Se, no século XX, a geopolítica seguia um compasso ritmado, com cenários que duravam décadas, o século XXI opera na hipervelocidade característica do mundo digital.
Esta edição foi pensada para debater o cenário da política internacional à luz dos acontecimentos políticos atuais e dos conflitos em curso.
O contexto, que deixa grandes potências em desconforto e pressiona o funcionamento do multilateralismo, coloca em dúvida o nível de seu enfraquecimento e qual será o arranjo institucional construído no decorrer desses movimentos.
Uma única certeza: há muita pauta para uma próxima edição da Revista Diálogos.
O primeiro Lunch Match do ano foi um sucesso! A anfitriã e diretora-executiva do IRELGOV, Mariana Chaimovich, conduziu o almoço no Rascal Conjunto Nacional, em São Paulo, onde foram debatidos Projetos de Negócios da entidade, como o Congresso e a Missão Internacional do IRELGOV, quando se refletiu sobre temas já propostos e como gerar engajamento, potenciais patrocinadores e contatos, entre outras questões.
Também foram debatidos Projetos de Conteúdo, quando foi feito um brainstorming sobre temas e convidados para webinares, mentoria e cursos para o segundo semestre. O instituto saiu fortalecido com a participação ativa de mais de 20 associados, contando inclusive com a presença da Presidência, representada por Juliana Marra.
Com sólida trajetória em Relações Institucionais e Governamentais, Nicholas construiu sua carreira em grandes grupos do setor de energia, como Copa Energia, Comgás (grupo Cosan) e, atualmente, no Grupo Energisa, com atuação no segmento de gás natural.
Ao longo da sua experiência, destacou-se pela articulação estratégica com stakeholders nos âmbitos federal, estadual e municipal, além do relacionamento com associações setoriais e entidades representativas, contribuindo para o fortalecimento de agendas prioritárias e para a construção de parcerias institucionais sólidas.
Sua chegada reforça o compromisso do IRELGOV com a ampliação do diálogo, da cooperação e do desenvolvimento institucional das Relações Governamentais no Brasil.
No dia 05 de março, Brasília foi palco do evento de lançamento do livro “Riscos políticos na América Latina: estratégias para multinacionais”, da editora Diálogos IRELGOV e com autoria de Eduardo Galvão, que reuniu profissionais, especialistas e interessados no debate sobre os impactos do cenário político no ambiente de negócios da região. O evento foi resultado de uma parceria entre IRELGOV, Ibmec e Pensar RelGov.
A programação contou com um debate entre Patrícia Nepomuceno (IRELGOV) e Jenifer Ribeiro (CNN), que trouxeram reflexões relevantes sobre riscos políticos, governança e estratégias para empresas que atuam em contextos complexos na América Latina.
Após a conversa, os participantes acompanharam o lançamento oficial da obra e a sessão de autógrafos, marcando um momento importante de troca de conhecimento e análise sobre o cenário político e regulatório da região.
🔗 Saiba mais sobre o livro:
https://clubedeautores.com.br/livro/riscos-politicos-na-america-latina
Por Mariana Chaimovich, diretora-executiva do IRELGOV
No ano passado, tivemos a “30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas”, da qual diversos associados participaram. Neste ano, teremos eleições no Brasil, em um contexto de polarização política nacional e internacional que está no centro dos debates dentro e fora do nosso instituto. Nesse contexto, o tema desta edição da Revista Diálogos, política internacional, não poderia ser mais oportuno: mudanças abruptas de cenário político no Brasil e no mundo são cada vez mais constantes e, muitas vezes, imprevisíveis até para o mais bem-informado analista político. Em um cenário de instabilidades, é cada vez mais importante construir as bases de estruturas perenes. Tendo isso em mente, escrevi esta breve introdução a uma edição recheada de artigos sobre peripécias geopolíticas, acordos multilaterais paradigmáticos, política energética, inteligência artificial e interações mais do que necessárias entre os Poderes da República e a sociedade.
O ano de 2025 foi marcado por diversos sucessos do IRELGOV, alguns deles consolidados durante a trajetória de mais de dez anos do instituto, outros recém-saídos do forno: o “Encontro” de 2025 em Brasília reuniu quase 200 participantes e impactou 126 mil pessoas nas redes sociais; a “7ª Missão Internacional a Bruxelas” reafirmou o compromisso do instituto com a internacionalização do debate sobre RelGov; o grupo de trabalho “Diálogo com Reguladores” consolidou-se como iniciativa estratégica para fortalecer a interlocução entre sociedade, setor privado e órgãos reguladores brasileiros; o “Censo IRELGOV” 2025 trouxe retrato inédito sobre quem faz RelGov no Brasil e a “5ª Edição do Programa de Mentoria” trouxe número recorde de duplas de mentores e mentorados – isso para mencionar apenas parte das iniciativas que se concretizaram.
Em 2025, tivemos também o crescimento histórico de nossa rede de associados PF e PJ, ampliando também a presença do instituto pelo país, graças à atuação dos nossos diretores regionais. Esse avanço fortaleceu a proposta de valor do instituto, com o programa de benefícios “IRELGOV MAIS” e as ações voltadas aos nossos associados consultores individuais. Esses e outros componentes ajudaram a erigir o IRELGOV como a mais significativa rede de profissionais de relações governamentais do Brasil.
O IRELGOV consolida-se, com conteúdo pertinente e sempre devidamente embasado, elaborado por e para seus associados, como think tank de relevância, hub de produção de conhecimento e disseminação de informações sobre boas práticas de relações governamentais, com a oferta de novos cursos e pesquisas de ponta desenvolvidas pelos integrantes do Conselho Consultivo, oferecendo aos colegas este ambiente que une conhecimento e prática, além da perspectiva de realizar novos – e fortalecer velhos – contatos e, primordialmente, desenvolver e refinar habilidades essenciais para o futuro da nossa profissão.
No ano passado foi feita uma escolha ativa pela atuação institucional nas redes sociais e junto à imprensa em prol da ressignificação da palavra lobby no debate público, reforçando sua percepção como atividade não apenas legítima, mas essencial à democracia.
Muitas das escolhas feitas e caminhos traçados em 2025 não teriam sido possíveis se não fossem aquelas e aqueles que integram o instituto, seja na figura da presidência, em cargos de diretoria ou conselheiros, nosso time administrativo e, claro, nossos associados. Tampouco teriam sido alcançados sem a atuação incansável e brilhante de Lara Gurgel, diretora-executiva até o final de 2025, cuja cadeira passei a ocupar em janeiro deste ano, após diversos anos de atuação como voluntária em frentes distintas do IRELGOV.
Em 2026, além de continuarmos os projetos dos anos anteriores, teremos o “IV Congresso Internacional do IRELGOV”, uma nova missão internacional saindo do forno e uma pesquisa sobre trilhas de carreiras a ser lançada no mês de março. Já o “Diagnóstico de Maturidade em Relações Governamentais”, uma das entregas previstas no Planejamento Estratégico 2022–2026, pretende fechar 2026 como um dos maiores e mais inovadores projetos do instituto, refletindo nosso compromisso com a profissionalização, o avanço coeso da área e a promoção das melhores práticas nacionais e internacionais de relações governamentais.
