, à busca de engajamento e da mobilização e ao “ativismo” nas redes. Nuances essas que podem nublar uma participação política mais efetiva, condicionando a participação a debates polarizados, sem “escutar” o outro. Só que as pessoas, muitas vezes, representam uma organização e qualquer polêmica desnecessária, opinião ou prática que seja considerada ilegal, ilegítima ou imoral pode comprometer a reputação (própria e/ou da empresa que representa!).

Fala-se muito, participa-se intensamente de discussões e debates, mas influencia-se pouco estruturalmente e participa-se pouco da formulação efetiva de contribuições que possam vir a se tornar parte de políticas públicas. Cabe a nós procurarmos, como cidadãos, meios e canais adequados para nos expressarmos e direcionarmos sugestões e demandas, de forma ponderada e embasada. E respeitando a pluralidade. “A política baseia-se na pluralidade dos homens” (Hannah Arendt).

As organizações, no seu âmbito, também se tornam atores políticos relevantes, por suas pautas, sua atuação, pela abrangência de seus produtos e serviços, por sua comunicação, por suas políticas econômicas, sociais, culturais e ambientais, pelo financiamento ou participação em agendas ou políticas públicas e por sua influência econômica. O importante é canalizar tudo isso de maneira adequada e com uma narrativa consistente e robusta.

No Brasil de hoje se fala ainda mais em ética, transparência e coerência, mas as desigualdades sociais e a polarização campeiam. A sociedade brasileira continua sendo profundamente desigual. O rendimento médio da população residente no país subiu 5,4% em 2025, de R$ 3.195 para R$ 3.367, e atingiu o maior valor da história, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar do recorde, as desigualdades voltaram a crescer. Entre aqueles que integram a parcela dos 10% dos habitantes com renda mais elevada, foi observado um incremento de 8,7% dos ganhos médios. No extremo inferior das classes de renda, o rendimento domiciliar per capita subiu 3,1%.

A polarização política e social, por sua vez, prejudica o dia a dia ao transformar convívio social, familiar e profissional em campos de batalhas, deteriorando a saúde mental e dificultando o diálogo construtivo. Ela gera uma dinâmica de “nós contra eles”, em que o oponente é visto como inimigo, resultando em estresse, ansiedade, isolamento e quebra de laços afetivos e de amizade. Isso vale para indivíduos e para organizações.

A peleja pode ser justamente essa: a disputa permanente de modernização institucional, combate às desigualdades e fomento à pluralidade versus a adoção de práticas políticas, econômicas e sociais que possam cercear o desenvolvimento da população. Vamos pensar em como podemos melhorar a nossa participação política?

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Diálogo competitivo: quando o Estado assume que precisa escutar para decidir

Andréa Oliveira é diretora de Estratégia e Mobilização de base na Advocare Saúde e Políticas Públicas

Patricia Maragoni é facilitadora de Advocacy na Advocare Saúde e Políticas Públicas

A regulamentação do diálogo competitivo no Brasil, por meio da Instrução Normativa Seges/MGI nº 512, de 3 de dezembro de 2025, inaugura uma mudança importante no regime de contratações públicas, sinalizando uma transformação na forma como o Estado se posiciona diante da complexidade do processo licitatório.

Por muito tempo, prevaleceu a ideia de que a Administração Pública seria capaz de definir, de forma autônoma, as soluções necessárias para atender às suas demandas. O edital, segundo essa lógica, surge como um documento fechado que traduz uma necessidade previamente delimitada e convida o mercado a competir por preço.

O diálogo competitivo muda esse tipo de raciocínio. Ao admitir que, em determinados contextos, o Estado não dispõe de informações suficientes para estruturar sozinho a melhor solução, a nova modalidade explicita um reconhecimento institucional relevante: há problemas cuja definição antecede a própria solução.

A regulamentação conduzida pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), por meio da Secretaria de Gestão e Inovação (Seges), surge em um contexto de crescente complexidade das contratações públicas. A ampliação de projetos relacionados à transformação digital e à inovação tecnológica tornou mais evidente a limitação do formato tradicional.

A modalidade já é utilizada em países como Portugal, França, Espanha e Reino Unido, além de estar incorporada às diretrizes de contratação pública da União Europeia. Nessas experiências internacionais, o diálogo competitivo passou a ser utilizado, especialmente, em contratações relacionadas a infraestrutura, tecnologia e parcerias público-privadas.

Ainda assim, o modelo de diálogo competitivo é restrito a situações de elevada sofisticação técnica, como aquelas que envolvem inovação, ausência de alternativas prontamente disponíveis no mercado ou impossibilidade de especificação técnica precisa.

O procedimento em questão segue etapas estruturadas. Primeiramente, há uma fase de pré-seleção, com critérios objetivos para a escolha dos participantes. Em seguida, ocorre a fase de diálogo, com reuniões individuais e preservação do sigilo das propostas. Por fim, há uma etapa competitiva, na qual as soluções amadurecidas são formalizadas.

Os primeiros movimentos de implementação já podem ser observados no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP). Em abril de 2026, foi divulgado no PNCP o Edital nº DIC 1/2026, que utiliza a modalidade de diálogo competitivo para a contratação de serviços cenotécnicos especializados no projeto “Memorial: Juranda Além do Milagre”, do município de Juranda (PR).

Essa mudança pode ser relevante em setores como o da saúde. Decisões relacionadas à incorporação de tecnologias, infraestrutura hospitalar ou soluções digitais envolvem elevados níveis de incerteza e impacto sistêmico. Quando são mal calibradas, essas decisões produzem efeitos que afetam acesso, eficiência e sustentabilidade do sistema.