Dito isso, assumo o compromisso com orgulho e segura de que terei ao meu lado centenas de associados que também desejam ver o instituto ocupando espaço cada vez maior em nossa sociedade, trazendo dados claros, informação qualificada e transparência para as atividades na área. Conto com o engajamento daqueles que integram os nossos quadros para seguir o bom caminho e continuar a fortalecer a atuação dos colegas profissionais de relações governamentais, construir e cultivar a confiança entre nós, profissionais éticos, e a sociedade e a delinear uma atuação cada vez mais transparente para as relações governamentais no Brasil. Afinal, dissociar a imagem do lobista de qualquer atividade não republicana vai continuar sendo um dos nossos motes.
Se a invasão da Ucrânia pela Rússia há quatro anos já demonstrava desrespeito pela soberania de nações independentes e enfraquecimento da ONU, a operação de captura de Nicolás Maduro deixou claro que algo havia mudado na geopolítica mundial. A imprevisibilidade do futuro imediato passou a exigir de países, empresas e profissionais atenção redobrada aos acontecimentos, capacidade de adaptação e rapidez de raciocínio. Em pauta, o fim do multilateralismo, as mudanças no comércio global, o acordo entre Mercosul e União Europeia e o impacto na atuação dos profissionais de relações governamentais.
Carlos Petiz, gerente de Integridade e Compliance na CGE-SC, é assertivo: as recentes mudanças no cenário mundial praticamente decretam o fim do multilateralismo. “Estamos entrando em uma nova era, marcada pela busca de interesses nacionais, substituindo o espírito de colaboração das últimas décadas. A Europa, percebendo sua vulnerabilidade, busca maior independência econômica e tecnológica dos EUA e da China. A Alemanha, em particular, lidera esse movimento de readequação industrial e tecnológica”.
A diretora acadêmica de Graduação em Negócios e Tecnologia da ESPM, Denilde Holzhacker, avalia que o mundo vive não apenas uma fase de instabilidade conjuntural, mas uma reconfiguração estrutural da ordem global. Segundo ela, o ambiente liberal, sustentado por comércio aberto, instituições multilaterais fortes e pela liderança dos EUA passa por gradual erosão. A perda de centralidade de organismos como OMC e ONU revela o desmantelamento do consenso normativo que guiou a governança mundial recente. “Não se trata necessariamente do fim do multilateralismo, mas de sua adaptação a um ambiente mais competitivo e fragmentado. Nesse vácuo, ganha espaço um “multilateralismo minimalista”, baseado em acordos mais restritos, agendas específicas e coalizões flexíveis. Ao mesmo tempo, a rivalidade sistêmica entre Estados Unidos e China organiza as principais disputas em comércio, tecnologia, cadeias produtivas, regulação e transição energética. Com isso, avançam políticas industriais defensivas, diversificação de cadeias e instrumentos de geoeconomia. O mundo liberal idealizado nas décadas anteriores dificilmente será restaurado nos mesmos moldes, mas tampouco estamos retornando a um modelo clássico de fechamento econômico. O que emerge é um sistema no qual cooperação e rivalidade coexistem de forma cada vez mais tensa e seletiva”.
A avaliação do cientista político Philipe Moura, diretor da Eurasia Group no Brasil e professor convidado da Fundação Dom Cabral, é um pouco diferente. Ele concorda que 2026 marca um ponto de inflexão na ordem internacional, com os Estados Unidos se tornando a principal fonte de risco global, pois o país se tornou mais transacional e menos comprometido com a coordenação multilateral, alimentando um ambiente “G-Zero”, sem liderança estável e com maior fragmentação e imprevisibilidade. “Nesse contexto, o multilateralismo não some, mas perde tração e efetividade, à medida que grandes potências priorizam agendas domésticas, segurança nacional e protecionismo econômico. A tendência será mais protecionismo, sobretudo na Europa e em países alinhados a Washington, como o México, por meio de tarifas, subsídios e defesas comerciais”. Moura ressalta que, embora não haja ruptura sistêmica da integração global, o comércio se torna mais contencioso e politizado. “Um cenário volátil, ambíguo e não linear, mas que permanece inteligível para quem acompanha suas dinâmicas de fundo”.
Valentina Sader, diretora-adjunta de Programas de Impacto e Líder para o Brasil no Adrienne Arsht Latin America Center do Atlantic Council, vê a América Latina passando a ocupar um papel prioritário para a política externa e de segurança nacional americana. Segundo ela, o mundo multilateral pós-Guerra Fria não está necessariamente chegando ao fim, mas o multilateralismo e organismos multilaterais correm o risco de se enfraquecerem ainda mais caso não se renovem em propósito, entregas e governança. “O mundo já é multipolar, mas as recentes mudanças na política internacional, principalmente impulsionadas pelo governo americano, representam um chamado para uma nova realidade de dinamismo global, na qual as relações internacionais se concentram mais em cooperações estratégicas e em uma lógica de troca direta (tit for tat) do que num poderio cultural ou ideológico, característico do American Dream. Pelo menos em um primeiro momento, o soft power tende a ser substituído por uma defesa mais assertiva dos interesses unilaterais de cada país”.
Tudo novo de novo – No entanto, até que ponto a recente intervenção armada norte-americana em um país soberano da América do Sul pode ser considerada como um indicativo de alteração das relações internacionais? Para a professora Holzhacker, intervir sempre foi um instrumento presente na estratégia norte-americana para a América Latina. “O uso desse tipo de interferência com objetivos estratégicos, seja para garantir acesso a recursos, seja para promover mudanças políticas, não é nenhuma novidade”, comenta. “No caso da Venezuela, observa-se a implementação de uma política intervencionista com características de outras situações, como o Iraque. Isso sinaliza aos países da região que os Estados Unidos não hesitarão em intervir na região quando julgarem necessário. A visão de que áreas de influência serão cada vez mais delimitadas reforça a percepção de que a região continua sendo considerada seu quintal”.
Eduardo Galvão, diretor da consultoria Burson no Brasil e professor no Ibmec, acredita que a forma mais sólida de avaliar o episódio é separar três camadas: legalidade, estratégia e efeitos sistêmicos. Segundo ele, no plano institucional, a reação imediata foi deslocar o debate para o campo do direito internacional. “A carta da Venezuela ao Conselho de Segurança da ONU denunciando agressão armada e solicitando reunião de emergência mostra como a disputa rapidamente assumiu contornos jurídicos e multilaterais”. No plano estratégico, afirma Galvão, é importante observar que a ação não ocorreu no vazio. A própria National Security Strategy, dos Estados Unidos, explicita a prioridade atribuída ao Hemisfério Ocidental. “O impacto mais profundo, no plano sistêmico, está no precedente. Se intervenções justificadas como ações pontuais ou cirúrgicas passam a ser normalizadas, o cálculo de segurança de outros governos se altera, o que pode incentivar realinhamentos externos, corrida por garantias de proteção e maior incerteza normativa, especialmente na América Latina, onde a soberania é pilar político sensível”, comenta.
Fundador da M Niel Relações Corporativas, Mauricio Niel vê o episódio com preocupação. Por mais que o governo de Nicolás Maduro se mantivesse no poder de forma ilegítima, segundo observadores internacionais, ele discorda dos meios com o qual o governo foi deposto. “Já vivemos isso não só na América Latina, mas em outras regiões do mundo ao longo do tempo, e esse formato nunca se mostrou adequado. Trouxe mais problemas do que soluções. Temo que essa ação possa ser o início de uma nova onda de intervenções das grandes potências globais, com forte impacto negativo nas relações internacionais”. Ruan Raielli Chaves, coordenador de Relações Institucionais/Governamentais na Trucker Inovação e Empreendedorismo Social, concorda: “Intervenções armadas em países soberanos nunca são bem-vistas pela comunidade internacional, pois as mesmas fragilizam o direito internacional e abrem precedentes perigosos. O caminho mais legítimo e eficaz continua sendo a pressão diplomática, o diálogo multilateral e soluções construídas no âmbito das instituições internacionais”.
Moura faz um alerta: para ele, o governo Trump viu a ação na Venezuela como um caso de sucesso, reforçando a confiança de Washington em adotar medidas semelhantes no curto prazo. “Nesse contexto, ataques contra alvos como o Irã se tornam plausíveis. Cuba também tende a permanecer no radar, apesar de parte dos assessores de Trump sustentar que o regime cubano perderá força por inércia própria, após perder o acesso ao petróleo venezuelano”.
Para Valentina Sader, diretora-adjunta de Programas de Impacto e Líder para o Brasil no Adrienne Arsht Latin America Center do Atlantic Council, a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela foi a primeira desse tipo na América do Sul e rompe com as expectativas sobre como os americanos poderiam atuar na região. “Para muitos venezuelanos que viveram décadas sob a ditadura, a intervenção representou uma libertação. Porém, para outros países da América Latina, também levanta um questionamento e representa uma ruptura com um princípio fundamental das relações internacionais — o da precedência, que, junto com a confiança, orienta e confere previsibilidade às relações entre Estados. Desde 3 de janeiro de 2026, uma intervenção americana passou a ser vista como precedente na América Latina e, desse modo, considerada uma possível alternativa de engajamento dos Estados Unidos na região. De toda forma, a intervenção americana evidencia que a América Latina é prioritária para o atual governo americano, sobretudo no que se refere à geopolítica e ao combate a influência de atores não-ocidentais como China, Rússia e Irã na região, bem como à própria segurança nacional americana frente ao crime organizado no continente”.
Papel do Brasil – Em meio a todas essas mudanças no cenário internacional, o Brasil procura um caminho, preservando sua imagem de ator diplomático equilibrado, conhecido pelo bom senso, sem comprometer sua capacidade econômica e as oportunidades de negócios para suas empresas. “Somos uma democracia de grande escala, com peso econômico, base industrial relevante, matriz energética relativamente limpa e capital diplomático acumulado”, diz Galvão. “Temos que converter protagonismo pontual em agenda permanente, com foco, coordenação interna e capacidade de entrega. O país pode liderar coalizões temáticas nas quais possui legitimidade, como clima, segurança alimentar, transição energética e governança digital. Um segundo passo seria apresentar propostas estruturadas de reforma da governança global, especialmente no debate sobre representação de países emergentes, conectando diplomacia a capacidade técnica”.
Para a professora Denilde Holzhacker, o Brasil segue, em grande medida, sua tradição diplomática: busca construir coalizões, manter diálogo com diferentes polos de poder e preservar autonomia. “Continuar presente nos fóruns multilaterais é importante, mas também será essencial atuar em arranjos mais flexíveis e temáticos. Em um mundo fragmentado, a capacidade de adaptação e articulação estratégica será decisiva”.
Mas há quem considere que houve uma certa contaminação ideológica desse cenário. Mauricio Niel concorda que o Brasil sempre teve um bom histórico e respeito no cenário internacional e nos organismos mais relevantes, como ONU e OMC. “Porém, nos últimos tempos a ideologia tem prevalecido nos gabinetes, principalmente do Itamaraty, fazendo com que o país em alguns momentos tenha sido até menosprezado em tais fóruns. Creio que, se voltarmos ao comportamento que tínhamos até o início desse século, deixando a ideologia de lado, e se nos posicionarmos com bom senso, voltaremos a ter relevância e uma participação mais assertiva nos fóruns internacionais”.
Carlos Petiz também considera que o país vem perdendo espaço no cenário internacional ao longo do tempo. “Até recentemente havia toda uma onda de preocupação com o meio ambiente e era natural que o Brasil se tornasse protagonista desse processo. No entanto, simplesmente não ocupamos esse espaço e o movimento perdeu força. O Brasil falhou em ser um grande líder da América Latina ou pelo menos da América do Sul. Foi complacente com o regime ditatorial na Venezuela a ponto de os Estados Unidos simplesmente ignorarem a posição do Brasil aqui na região e partirem para uma intervenção direta no país. Isso é muito ruim porque mostra que nós não conseguimos projetar nossa força – econômica ou militar – nem no nosso próprio continente e é necessário vir um outro país para colocar ordem na casa”.
Europa à vista – No entanto, o início deste ano foi marcado por uma boa notícia para o comércio exterior brasileiro: após 25 anos de negociações, a Comunidade Europeia decidiu assinar o acordo comercial com o Mercosul, em uma cerimônia realizada no dia 17 de janeiro, em Assunção, Paraguai. Teria sido consequência das tarifas impostas por Trump às mercadorias europeias? Ou temor de perder espaço político e comercial para a China na América do Sul?
Valentina Sader acredita que a assinatura é resultado de um momento de crescente pressão para diversificar mercados de exportação e parceiros comerciais, em meio a uma elevada incerteza geopolítica, particularmente à luz das tensões entre os EUA e a China e da política tarifária americana. “Para o Mercosul, a urgência tem sido especialmente aguda para o Brasil, a maior economia do bloco, que enfrentou uma tarifa adicional de 40% pelos EUA, além das tarifas base de 10%, e tem a China como seu principal parceiro comercial. O acordo Mercosul-UE cria a maior área de livre comércio da história, abrangendo mais de 700 milhões de pessoas, promete expandir o acesso da América do Sul ao mercado europeu, impulsionando as exportações e atraindo maiores investimentos da UE”.
Para ela, outra consequência do acordo será uma pressão para que as indústrias do Mercosul se modernizem e se tornem mais eficientes para se manterem competitivas em meio à crescente exposição aos produtos manufaturados europeus. “Ao completar 35 anos este ano, o Mercosul reafirma seu propósito estratégico após ter finalizado um acordo com a Associação Europeia de Livre Comércio, retomado as negociações com o Canadá e agora firmado um acordo histórico com a União Europeia. A União Europeia por outro lado também demonstra disposição para ajustar-se as pressões geopolíticas atuais, apesar de resistência interna do bloco. Assim, enquanto a UE e o Mercosul pautam e reforçam uma realidade geopolítica pautada pelo multilateralismo e livre comércio baseado em regras, os Estados Unidos parecem caminhar na direção oposta”.