A adoção da modalidade de diálogo competitivo parte do reconhecimento de que a qualidade da decisão depende diretamente da informação que a antecede. Essa informação não está concentrada no Estado, mas distribuída entre diferentes atores, com níveis variados de conhecimento técnico e experiência prática. Esse contexto abre novas perspectivas sobre o papel exercido pelas relações institucionais e governamentais.

A escuta estruturada deixa de ser um espaço informal de interação e se torna parte integrante do próprio desenho institucional da decisão governamental. Com isso, a contribuição técnica de atores externos ganha legitimidade quando submetida a regras, critérios e mecanismos de transparência.

Dessa forma, a influência passa a ocorrer em bases mais claras, com parâmetros definidos e maior capacidade de escrutínio. O papel dos atores privados também se desloca: passam a ser reconhecidos pelo governo como fontes de conhecimento legítimo e especializado, cuja contribuição pode qualificar a construção de soluções públicas. Essa contribuição deixa de ser percebida como interferência e passa a ser tratada como insumo técnico relevante.

Contudo, esse rearranjo exige um nível maior de governança e integridade pública. A abertura ao diálogo demanda mecanismos consistentes de controle, e o próprio desenho do procedimento já sinaliza nessa direção. A condução por comissão formal, a exigência de critérios objetivos na pré-seleção e o registro das interações estabelecem bases para garantir previsibilidade e transparência ao processo.

A efetividade do diálogo competitivo depende, então, da forma como todas essas dimensões são operacionalizadas. Sua principal contribuição está associada à reorganização do processo decisório. Como problemas complexos exigem construção orientada por regras e ampliação qualificada da base informacional que sustenta a decisão pública, essa lógica ultrapassa o campo das contratações.

A exemplo do campo da saúde, decisões regulatórias e processos de incorporação tecnológica enfrentam desafios de incerteza, impacto sistêmico e assimetria de informação. Diante disso, a adoção de mecanismos estruturados de escuta contribui para reduzir essas assimetrias e melhorar a consistência das decisões.

Espera-se, desse modo, que a adoção do diálogo competitivo permita que a escuta qualificada, além de ampliar a participação, eleve a qualidade da decisão tomada pelo agente público.

Nesse contexto, a transparência e a ética nas relações público-privadas atuam como elementos concretos de desenho institucional. A criação de espaços institucionais de escuta, com regras claras, critérios objetivos e registro das interações, fortalece a legitimidade dos processos.

A própria construção da regulamentação já reflete essa lógica de participação estruturada. Antes da publicação da norma, o governo federal promoveu discussões com especialistas, representantes do mercado e agentes públicos para aperfeiçoar o modelo e consolidar diretrizes para sua implementação.

Assim, o diálogo competitivo sinaliza uma mudança relevante na forma de governar e na maneira como agentes públicos e privados se relacionam. A capacidade de incorporar mecanismos colaborativos em estruturas até então consolidadas sob outro formato passa a integrar o próprio exercício de governar. Toda essa mudança afeta como o Estado decide e como diferentes atores se posicionam para contribuir com essas decisões.

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RelGov na ponta: a articulação estratégica e a escassez de profissionais qualificados no cenário municipal

Maurício Floriano é consultor

Atuar como coordenador de campo em Relações Governamentais (RelGov) no âmbito municipal é uma jornada que transcende a teoria e mergulha na prática diária, exigindo um conjunto de habilidades que poucos dominam. Enquanto muitos profissionais de RelGov se dedicam às estratégias de gabinete em grandes centros, a realidade da articulação na ponta nos municípios revela um cenário complexo, onde a informalidade, a escassez de informações e a necessidade de construir relacionamentos genuínos são a tônica. É nesse ambiente que a verdadeira expertise se manifesta, e onde a carência de profissionais verdadeiramente qualificados para essa atuação direta se torna mais evidente.

Navegando pela opacidade: o desafio do acesso à informação – Um dos maiores entraves para o profissional de RelGov em campo é a persistente dificuldade em acessar informações que, por direito, deveriam ser públicas. Em inúmeros municípios brasileiros, a transparência ainda é um ideal distante, e a busca por dados sobre processos legislativos, pautas de votação e atos do executivo pode se transformar em uma verdadeira odisseia. Portais da transparência desatualizados, informações fragmentadas ou a ausência de canais digitais eficientes são realidades que testam a resiliência e a criatividade do coordenador de campo.

Para contornar essa opacidade, a construção de uma rede de contatos sólida e confiável torna-se o maior ativo. Desenvolver um bom relacionamento com assessores, secretários, chefes de gabinete e até mesmo com servidores de menor escalão é crucial. Muitas vezes, a informação mais precisa e estratégica é obtida através dessas conexões, forjadas na confiança mútua e no respeito. Além disso, o conhecimento e a aplicação da Lei de Acesso à Informação (LAI) são ferramentas indispensáveis, embora mais formais, para garantir o direito à informação quando outros caminhos se esgotam. A presença física em sessões legislativas e audiências públicas também é insubstituível, permitindo a observação direta das dinâmicas locais e a captação de nuances que dificilmente seriam percebidas à distância.

A volatilidade das pautas: um quebra-cabeça diário – A falta de informações claras e antecipadas sobre a ordem do dia das pautas legislativas e executivas é outro desafio constante. Em muitos casos, as pautas são definidas de última hora, alteradas sem aviso prévio ou simplesmente não são disponibilizadas em canais acessíveis. Essa volatilidade exige do profissional de campo uma capacidade de adaptação e reação rápida, transformando cada dia em um quebra-cabeça a ser montado com peças que surgem a todo momento.

Nesse cenário, a flexibilidade e a agilidade são qualidades primordiais. É preciso estar preparado para mudanças de última hora, mantendo contato constante com os interlocutores e ajustando estratégias conforme a necessidade. A capacidade de priorizar, identificando rapidamente quais itens da pauta são mais relevantes para os interesses da organização, é fundamental para otimizar os esforços. Buscar fontes alternativas, como jornalistas locais e associações da sociedade civil, também pode oferecer insights valiosos e antecipar movimentos que os canais oficiais ainda não revelaram.

A arte da abordagem: conectando com parlamentares e servidores – A abordagem a parlamentares e servidores municipais é uma arte que demanda sensibilidade e um profundo entendimento das dinâmicas locais. Diferente dos grandes centros, onde a formalidade pode prevalecer, nos municípios a pessoalidade e a construção de confiança são ainda mais determinantes. É aqui que a escassez de profissionais qualificados se acentua, pois a eficácia não reside apenas no conhecimento técnico, mas na habilidade de construir pontes humanas.

Para uma abordagem eficaz, a pesquisa prévia sobre o histórico do interlocutor, seus interesses, sua base eleitoral e suas prioridades é um diferencial. Personalizar a conversa, mostrando como a proposta da organização se alinha aos objetivos do agente público e da comunidade que ele representa, é um caminho para o sucesso. A clareza e a concisão são essenciais, pois o tempo dos agentes públicos é escasso. O profissional de RelGov em campo deve ir direto ao ponto, destacando os benefícios da sua proposta para o município e para a população, e, mais importante, oferecendo soluções em vez de apenas apresentar demandas. O follow-up estratégico, educado e objetivo, reforça o compromisso e mantém o canal de diálogo aberto, mesmo que uma demanda não seja atendida de imediato. A RelGov na ponta é, acima de tudo, sobre construir relacionamentos de longo prazo, baseados na confiança e na colaboração, em benefício de todos os envolvidos.

A importância do profissional qualificado na articulação de campo – A atuação em RelGov municipal, especialmente na articulação de campo, exige um perfil profissional raro: alguém com profundo conhecimento do arcabouço legal e político, mas também com habilidades interpessoais excepcionais, capacidade de adaptação, resiliência e um forte senso ético. A escassez desses profissionais qualificados torna a sua atuação ainda mais valiosa e estratégica. Eles são os verdadeiros catalisadores que transformam desafios em oportunidades, garantindo que os interesses das organizações sejam articulados de forma eficaz e que o diálogo entre o setor privado e o poder público local seja construtivo e produtivo.

Conclusão – A RelGov na ponta é um trabalho desafiador, mas fundamental para o desenvolvimento local e para o sucesso das organizações que buscam atuar nos municípios. A superação da opacidade, a navegação pela volatilidade das pautas e a construção de relacionamentos autênticos com parlamentares e servidores são as marcas de um profissional qualificado nessa área. Em um cenário onde a expertise de campo é um diferencial competitivo e escasso, aqueles que dominam essa arte se posicionam como agentes transformadores, capazes de construir pontes duradouras e de gerar valor para suas organizações e para as comunidades locais.

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Reforma tributária e filantropia: uma agenda que não pode esperar

Carmem Murara é diretora de Relações Institucionais e Governamentais do Grupo Marista

Quem vai para qual partido, quais são os pré-candidatos aos cargos em disputa, que alianças precisarão ser feitas para viabilizar as chapas nos estados e no Governo Federal. O ano de 2026 é marcado por essas dúvidas e bastidores muito voltados às eleições – e nem tem como ser diferente. Mas esse contexto traz um desafio muito conhecido em Brasília: o tempo efetivo para o avanço de pautas estruturantes fica mais curto, disputado à unha com o noticiário eleitoral. Acontece que, quando o assunto é saúde e educação, essa lógica não poderia ser aplicada.

Nas últimas semanas, estivemos no Congresso Nacional, ao lado de entidades representativas do setor filantrópico, em uma agenda de diálogo com parlamentares e suas equipes. O objetivo era dar visibilidade aos impactos da reforma tributária sobre instituições beneficentes sem fins lucrativos que desempenham papel essencial no atendimento à população. Em linhas gerais, a regulamentação da reforma precisa garantir a compensação de créditos tributários às instituições filantrópicas. É uma questão técnica, mas, sobretudo, uma condição essencial para a sustentabilidade de organizações que atuam diariamente na oferta de serviços de saúde, educação e assistência social. E precisamos lembrar que a reforma já está em vigor, com implementação gradual até 2033, o que torna esse debate ainda mais urgente.

E, embora o retorno que recebemos tenha sido, em grande parte, de reconhecimento à relevância do tema, surge uma preocupação legítima com o calendário de um ano atípico, que limita o ritmo de tramitação das matérias. Por isso, o assunto exige prioridade agora.

Cabe destacar que, mesmo em um ano mais desafiador, a atuação de algumas lideranças no Congresso mostra que há caminhos possíveis. Mas todos eles alertam para a prioridade política do ano: as eleições.

Na prática, o que está em jogo é simples. Instituições filantrópicas, embora isentos de impostos na prestação de serviços, acumulam créditos ao longo da cadeia produtiva. Afinal, itens como os medicamentos e insumos médicos, equipamentos, energia elétrica e serviços de limpeza e manutenção já têm impostos embutidos. Sem mecanismos de compensação, o dinheiro que não é gasto em impostos diretos deixa de retornar para onde fazem toda a diferença: o atendimento em saúde, a oferta de educação e outras frentes de impacto social.