Eduardo Galvão diz que o timing não é coincidência. Segundo ele, o acordo foi destravado em um contexto de maior competição geoeconômica global. A União Europeia precisava diversificar parceiros, garantir acesso a mercados estratégicos e sinalizar compromisso com comércio baseado em regras, especialmente em meio a tensões tarifárias e disputas industriais entre grandes potências. “Há também uma dimensão estratégica em relação à América do Sul. A presença crescente da China na região e a necessidade europeia de acesso a matérias-primas críticas para transição energética reforçaram a lógica de aproximação. O acordo não é apenas comercial, é geopolítico. Em um mundo mais fragmentado, acordos regionais tornam-se instrumentos de posicionamento estratégico”.
Holzhacker considera que dois fatores parecem ter influenciado parte dos países da União Europeia a concluir o acordo com o Mercosul: a pressão tarifária promovida por Donald Trump e sua política de distanciamento da tradição transatlântica, bem como a crescente presença chinesa na América do Sul, especialmente no Brasil. “A expansão chinesa tem reduzido a competitividade das empresas europeias em determinados setores, como o automobilístico. Ao mesmo tempo, o acordo reforça a visão, compartilhada por alguns países europeus e pelo Brasil, de que ainda é possível celebrar grandes acordos comerciais, funcionando também como contraponto à tendência de aumento do protecionismo”.
Moura destaca que Bruxelas já vinha traçando caminhos para destravar o acordo, ainda que sob forte resistência interna. As medidas adotadas por Trump aceleraram o processo ao galvanizar o apoio da maioria dos Estados-membros a essa agenda. “A Europa, ao perder a confiança nos EUA e aumentar as barreiras a produtos chineses que competem com sua indústria doméstica, busca parceiros confiáveis e estáveis. Os países do Mercosul se enquadram nesse perfil. Os europeus também avançam em negociações comerciais com a Índia e com outros parceiros na Ásia. Ainda assim, as dificuldades políticas internas e a falta de unidade na Europa continuarão a atrapalhar essa agenda de diversificação”.
Ainda assim, o acordo Mercosul-UE não está a salvo de críticas. Analistas alegam que haveria um desequilíbrio no pacto – o Mercosul exportaria produtos primários, como carne e soja, e compraria carros e bens de alta tecnologia. Philipe Moura explica que o acordo foi elaborado com dispositivos que visam a um equilíbrio entre as partes. No curto prazo, o agronegócio tende a colher ganhos mais imediatos. Ao mesmo tempo, há espaço para a recuperação de segmentos industriais intermediários que perderam mercado nos EUA, o que abre novas oportunidades na Europa. “Mas o acordo não deve ser visto apenas pela lente do comércio. Há uma oportunidade evidente de ampliar o investimento europeu na região: financiamento e tecnologia para renováveis, hidrogênio de baixo carbono, eficiência industrial e cadeias de valor críticas, como minerais estratégicos. É uma oportunidade para o Brasil se inserir nessas cadeias globais de produção”.
Novas rotas comerciais – Para Galvão, o acordo deve ser entendido dentro de um contexto mais amplo de reorganização do comércio internacional. Em um mundo mais fragmentado, grandes blocos buscam reduzir incertezas, garantir acesso a mercados estratégicos e consolidar parcerias de longo prazo. “A crítica do desequilíbrio tem base empírica, porque o padrão atual de trocas já é assimétrico em intensidade tecnológica. Mas é importante lembrar que acordos comerciais não determinam automaticamente a estrutura produtiva de um país, eles criam incentivos. O resultado depende da estratégia doméstica adotada. O acordo, portanto, não redefine por si só o perfil exportador do Mercosul. Ele amplia oportunidades e intensifica pressões competitivas. O equilíbrio entre esses dois vetores dependerá da política industrial adotada, do ambiente de negócios e da capacidade empresarial de competir em segmentos de maior valor agregado”.
Esse é um debate recorrente, de acordo com a professora Holzhacker. Estudos indicam que o Brasil tende a ter ganhos econômicos, especialmente com maior acesso ao mercado europeu. No entanto, segundo ela, os efeitos serão graduais, já que o cronograma de redução tarifária é longo. “As críticas se concentram principalmente nas exigências ambientais e regulatórias, consideradas mais rígidas para os países do Mercosul. O impacto real dependerá da capacidade de as empresas brasileiras de se adaptarem e ganharem competitividade. No entanto, é importante ressaltar que sem uma política industrial estratégica, que envolva financiamento, inovação, agregação de valor e inserção tecnológica, os acordos comerciais não garantirão uma inserção sustentável dos setores industriais do Mercosul. É preciso que os países do Mercosul busquem uma inserção qualificada para obter as vantagens do acordo”.
Chaves também concorda que o acordo pode funcionar como uma alavanca para a modernização produtiva, atração de investimentos e desenvolvimento tecnológico, incrementando a integração às cadeias globais de valor. “Acredito que o resultado dependerá muito da capacidade de os países do bloco de atuarem de forma estratégica, usando o acordo não apenas para exportarem, mas para agregarem valor, ampliarem a competitividade e promoverem transferência de tecnologia”. Mauricio Niel lembra que opaís terá que aproveitar o tempo que terá até as alíquotas de importação serem totalmente zeradas para promover essa modernização. “Não se pode negar que o setor industrial se encontra em desvantagem frente aos europeus, mas teremos de 10 a 15 anos para diminuirmos essa diferença. Só que para isso, será necessária e importante a ação do poder público, com a criação de maior infraestrutura, diminuição da burocracia e da carga tributária, para combater o que chamamos há muito tempo de Custo Brasil”.
Eduardo Galvão destaca que o principal impacto para o Mercosul é simbólico e ao mesmo tempo estratégico: o bloco volta a ser tratado como parceiro capaz de concluir um pacto de grande escala com uma potência regulatória como a União Europeia. Isso melhora o poder de barganha do Mercosul em negociações futuras e aumenta sua relevância geoeconômica em um cenário de competição entre grandes atores. “O fortalecimento, porém, não é automático. Ele acontece se o acordo for um gatilho para o Mercosul avançar em coordenação interna, harmonização regulatória, facilitação de comércio e previsibilidade para investimentos. Se cada país tratar o acordo como vitória individual, sem convergência mínima, o risco é o oposto: expor fragilidades do bloco e ampliar assimetrias intrabloco”.