Segundo levantamento do Fórum Nacional das Instituições Filantrópicas (Fonif), o país conta com mais de 10,2 mil instituições filantrópicas mantenedoras e mais de 27 mil estabelecimentos ativos nas áreas de saúde, educação e assistência social, presentes em 3.234 municípios e alcançando aproximadamente 89% da população brasileira. É um setor grande e relevante demais para esperar uma regulamentação tardia. O interesse público precisa orientar as decisões, mesmo em anos de agenda mais apertada. A previsibilidade para o terceiro setor não pode depender do calendário, sob o risco de afetar diretamente milhões de brasileiros que dependem desses serviços.

Quando se trabalha com filantropia, não existe pausa ou espera possível. As demandas seguem acontecendo todos os dias. As pessoas seguem precisando do trabalho dessas organizações todos os dias. É fundamental que as regras acompanhem essa realidade e garantam condições para que essas instituições continuem atuando.

O Brasil deu um importante passo ao aprovar a reforma tributária. Agora é o momento de assegurar que sua regulamentação considere todos os atores envolvidos — especialmente quem está na ponta, atendendo à população, e que não pode esperar pelo próximo ano.

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A geopolítica dos chokepoints

Julia Thomson é líder de cobertura de política externa, comércio e indústria da Eurasia Group no Brasil

Um chokepoint é um ponto de estrangulamento pelo qual passam fluxos essenciais à economia global e que, por sua natureza geográfica ou estrutural, pode ser controlado, bloqueado ou perturbado por um ator com poder suficiente. A história está repleta de exemplos deles, mas opto por citar apenas dois; em um caso, a Guerra do Peloponeso, que durou 27 anos, terminou quando a frota espartana conseguiu cortar o abastecimento de grãos de Atenas pelo Mar Negro, forçando a cidade à rendição pela fome; em outro, em meio à Crise de Suez de 1956, o presidente egípcio à época nacionalizou o Canal, levando Israel, Grã-Bretanha e França a lançarem um ataque militar coordenado para retomar o controle da via navegável que conecta Europa e Ásia.

Nas últimas décadas, a própria natureza dos chokepoints transformou-se radicalmente. Como bem descrito no livro Chokepoints, de Edward Fishman, os Estados Unidos foram pioneiros de um novo estilo de sufocamento econômico que dominou os conflitos geopolíticos recentes: sanções financeiras, controles de exportação de tecnologias críticas e restrições de investimento. Washington e a Europa descobriram que controlar os nós estratégicos do sistema financeiro global – particularmente, o dólar como moeda de reserva e o sistema SWIFT de mensagens interbancárias –, conferia um poder importante para punir adversários. Isso mudou em 2026.

O bloqueio do Estreito de Ormuz em março de 2026 pelo Irã inaugura um novo capítulo, onde táticas geográficas antigas são revividas diante de ações geopolíticas inimagináveis. Quem poderia imaginar há alguns anos que os Estados Unidos invadiriam a Venezuela e capturariam seu presidente (com direto a um post nas redes sociais do presidente americano sinalizando que o país seria o 51º estado americano) e que, menos de dois meses depois, Israel, com apoio americano, assassinaria o Líder Supremo do Irã, Ali Khamenei, seguido por mais de 20 líderes do regime e diversos comandantes militares de alto escalão? A resposta iraniana foi inédita: o fechamento total do Estreito pela primeira vez na história.

O Brent, valor de referência do barril de petróleo, oscilava em torno de US$ 65 no início do ano e ultrapassou US$ 100 por barril. Rapidamente, regiões da Ásia passaram a enfrentar escassez de combustíveis e de gás. Os preços globais de fertilizantes nitrogenados subiram entre 30% e 35%, ameaçando a segurança alimentar em mercados emergentes. Esses choques de oferta ocorreram simultaneamente à guerra tarifária americana e à intensificação de sanções americanas contra inimigos como Cuba, Rússia e China.

Até o momento, o Brasil navegou essas crises com relativa estabilidade. Sua política de não alinhamento e o cuidado histórico em manter boas relações com múltiplas potências conferiram ao país um grau invejável de autonomia estratégica. Mesmo no auge das tensões com Washington em 2025 (provavelmente o pior momento na história bilateral dos dois países), quando um ministro do Supremo Tribunal Federal foi sancionado pela Lei Magnitsky, o Brasil nunca chegou perto de uma exclusão do SWIFT. A natureza do instrumento, que requer consenso europeu, serviu de proteção ao país.

No entanto, em um mundo em que tanto chokepoints físicos quanto econômicos (e, provavelmente, também digitais) podem ser usados como armas, o Brasil permanece exposto, com vulnerabilidades estruturais críticas.

A mais imediata delas é a dependência de fertilizantes. O país importa aproximadamente 85% dos fertilizantes que consome. Há também outras dependências significativas nas importações: defensivos agrícolas, derivados de petróleo (especialmente diesel), trigo, insumos farmacêuticos e semicondutores. São cadeias que normalmente funcionam como máquinas quando o mundo está em ordem, mas que revelam sua fragilidade exatamente nos momentos em que mais se precisa de resiliência.