Para empresas brasileiras, segundo Galvão, o ganho mais direto é previsibilidade e acesso ampliado ao mercado europeu, com redução gradual de barreiras e regras mais claras em áreas como serviços, compras públicas e propriedade intelectual. Isso importa muito para empresas que vivem de planejamento de longo prazo, porque reduz o custo da incerteza e melhora condições para investir, exportar e firmar parcerias. “Mas o benefício real vai variar por perfil. Para o agro, há espaço para expansão em nichos de maior valor, com a exigência crescente de rastreabilidade e conformidade socioambiental, que pode ser ameaça para quem não se prepara e diferencial competitivo para quem se antecipa. Para indústria e serviços, há oportunidade de se acoplar a cadeias europeias, especialmente onde o Brasil conseguir competir por qualidade, escala e especialização, mas também haverá pressão competitiva no mercado doméstico, exigindo produtividade e inovação.”
Moura ressalta que as empresas brasileiras terão acesso a uma base de consumidores com maior poder de compra e oportunidades de integração a cadeias de valor mais sofisticadas. Esse movimento pode impulsionar ganhos, sobretudo em setores com vantagens comparativas, como alimentos, celulose, produtos químicos, mineração, bens intermediários e serviços de tecnologia. “A entrada de competidores estrangeiros eleva a pressão sobre o mercado doméstico. Mas o apetite de investimento europeu no Brasil tende a crescer com foco em setores como energia e mineração. Já as empresas brasileiras terão a oportunidade de se adaptar a normas ambientais e regulatórias europeias, o que facilitará a captura de novos mercados com padrões mais exigentes”.
A relevância do RelGov – E como todas essas mudanças impactam a atividade dos profissionais de relações governamentais no cenário internacional? De que forma atuar com mais eficácia no exterior para defender os interesses de empresas brasileiras? Eduardo Galvão acredita que, em um mundo marcado por interconexões globais e alta porosidade entre política externa e política interna, o profissional de RelGov precisa ampliar tanto seu campo de visão quanto o campo de atuação da sua organização. A agenda tradicional, centrada exclusivamente no Legislativo ou no Executivo doméstico, continua relevante, mas já não é suficiente. “Hoje, muitas decisões que afetam empresas brasileiras são moldadas em instâncias decisórias transnacionais, como reguladores estrangeiros, organismos técnicos, fóruns multilaterais, coalizões setoriais e até espaços de formação de opinião pública. O profissional precisa capacitar sua organização para atuar nesses espaços onde as regras são moldadas, por meio da identificação do poder real, de reguladores e redes de influência e da ação por meio de coalizões e parceiros transnacionais. É preciso transformar reputação em ativo de acesso, porque credibilidade e conformidade regulatória tornaram-se instrumentos de influência, e institucionalizar a gestão do risco político, com monitoramento sistemático e estratégias de resposta previamente estruturadas”.
Para Denilde, o cenário de incerteza aumenta a importância de profissionais capazes de interpretar o ambiente internacional e seus impactos sobre os setores nos quais atuam. “Não é mais suficiente acompanhar apenas as dinâmicas domésticas; a geopolítica passa a influenciar diretamente decisões empresariais e governamentais. Assim, torna-se fundamental desenvolver competências em análise de conjuntura, avaliação de riscos e prospecção de cenários. A capacidade de transitar em ambientes de alta incerteza será decisiva para defender os interesses de empresas brasileiras no exterior de forma estratégica e eficaz”.
Philipe Moura, diretor da Eurasia Group no Brasil, considera que mapear riscos geopolíticos deixou de ser opcional e tornou-se uma necessidade estratégica. Com os riscos identificados e priorizados, profissionais de relações governamentais podem se antecipar: aprofundar o conhecimento sobre regiões e países-chave, compreender melhor os tomadores de decisão e construir uma rede internacional de contatos relevante. “Preparar-se para um mundo de incertezas é sine qua non”.
“É necessário estar atento ao cenário mundial, na medida em que decisões tomadas em outro país podem afetar nossa realidade em questão de horas”, afirma Carlos Petiz. “Hoje vivemos um mundo de atritos permanentes, não há mais estabilidade. O profissional precisa ter a capacidade de antecipar esses riscos para orientar as ações das organizações em que atua”.
Ruan Raielli Chaves avalia que os profissionais de relações governamentais precisam agir de forma cada vez mais estratégica técnica e integrada à agenda internacional. “Isso envolve antecipar riscos regulatórios, compreender a dinâmica geopolítica, dialogar com governos e organismos multilaterais e atores privados no exterior e alinhar os interesses empresariais às prioridades de segurança, desenvolvimento e sustentabilidade do país em questão. A eficácia passará pela capacidade de cada um em traduzir cenários globais em oportunidades concretas para as empresas brasileiras”. Ele acredita que a tecnologia, em especial a Inteligência Artificial, torna a atuação dos profissionais mais precisa por meio da antecipação de movimentos. “A IA permite monitorar agendas legislativas e regulatórias em tempo real, mapear riscos geopolíticos, analisar grande volume de dados e identificar as oportunidades em diferentes mercados. Em um cenário internacional complexo, ela fortalece a tomada de decisão e amplia a capacidade de atuação em temas sensíveis. É preciso transformar instabilidade em oportunidade”.
Parece não haver dúvidas de que a Inteligência Artificial é uma ferramenta eficaz para os profissionais da área, especialmente para captura e análise de informações, mas é salutar ter cuidado. “É preciso usá-la, claro, mas com responsabilidade, como estar atento ao disponibilizar documentos da empresa para análise por essas ferramentas, o que pode configurar um risco”, alerta Carlos Petiz.
O profissional de relações governamentais frequentemente trabalha com muitos assuntos e esferas de decisão diferentes e a IA pode funcionar como uma ferramenta para ampliação cognitiva. “Quando bem utilizadas, as ferramentas de IA possibilitam processar essas informações em diferentes formatos e direcioná-las para as pessoas certas na hora adequada”, afirma Philipe Moura. “Seu uso certamente facilita que profissionais se concentrem naquilo que nos diferencia das máquinas: as relações interpessoais, a presença nos ambientes decisórios e a coleta de informações que não estão disponíveis em ambientes digitais”. Uma ajuda mais do que bem-vinda em um mundo instável, nos quais o sucesso depende cada vez mais de uma análise criteriosa e rápida dos cenários nos quais países e empresas estão inseridos.
Que tal trocar ideias como um congressista em Washington? Ou conhecer os intrincados mecanismos da burocracia da Comunidade Europeia? Esses são apenas exemplos das experiências que as missões internacionais, organizadas anualmente pelo IRELGOV, proporcionam. Um evento que já garantiu seu lugar na agenda dos profissionais de relações governamentais brasileiros.
Para Sheyla de Oliveira, advogada com MBA Executivo pela Coppead/UFRJ, que participou da viagem à capital norte-americana, em 2024, uma missão internacional permite observar, de forma prática, como diferentes sistemas organizam o diálogo entre governo, empresas, academia e sociedade. “Não é apenas aprendizado acadêmico, mas sim uma oportunidade de entender como decisões são estruturadas, como empresas se posicionam institucionalmente e as prioridades das agendas de cada país. Para quem atua em relações governamentais, isso amplia a capacidade de leitura estratégica e pode, inclusive, antecipar tendências que, em algum momento, poderão impactar o Brasil”.
Mariana Campoamor, coordenadora de Relações Governamentais na BMJ Consultores Associados, acredita que uma das principais vantagens da missão é justamente promover a troca de conhecimentos e experiências entre os profissionais de relações governamentais, não apenas como os representantes dos locais visitados, mas também entre os integrantes da viagem. “Participar de uma missão internacional se torna um diferencial muito enriquecedor. Um dos principais aspectos é o acesso a autoridades e representantes de instituições e as oportunidades de networking. Isso tudo só é possível por intermédio de um instituto qualificado como o IRELGOV. No meu caso, minha presença foi ainda mais especial, pois participei graças a uma bolsa concedida pelo instituto”. Campoamor considera que foi muito interessante observar e calibração das prioridades da União Europeia, que está mudando seu foco. “Eles estão buscando maior simplificação regulatória, que permita aumentar a competitividade industrial. O objetivo dele é acompanhar o acirramento da competição no cenário Internacional”.
De acordo com Thiago Jaime, CEO da Torre Comunicação e Estratégia, as missões são importantes não apenas para agências especializadas em relgov. “Nossa empresa atua prioritariamente na área de comunicação, mas com um olhar político. Então, é essencial participarmos para fazermos relacionamento. Além disso, o IRELGOV tem a capacidade de nos oferecer conteúdos de alto nível, que são muito úteis quando trazemos os ensinamentos aprendidos para nossas empresas”.
As missões também ajudam a consolidar a imagem do Brasil como um país com grande capacidade diplomática e de negociação. Natália de Oliveira, que esteve na viagem de 2024 a Washington, acredita que esse perfil conciliador pode ser uma vantagem para manter diálogos e fazer leituras de uma realidade cada vez mais complexa. “Podemos compreender quais os impactos de determinadas situações em nossos interesses e, a partir disso, atuar de forma mais estratégica”.
O contato com o cenário internacional faz com que os profissionais de relgov operem com mais eficácia no exterior para defender os interesses de empresas brasileiras. “É necessário ter um perfil técnico, entender de regulação e compliance, ser estratégico e sempre pensar em como fazer essa manutenção desse networking. Isso ficou bem evidente na missão a Bruxelas, no encontro com a equipe da Covington & Burling LLP”, afirma Campoamor.
Para Sheyla de Oliveira, o profissional de relações governamentais precisa ampliar sua visão e as missões cumprem esse papel. “É necessário compreender geopolítica, regulação internacional, cadeias produtivas e reputação institucional. Defender interesses empresariais hoje exige preparo, método e leitura sistêmica do ambiente nacional e internacional”.
De que forma a política internacional deve impactar as eleições deste ano? Há possibilidade de influência do presidente norte-americano na campanha eleitoral? Estas e muitas outras perguntas compõem as análises de especialistas, jornalistas e políticos e certamente farão parte dos planejamentos das campanhas políticas. Confira o que disseram nossos entrevistados:
Valentina Sader, diretora-adjunta de Programas de Impacto e Líder para o Brasil no Adrienne Arsht Latin America Center do Atlantic Council
“O impacto das relações internacionais na política doméstica brasileira tornou-se especialmente evidente em 2025, quando produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos passaram a ser tarifados em 50%. Apesar de exceções e da decisão da Suprema Corte americana, que afeta as tarifas sobre produtos brasileiros, a política externa tende a ser uma pauta mais relevante nas eleições deste ano. Considerando o caráter inicialmente político dessas tarifas, bem como precedentes de posicionamento do presidente norte-americano em eleições na Argentina e em Honduras, é possível que o presidente Trump também venha a sinalizar preferência política no Brasil. De toda forma, um eventual apoio a um candidato específico nas eleições brasileiras provavelmente estaria vinculado a alguma vantagem estratégica para os Estados Unidos”.
Carlos Petiz, gerente de Integridade e Compliance na Controladoria-Geral do Estado de Santa Catarina e coordenador do Fórum de Integridade das Empresas Estatais de Santa Catarina
“O que nós temos visto nos últimos anos é uma frequência cada vez maior da interferência de um país sobre a política doméstica de outro. Então quando um presidente em outro país se manifesta publicamente em favor de um candidato isso claramente não é recomendado em termos de prática diplomática. Mas, como sabemos, as regras diplomáticas têm sido constantemente quebradas nos últimos anos pelos governantes. No entanto, também temos observado uma mudança no reflexo dessas ações, quando um candidato apoiado por um agente externo chega a perder popularidade, como foi no Canadá, quando o candidato que foi apoiado declaradamente pelo presidente dos Estados Unidos perdeu a eleição para outro candidato que vinha mais fraco nas pesquisas”.
Denilde Holzhacker, diretora acadêmica de Graduação – Negócios e Tecnologia e professora na ESPM
“Sempre há possibilidade de influência externa, sobretudo considerando precedentes em que Donald Trump buscou intervir politicamente em outros países. No entanto, a relação entre os governos brasileiro e norte-americano pode reduzir essa probabilidade, tudo dependerá do estágio das negociações bilaterais. Os Estados Unidos mantêm interesse estratégico nas eleições brasileiras, e grupos conservadores podem buscar apoio externo para candidaturas à direita. Embora a família Bolsonaro tenha perdido parte de seu prestígio, isso não significa que deixará de buscar aproximação com Trump e seus aliados. De qualquer forma, o Brasil precisa se preparar para que redes transnacionais ideológicas busquem influenciar o eleitorado por meio da disseminação de informações falsas, bem como pelo uso de ferramentas tecnológicas cada vez mais sofisticadas para distorcer conteúdos e manipular o ambiente informacional durante as eleições. Trata-se de um risco significativo para o processo eleitoral brasileiro e, mesmo com toda a legislação vigente, será difícil conter plenamente seus impactos sobre o pleito. Além disso, as eleições no Brasil e na Colômbia poderão indicar se a região vive um novo ciclo de governos de direita. Esse resultado influenciará não apenas as relações com os Estados Unidos, mas também com a China. Daí o elevado interesse internacional no pleito brasileiro”.
Eduardo Galvão, diretor da consultoria na Burson Brasil e professor no Ibmec
“A política internacional deve entrar na eleição mais como ‘ambiente’ do que como tema de programa. Três vetores tendem a pesar. O primeiro é o contágio narrativo, com a política dos EUA funcionando como fonte de narrativas que depois são adaptadas aqui, especialmente em temas de legitimidade eleitoral, polarização e ‘guerra cultural’. Esse fenômeno tem sido descrito como risco de contágio, na medida em que dinâmicas políticas consolidadas nos Estados Unidos passaram a reverberar no ambiente brasileiro. O segundo vetor é o ambiente informacional, com desinformação e operações de influência ficando mais baratas e mais escaláveis com ferramentas de IA. Relatórios de risco político vêm alertando para ameaças ao processo eleitoral de 2026, como campanhas de deslegitimação, operações de desinformação e potenciais vetores de interferência externa no ambiente digital. O terceiro é a influência indireta por sinais externos, como declarações públicas, medidas comerciais e sanções que reverberam na política doméstica, mesmo quando o alvo formal é outro. Nos últimos meses, relatos da imprensa internacional destacaram tensões entre Estados Unidos e Brasil em torno de sanções e tarifas, com efeitos perceptíveis no ambiente político interno. Sobre a possibilidade de influência do presidente norte-americano, é importante adotar uma formulação cuidadosa. Influência direta é difícil de comprovar e raramente se manifesta de forma explícita ou transparente. No entanto, influência indireta é plausível e pode ocorrer por diferentes canais, como contágio narrativo, sinais econômicos e dinâmicas dos ecossistemas digitais. Em um ambiente global altamente conectado, declarações, medidas comerciais ou disputas externas podem reverberar no debate doméstico, moldando percepções e agendas. Em um mundo interconectado, influência não precisa ser formal para ser relevante”.