Os bancos brasileiros operam em dólares e dependem de correspondent banking com instituições americanas e europeias, uma realidade bastante difícil de contornar. Mas o Brasil já teve uma prova dos riscos potenciais associados a essa relação. Durante o pico da tensão com os Estados Unidos em 2025, o OFAC (escritório de controle de ativos estrangeiros do Tesouro americano, responsável pela administração de sanções) notificou formalmente bancos do país exigindo informações sobre compliance com a Lei Magnitsky, colocando instituições em uma posição juridicamente impossível: espremidas entre ordens do STF e as exigências de um regulador estrangeiro com poder de cortar seu acesso ao sistema financeiro global. O exemplo do México também é revelador: bastou uma notificação do FinCEN (unidade de inteligência financeira do mesmo Tesouro) ligando três bancos locais ao tráfico de opioides para que essas instituições encerrassem operações. O Brasil carrega riscos análogos à frente: a designação do PCC e do CV como organizações terroristas pelos Estados Unidos, cogitada recentemente, lançaria riscos reais a empresas e instituições financeiras com laços diretos ou indiretos (sabidos ou não) com esses grupos.

Por fim, há a dependência crescente do mercado chinês. O gigante asiático é de longe o principal destino das exportações agrícolas brasileiras, que têm participação significativa no PIB. Qualquer deterioração das relações sino-brasileiras ou choque na demanda chinesa teria impacto imediato, e potencialmente calamitoso, na economia nacional.

O mundo está em mudança e as empresas precisam se adaptar – Nesse novo contexto, então, a pergunta que as empresas devem se fazer não é se novos chokepoints serão ativados, mas, sim, quando e onde. Com conflitos mais frequentes e erosão da previsibilidade, o risco geopolítico deve ser tratado como uma das principais fontes de incerteza para a estratégia dos negócios. Os negócios que continuarem operando com os mapas mentais das últimas décadas, quando cadeias globais eram sinônimo de eficiência e os custos de fragmentação pareciam distantes, descobrirão, talvez tarde demais, que suas vantagens competitivas foram construídas sobre fundações vulneráveis.

Assim, empresas de todos os setores precisam mapear suas exposições: quais insumos críticos estão vulneráveis a chokepoints geográficos e econômicos (estreitos marítimos, corredores logísticos, transações financeiras sujeitas a sanções)? Quais fornecedores oferecem alternativas viáveis em caso de ruptura? Qual o grau de exposição a países situados em zonas de tensão geopolítica ativa ou latente? É preciso, portanto, mapear onde estão os gargalos geográficos e econômicos tanto quanto quem controla esses chokepoints, quais são seus incentivos e até onde estão dispostos a ir.

Por fim, há que se reconhecer que a fragmentação da ordem global não é temporária e nem reversível. O mundo não voltará ao que era antes, mesmo com o fim do mandato de Trump. Estruturas de governança difusas, heterogêneas e frequentemente concorrentes já estão sendo erguidas: blocos regionais, arranjos bilaterais, sistemas de pagamento alternativos. Enquanto navegamos essa mudança, a estratégia não deve ser otimizada para um cenário previsível e único, mas, sim, de construir opcionalidade: múltiplas rotas, múltiplos parceiros, múltiplas moedas, múltiplas fontes de legitimidade política. As empresas brasileiras que compreenderem essa lógica mais cedo estarão em posição de transformar vulnerabilidade em vantagem competitiva.

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Regulamentar sem fiscalizar: o enforcement esquecido do PL do lobby no Poder Legislativo

Maurício Carvalho é sócio da FCC Relações Governamentais

O PL 2.914/2022 caminha, ainda que a passos lentos, para a sua aprovação. A aprovação de um projeto de lei que reconhece e regulamenta a profissão de lobista fecha uma lacuna de dois séculos de prática sem regulação no Brasil. A Associação Comercial do Rio de Janeiro já defendia interesses perante o poder público em 1808; o lobby esteve presente na abolição da escravatura no Brasil, na aprovação da Petrobras, na Constituinte, nos grandes embates setoriais dos anos 80 (OLIVEIRA, 2005), até tracionar para a relevância dos dias atuais. O texto é ambicioso, abrange todos os poderes da República e entes federados, cria obrigações de transparência ativa e quarentena, estabelece o processo administrativo sancionador e é aqui que reside a omissão legislativa. Se, em tese, o principal objeto do projeto de lei é o lobby no Congresso Nacional, por que é tão vago quanto à competência sancionatória no lobby na Câmara dos Deputados e no Senado Federal?

O art. 18, §2º do substitutivo é preciso quanto ao Poder Executivo federal: “compete à Controladoria-Geral da União instaurar processo administrativo de responsabilização de representante de interesse”. O Decreto n. 3.591/2000 define com precisão o DNA institucional, a natureza jurídica da Controladoria Geral da União. Ela é órgão central do Sistema de Controle Interno do Poder Executivo Federal. Já o artigo 8º, inciso I, coloca a CGU como Órgão Central, incumbido da orientação normativa e da supervisão técnica dos órgãos que compõem o Sistema. A CGU tem corpo técnico consolidado, experiência em processos sancionatórios e infraestrutura de enforcement. Sabe o que fazer e como fazer.

O projeto é silente quanto ao Congresso Nacional, Câmara dos Deputados e Senado Federal, o que cria uma assimetria na aplicação, fiscalização e capacidade de sanção da lei dentro do próprio Congresso Nacional, ou seja, de enforcement.  Para o Legislativo, o art. 18 diz apenas que a competência cabe à autoridade máxima dos órgãos, o que nas Casas Legislativas seriam as Mesas da Câmara e do Senado, representadas pela Presidência. O substitutivo não define órgão específico, não se cria estrutura dedicada, e sequer prevê capacidade institucional equivalente à CGU. As Mesas não têm tradição, estrutura e nem expertise para conduzir processos administrativos sancionadores, mas a solução pode estar no parágrafo primeiro do art. 18, onde diz que a competência para a instauração do processo administrativo poderá ser delegada, e na experiência americana.