Mauricio Niel, fundador da M Niel Relações Corporativas
“Já vimos esse filme, infelizmente. E creio sim que a eleição brasileira sofrerá com muitas ações externas na tentativa de interferir no pleito, seja por meio de pesquisas de opinião pública, no discurso dos candidatos, fake news, enfim…. muitas coisas. E quanto à política internacional, vai depender da ação dos grandes players… questões econômicas e geopolítica, como eventual conflito mais grave em regiões sensíveis do planeta”.
Ruan Raielli Chaves, coordenador de Relações Institucionais/Governamentais na Trucker Inovação e Empreendedorismo Social
“A política internacional tende a impactar o debate eleitoral de forma indireta por meio de temas como economia, comércio, meio ambiente, segurança, alimentos e geopolítica. Além disso, é inegável que as grandes empresas de tecnologia – as chamadas big techs – podem ter interesses relevantes nesse contexto, seja na regulamentação de plataformas, no fluxo de dados ou na economia digital, o que pode, sim, influenciar narrativas em ambientes informais. No entanto, é importante destacar que as instituições brasileiras estão atentas a esses riscos, com a atuação de órgãos reguladores do sistema eleitoral e do judiciário com o objetivo de preservar a integridade do processo democrático. Assim, mais do que interferência externa direta, o impacto se dará na disputa de ideias e agendas dentro dos limites institucionais do país”.
Philipe Moura, diretor da Eurasia Group no Brasil e professor convidado da Fundação Dom Cabral
“Trump não ficou satisfeito com os resultados das intervenções adotadas em relação ao Brasil. As tarifas e as sanções a integrantes do governo e a ministros do Supremo não produziram mudança de regime, tampouco alteraram o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, e acabaram fortalecendo a retórica do atual governo. Nesse contexto, é mais provável que Trump interfira menos diretamente no Brasil, ainda que ele possa manifestar apoio político a um candidato de oposição. No entanto, esse tipo de apoio não deve influenciar significativamente o resultado eleitoral. Por outro lado, ainda há riscos de fricções em torno da regulação das empresas de tecnologia em ano eleitoral, um tema sensível na relação bilateral. O Palácio do Planalto está atento ao tema, preocupado especialmente com o uso de ferramentas de Inteligência Artificial e de impulsionamento de conteúdos em redes sociais para disseminar desinformação e conteúdos ilícitos. O Superior Tribunal Eleitoral está revisando as regras que serão válidas durante o período eleitoral desse ano e já acumulou expertise em agir rapidamente contra conteúdos ilícitos em plataformas digitais (apesar de o desafio tecnológico ainda ser relevante). Uma regulação mais ampla de redes sociais ou sistemas de IA, no entanto, segue improvável neste ano”.
Aretha Amorim é Gerente de Relações Governamentais na General Motors
A previsibilidade nunca fez parte da rotina de quem atua em relações institucionais e governamentais. Agendas mudam, prioridades se alteram, decisões são revistas. Sempre foi assim.
O que mudou é a escala do desafio. Já não se trata apenas de lidar com uma agenda imprevisível, mas de atuar em um mundo imprevisível. Mercados se transformam em velocidade crescente. Decisões são tomadas de forma abrupta. Cenários que pareciam consolidados se alteram em questão de semanas. O tempo da política, da economia e da sociedade passou a se sobrepor, comprimindo prazos e exigindo respostas mais rápidas.
Nesse contexto, vale retomar um dos pilares da prática das relações governamentais: é possível construir soluções de ganha-ganha, nas quais se busca influenciar para alcançar resultados benéficos a todos os envolvidos, com foco nos interesses, não nas posições, e em colaborar na busca de soluções, ao invés de buscar conflitos. Ao defender uma pauta, a lógica é simples: boas decisões públicas devem gerar benefícios compartilhados. Ganham governos, ganha a economia, ganha a sociedade. Esse é o fundamento do diálogo institucional.
A questão é que, em um ambiente de transformação permanente, um mundo em constante mutação, essa lógica passou a exigir mais esforços. Nem sempre há tempo suficiente para consensos amplos. Nem sempre é possível acomodar todos os interesses. Em alguns casos, a percepção de perda se torna inevitável, ainda que exista algum benefício coletivo.
Regras, estruturas e canais institucionais seguem existindo e continuam relevantes. Processos e ritos foram construídos para oferecer estabilidade e previsibilidade e, por muito tempo, cumpriram bem esse papel. O que mudou foi o contexto em que operam. Muitos deles foram desenhados para um ambiente mais estável, em que mudanças eram graduais e um pouco mais previsíveis.
Hoje, muitas decisões são impactadas mais pelo ritmo do ambiente do que pela ausência de normas. Não porque as regras tenham perdido a relevância, mas porque o ritmo das transformações passou a desafiar a capacidade de antecipação. O tempo institucional nem sempre acompanha a velocidade das mudanças externas.
Nesse cenário, o papel das relações governamentais se amplia. Já não basta dominar o processo decisório ou conhecer os atores-chave. É preciso desenvolver uma leitura constante de contexto, interpretar sinais políticos, econômicos e sociais e ter a capacidade de ajustar estratégias em tempo real.
O profissional da área funciona, cada vez mais, como um ponto de convergência dentro das organizações. Traduz movimentos políticos, econômicos e sociais em impactos potenciais para decisões estratégicas. Não substitui a previsibilidade, mas ajuda a construí-la em um ambiente menos estável.
A fronteira entre Estado e mercado também se tornou mais fluida. O risco político e institucional passou a integrar o planejamento estratégico das organizações. Enquanto algumas áreas olham para indicadores e projeções, relações governamentais olham para os porquês. Para as motivações por trás das decisões. Para o contexto que explica movimentos nem sempre lineares.
Nesse ambiente, a lógica do ganha-ganha permanece como norte. O que muda é que ela já não opera mais sozinha. O trabalho segue sendo construir soluções equilibradas, mas passa também a ser gestão de limites, riscos e frustrações. Em determinados momentos, o objetivo não é maximizar ganhos, mas evitar perdas maiores.
Esse é, talvez, o realismo que se impõe às relações governamentais hoje. Não o abandono do diálogo institucional, mas sua prática em um mundo menos previsível. Navegar na instabilidade, reduzir danos e manter pontes ativas segue sendo parte essencial da atuação, agora com ainda mais consciência das limitações impostas pelo contexto.