Os Estados Unidos praticamente inventaram esse jogo, assim como a democracia constitucional moderna e a separação dos poderes como conhecemos hoje. Reza a lenda que o termo lobby vem dos agentes de interesses que ficavam no lobby do hotel Willard, a dois quarteirões da Casa Branca, e abordavam o presidente Ulysses S. Grant, enquanto ele fumava charutos, para fazer seus pleitos. O presidente, por sua vez, os apelidou de lobistas. Há outras versões, mas não importa, isso é para demonstrar que os Estados Unidos, basicamente, inventaram o lobby como conhecemos hoje. Nada melhor que analisar seu ambiente regulatório.

O modelo americano é um modelo que foca na transparência, a regulação não restringe o que se defende, mas exige o registro, divulgação e accountability, sobre quem está agindo, para quem, em que e com quanto. Há quatro grandes marcos legais sobre lobby nos Estados Unidos, sendo o principal deles o Lobbying Disclosure Act – LDA (1995), conhecido como LDA.  Há camadas distintas de controle da atividade nos Estados Unidos. U.S. Attorney for the District of Columbia e o Government Accountability Office, que são órgãos fora do Poder Legislativo, que poderiam ter uma aproximada comparação com os nossos Ministério Público e CGU.  A regulação dentro das Casas Legislativas, a qual é executada pelos órgãos Clerk of the House e o Secretary of the Senate, os quais são a primeira linha de controle. É lá que ficam os registros, os protocolos, a coleta dos documentos apresentados por lobistas e empresas de consultoria. São responsáveis também por catalogar e disponibilizar todos esses registros, também controlam a atividade e reportam a autoridades eventuais crimes e atos ilícitos cometidos. Para os congressistas, o controle fica por conta do House Committee on Ethics e Senate Select Committee on Ethics, algo semelhante ao Conselho de Ética e Decoro Parlamentar. Importante frisar que nos Estados Unidos não há um processo sancionador tramitando dentro dos órgãos legislativos, qualquer irregularidade não sanada por lobistas e escritórios de lobby é encaminhada diretamente para o United States Attorney’s Office.

O que fica de aprendizado com o modelo americano é utilizar a larga experiência e estrutura em processos administrativos sancionatórios dos Conselhos de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados e do Senado para criar órgãos semelhantes ao Clerk of the House e o Secretary of the Senate, que possam ser a instância administrativa da atividade de lobby perante o Poder Legislativo. Órgãos do próprio Legislativo, com competência clara para receber registros, manter banco de dados, conduzir processos sancionadores de responsabilização, etc. É o Congresso assumindo o controle sobre o que acontece dentro das Casas.

O PL 2.914/2022 representa um avanço histórico, um acontecimento após dois séculos de prática sem regulamentação e décadas de associação indevida da atividade de lobby com práticas pouco honrosas e até criminosas. O Brasil caminha finalmente para dar à representação de interesses o tratamento institucional que a atividade merece, mas é necessário sanar a lacuna aqui exposta. Sanar essa lacuna traz aplicabilidade efetiva da lei, segurança jurídica e previsibilidade para os atores envolvidos na atividade de lobby e proteção aos próprios parlamentares e assessores. Essa lacuna legislativa precisa ser corrigida antes da aprovação final do projeto de lei, sob o risco de uma lei que regulamenta o lobby deixe o Poder Legislativo sem controle efetivo na prática.

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Inteligência Artificial generativa (IAG) nas instituições de ensino superior brasileiras: um panorama regulatório

Bruna Rocha é analista sênior em Políticas Públicas no iFood

Enquanto o debate sobre a regulação de inteligência artificial generativa (IAG) no Brasil segue em curso no Congresso Nacional, concentrado na discussão e deliberação do PL nº 2.338/2025, as instituições de ensino superior – especialmente as universidades públicas – tem se tornado um microcosmo de regulação do uso de IA nas atividades de ensino, pesquisa, extensão e, em alguns casos, até administrativas no âmbito das instituições de ensino superior no Brasil.

A Constituição Federal de 1988, no seu Art. 207, caput, garante a autonomia universitária para estabelecer normas para direcionar as atividades de ensino, pesquisa e extensão no âmbito das instituições, inclusive o uso de inteligência artificial no ambiente acadêmico no ensino superior.

Isto significa que as instituições de ensino superior regulam comportamento, criam standards e normas de condutas, que ainda que vigentes exclusivamente no âmbito daquele ambiente acadêmico, influenciam, em alguma medida, os padrões culturais de adequação das condutas permitidas, ou não, para produção, compartilhamento e validação do conhecimento no país, especialmente nas que utilizarem inteligência artificial para a sua produção.

Atualmente, o Brasil conta com 2.561 instituições de ensino superior (IES) e 45.772 cursos de graduação no Brasil. Deste universo grande de espaços de ensino, produção e compartilhamento de conhecimento, dados e informações de nível superior, 15 (quinze) já produziram algum tipo de indicação sobre as diretrizes do uso de inteligência artificial no âmbito das atividades desenvolvidas em seu espaço, na seguinte medida:

Universidade Federal do Ceará

Pontifícia Universidade Católica do Paraná

Universidade Estadual Paulista

Universidade Estadual Paulista

Universidade Estadual Paulista

Universidade Estadual de Campinas

Universidade Estadual de Campinas

Universidade Estadual do Paraná

Universidade Federal da Bahia

Universidade Federal de Goiás

Universidade Federal de Minas Gerais

Universidade Federal de Rondônia

Universidade Federal de São Paulo

Universidade Federal de Alfenas

Universidade de São Paulo

Nota-se que a maior parte publicou resoluções (PUC/PR, UNESP, UNIFESP, UNIFAL); seguida por portarias (UFC, UNESP); instruções normativas (UNESPAR e UNIR); e guias (UNESP, UFBA); orientações institucionais e/ou recomendações. Percebe-se que são instrumentos com níveis de vinculação bastante distintos, alguns tocando apenas na orientação ética.

Ao analisar as diretrizes desses instrumentos, percebe-se que os pilares que estão expressos explícita ou implicitamente nos instrumentos são: transparência, na qual declaração do uso de quais ferramentas, para quais tarefas e como o procedimento foi realizado a partir do uso da inteligência artificial são requeridos; a responsabilidade integral do autor pelo conteúdo produzido; a proteção da privacidade e cumprimento da LGPD (Lei nº 13.709/2018) a fim de proteger contra o vazamento de dados sensíveis, informações sigilosas e outros; centralidade do humano na validação do conteúdo gerado, sendo a IAG apenas uma ferramenta de apoio e nunca coautora.

A autoria e responsabilidade humana, portanto, é indispensável. A validação dos dados, verificação dos vieses da inteligência artificial, a garantia da análise crítica correta e etc, é de responsabilidade do utilizador da ferramenta.

Dessa forma, os principais pontos: (i) as ferramentas de IAG utilizadas devem ser declaradas, seja na metodologia, notas de rodapé ou em notas pré-textuais; (ii) nenhum dado sensível ou pesquisa passível de patente podem ser inseridas em ferramentas não autorizadas pela instituição de ensino; (iii) todas as informações geradas a partir da IA devem revisadas; (iv) a conclusão, o desenho de método e a análise crítica do conteúdo devem ser concebidas pelo autor e nunca pela ferramenta de IAG; (v) no caso de existência de modelos de declaração de uso, os mesmos devem ser preenchidos e assinados pelo aluno, pesquisador e/ou servidor.

Além disso, no âmbito da pesquisa acadêmica, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ) publicou a Portaria Nº 2.664/2026 que no art. 9 trata sobre o uso de inteligência artificial na pesquisa e a garantia da integridade da pesquisa científica, na seguinte medida: (1) Obrigatoriedade de declarar o uso: Estabelecida no Art. 9º, inciso I, alínea “c”; (2) Proibição de autoria por IA: Definida no Art. 9º, inciso I, alínea “d”; (3) Responsabilidade integral do autor: Reforçada tanto na alínea “d” quanto na alínea “f” do Art. 9º, inciso I, que responsabilizam o autor humano por todo o conteúdo final, incluindo plágios ou imprecisões causadas pela ferramenta.

A experiência regulatória nacional sobre o uso de inteligência artificial aponta que tende a emergir regulamentos descentralizados e especializados para cada contexto, contornando quais são os usos legítimos da inteligência artificial generativa nesses espaços de acordo com a sua finalidade. Especialmente, as universidades influenciam padrões sociais de uso de IA, definindo culturalmente o que é permitido e/ou legítimo para produzir conhecimento, a partir da IAG, no país.

Artigo

Muito além do advocacy: o papel das relações institucionais na gestão da reputação corporativa em períodos eleitorais

Alan Brito é executivo de Relações Institucionais e Governamentais

Os ciclos eleitorais representam momentos decisivos para a democracia e para o ambiente de negócios. Mudanças de lideranças políticas, renovação dos parlamentos e redefinição de prioridades governamentais ampliam o nível de incerteza das organizações e exigem uma leitura qualificada dos cenários futuros. Nesse contexto, as áreas de Relações Institucionais e Governamentais assumem papel estratégico para conectar empresas, sociedade e poder público.

Ainda existe a percepção de que a atuação institucional das empresas em períodos eleitorais se resume à defesa de interesses corporativos ou à aproximação com determinados grupos políticos. A prática profissional demonstra o contrário. Em democracias maduras, Relações Institucionais é uma atividade permanente de diálogo, inteligência política e construção de pontes institucionais, independentemente de governos ou ideologias.

Durante as eleições, uma das principais responsabilidades da área é ampliar a capacidade de compreensão da organização sobre o ambiente político. Mais do que acompanhar pesquisas eleitorais, trata-se de analisar programas de governo, tendências regulatórias, movimentos partidários e potenciais impactos para a sociedade e para os diferentes setores econômicos.

Essa capacidade analítica permite que as empresas se preparem para distintos cenários, preservando sua capacidade de interlocução com qualquer governo legitimamente eleito. O objetivo não é antecipar vencedores, mas garantir que a organização esteja apta a dialogar com legitimidade e coerência institucional diante de qualquer resultado das urnas.

As eleições também representam uma oportunidade para que o setor privado contribua de forma qualificada para o debate público. Empresas acumulam conhecimento técnico relevante em áreas como infraestrutura, energia, logística, tecnologia, saúde e sustentabilidade. Transformar essa experiência em propostas capazes de contribuir para o desenvolvimento econômico e social é uma das funções mais relevantes das áreas de Relações Institucionais.

Nos últimos anos, entretanto, um novo elemento passou a ocupar posição central nessa atividade: a gestão da reputação corporativa.

Desde as eleições de 2014, com aprofundamento em 2018 e intensificação em 2022, o Brasil passou a conviver com um ambiente de elevada polarização política. A ampliação do debate público nas redes sociais, a velocidade de circulação das informações e a crescente tendência de associação de empresas a determinados espectros ideológicos transformaram significativamente os desafios enfrentados pelas organizações.

Tenho observado que, nesse contexto, a atuação das áreas de Relações Institucionais deixou de estar concentrada apenas no relacionamento governamental ou no acompanhamento legislativo. Passamos a desempenhar papel cada vez mais relevante na orientação dos posicionamentos institucionais das organizações e na proteção de sua legitimidade perante públicos com visões de mundo distintas.

Essa nova realidade exige uma compreensão profunda dos diferentes stakeholders envolvidos no processo político. Mais do que conhecer propostas eleitorais, tornou-se fundamental compreender as narrativas, prioridades e sensibilidades que mobilizam lideranças políticas, setores produtivos e grupos sociais.

Nesse cenário, as áreas de Relações Institucionais assumem uma função estratégica de tradução. Cabe a esses profissionais transformar temas de interesse público — como competitividade, sustentabilidade, inovação, segurança jurídica, educação ou transição energética — em agendas capazes de dialogar com diferentes atores políticos sem comprometer a coerência dos valores corporativos.

O desafio não está em adaptar princípios às circunstâncias eleitorais, mas em construir formas de comunicação que permitam que uma mesma agenda seja compreendida por interlocutores com perspectivas distintas. Em um ambiente polarizado, a capacidade de estabelecer diálogo sem abrir mão da identidade institucional tornou-se uma competência essencial.

Ao mesmo tempo, essa atuação contribui diretamente para a proteção da reputação corporativa. O risco de interpretações equivocadas, associações indevidas ou leituras partidárias de posicionamentos empresariais é significativamente maior em períodos eleitorais. Por essa razão, as áreas de Relações Institucionais passaram a desempenhar papel decisivo na antecipação de riscos, na construção de cenários e na definição de estratégias de relacionamento capazes de preservar a credibilidade das organizações no longo prazo.

A agenda de integridade também ganha relevância nesse período. O aumento das interações entre empresas, candidatos, agentes públicos e lideranças políticas exige rigor na observância das práticas de compliance, transparência e governança. As áreas de Relações Institucionais deixaram de ser apenas estruturas de relacionamento para se tornarem importantes guardiãs da legitimidade institucional das organizações.

Por fim, as eleições oferecem uma oportunidade para reafirmar o compromisso das empresas com a democracia. Organizações privadas dependem de instituições sólidas, segurança jurídica e previsibilidade regulatória para prosperar. Consequentemente, possuem interesse legítimo no fortalecimento do ambiente democrático e na construção de políticas públicas capazes de promover desenvolvimento econômico e social.

Acredito que uma das maiores contribuições das Relações Institucionais para as empresas brasileiras contemporâneas seja justamente sua capacidade de promover diálogo em ambientes de divergência. Em uma sociedade cada vez mais plural e fragmentada, construir interlocução legítima com diferentes atores deixou de ser apenas uma vantagem competitiva para se tornar uma necessidade estratégica.

Em última análise, o papel das Relações Institucionais durante períodos eleitorais não é escolher governos, mas preparar organizações para compreender transformações, dialogar com legitimidade, proteger sua reputação e contribuir para o aperfeiçoamento do debate público. É justamente nos momentos de transição política que a atuação ética, técnica e estratégica da atividade demonstra sua maior relevância.

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Jornalista Responsável
Luiza Paula Sampaio (MTb 17.043)

Coordenação Editorial
Thomaz D’Addio
Daniela Queiroz

Colaboraram nesta edição
Fernando de Moraes
Iolanda Vieira

Suporte
Márcia Rosa, Patrícia Coelho e Débora Santos

Conselho Diretor:
Lara Gurgel — Presidente
Mariana Guimarães — Vice-Presidente
Mariana Chaimovich — Diretora-Executiva
Rafael Barreto — Conselheiro do Jurídico
Ariela Simoni — Conselheira de Profissionalização e Carreiras
Silvia Menicucci — Conselheira de Sustentabilidade Institucional
José Pimenta — Conselheiro de Conteúdos
Tatiana Porto — Conselheira de Responsabilidade Social
Roberto Campos — Conselheiro de Planejamento Estratégico
Josemar Franco — Conselheiro de Parcerias e Unidades Regionais
Thomaz D’Addio — Conselheiro de Comunicação
Carlos Petiz — Senior Fellow
Dayana Morais — Senior Fellow
Floriano Pesaro — Senior Fellow
Augusto Cesar Anunciação — Diretor Regional do IRELGOV no Pará
Fernanda Noronha de Carvalho Rodriguez — Diretora Regional do IRELGOV na Bahia
Fernando Carneiro — Diretor Regional do IRELGOV no Distrito Federal
Gilvan Bueno — Diretor Regional do IRELGOV no Rio de Janeiro
Guilherme Augusto Batista Carvalho — Diretor Regional do IRELGOV em Goiás
Gustavo Bernard — Diretor Regional do IRELGOV em Minas Gerais
Lucas Monteiro de Souza — Diretor Regional do IRELGOV em Pernambuco
Márcio Silva da Lira — Diretor Regional do IRELGOV no Amazonas
Vanessa de Mattos Tavares — Diretora Regional do IRELGOV no Espírito Santo

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