E há muitas formas de fazer isso na prática: a) atuar em prol de respostas proativas e ágeis, com base em ferramentas de monitoramento em tempo real, para antecipar as mudanças legislativas e regulatórias, e não apenas reagir a elas; b) estruturar a defesa de interesses com base em dados quantitativos, para demonstrar aos formuladores os impactos econômicos ou sociais de forma concreta; c) cultivar relacionamentos externos em instâncias distintas, ampliando canais de diálogo e aprimorando a ótica de leitura do cenário.
Esses são apenas alguns exemplos que, por si só, dariam assunto para outro artigo!
Enfim, em um mundo em mudança constante, defender interesses de forma legítima nunca foi tão essencial. Tão essencial quanto reconhecer que o ganha-ganha continua sendo o horizonte, mas exige hoje mais esforço, mais leitura de contexto e mais capacidade de adaptação do que nunca.
Como lembrou Winston Churchill, “Por mais brilhante que a estratégia seja, você deve sempre olhar para os resultados”. Talvez esse seja o convite mais urgente às relações governamentais atualmente: menos apego à “fórmula” recorrente e mais atenção ao que o mundo, o cenário, o contexto — e os resultados — estão nos mostrando.
Lucas Ribeiro Guimarães é internacionalista e Delvino da Conceição Caconda é jornalista comunitário
O acordo Mercosul–União Europeia compreende uma das iniciativas mais relevantes da política comercial internacional contemporânea, não apenas por seu alcance econômico, mas sobretudo por seu significado estratégico no âmbito da política externa europeia. Ao envolver dois blocos que, conjuntamente, reúnem cerca de 700 milhões de consumidores, o acordo projeta-se como instrumento central de reposicionamento da União Europeia em um cenário internacional marcado pela multipolaridade, pelo acirramento das disputas geopolíticas e pela redefinição das relações econômicas globais.
Sob a perspectiva europeia, o acordo transcende a lógica estritamente comercial. A Política Comercial Comum tem sido historicamente utilizada pela União Europeia como ferramenta de projeção externa, permitindo ao bloco não apenas ampliar mercados, mas também difundir padrões regulatórios, ambientais e sanitários alinhados aos seus interesses estratégicos. Nesse sentido, o Mercosul surge como parceiro importante, tanto pela complementaridade econômica quanto pela possibilidade de reforçar a presença europeia na América Latina, região cada vez mais disputada por outros atores globais, como a China e o bloco dos BRICS.
O processo de negociação e ratificação do acordo, contudo, evidencia a complexidade inerente à política externa europeia. As resistências internas de alguns Estados-membros, em especial no setor agrícola, revelam o peso dos interesses domésticos na formulação de decisões supranacionais. Paralelamente, as preocupações ambientais, com destaque para o desmatamento da floresta amazônica, tornaram-se elemento central do debate político, levando à incorporação de cláusulas ambientais vinculantes e à possibilidade de sanções em caso de descumprimento de compromissos climáticos.
É nesse contexto que a atuação em relações governamentais assume papel fundamental. A construção e a implementação do acordo envolvem uma multiplicidade de atores, incluindo governos nacionais, instituições da União Europeia, parlamentos, governos subnacionais, setores produtivos, organizações ambientais e empresas multinacionais. As relações governamentais operam como mecanismo de mediação entre interesses públicos e privados, articulando demandas domésticas e influenciando processos decisórios em diferentes níveis.
No plano europeu, regiões fortemente dependentes da agricultura ou da indústria mobilizam estratégias de lobby e pressão política para moldar os termos do acordo, demonstrando que a política externa comercial não se limita à esfera diplomática, mas é profundamente condicionada por dinâmicas internas. Já no âmbito do Mercosul, e particularmente do Brasil, a efetividade do acordo dependerá da capacidade de adaptação regulatória, da atuação coordenada entre Executivo e Legislativo e do engajamento de governos subnacionais na atração de investimentos e na adequação de políticas locais às exigências do comércio internacional.
Dessa forma, o acordo Mercosul–União Europeia afirma-se como instrumento estratégico da política externa europeia, cuja efetividade depende menos da assinatura formal e mais da capacidade de articulação política e institucional entre os atores envolvidos. Uma vez ratificado, o verdadeiro desafio será a absorção dos custos de ajuste pela política doméstica e pela indústria. Para o Brasil, o potencial estratégico só se materializará com um ambiente regulatório estável e competitivo. Nesse processo, as relações governamentais revelam-se decisivas ao conectar o plano internacional aos interesses internos, garantindo a viabilidade política do acordo e maximizando seus benefícios econômicos e regulatórios.
Lui Vasconcelos Rocha Fortes é consultor em relações governamentais na BMJ Consultores Associados
O ano de 2025 terminou com uma sensação curiosa no campo tributário brasileiro, principalmente para os operadores das relações governamentais. Ao mesmo tempo em que se encerra um dos mais ambiciosos ciclos de reforma normativa da história recente, sendo a primeira aprovada em regime democrático, abre-se um horizonte ainda nebuloso sobre seus efeitos concretos. A reforma tributária foi aprovada, sim, os pilares institucionais foram lançados, discursos de modernização ganharam força, mas a verdadeira disputa e o verdadeiro trabalho ficou para depois.
Esse “depois” atende pelo nome de 2026.
Do ponto de vista das relações governamentais, 2025 foi menos sobre consenso e mais sobre construção de bases e alinhamentos de interesses. A aprovação final do Projeto de Lei Complementar (PLP) 108/2024, finalizando a regulamentação da reforma do consumo, a definição de novos tributos, a reorganização da administração fiscal, por meio da criação do Comitê Gestor do IBS, e outras propostas discutidas e aprovadas, como a revisão de benefícios fiscais, prevista no PLP 128/2025, sinalizam um esforço claro do governo de alinhamento do Brasil a tendências internacionais: neutralidade tributária, ampliação de base, redução de distorções e maior coordenação federativa. Em linguagem global, trata-se de tornar o sistema “mais previsível”. Na prática política, contudo, previsibilidade é sempre um projeto em disputa.
Ao final do ano, o país chegou com um arcabouço normativo robusto, mas ainda carente de interpretação, acomodação institucional e, sobretudo, governança. A criação de instâncias compartilhadas de gestão tributária, a previsão de atos conjuntos entre autoridades fiscais e a multiplicação de normas infralegais revelam que o centro da discussão se deslocou: menos sobre o texto da lei, mais sobre como ela será aplicada.
É aqui que o diálogo com a política se torna inevitável. Reformas tributárias contemporâneas raramente se encerram no plano doméstico. Elas dialogam com cadeias globais de valor, com padrões internacionais de tributação do consumo, com debates sobre seletividade, sustentabilidade e competitividade. O Brasil, ao reformar seu sistema, passa a falar uma linguagem mais reconhecível fora de suas fronteiras, mas isso não elimina tensões internas.
Ao contrário: 2026 tende a ser o ano em que essas tensões se tornam explícitas. A agenda regulatória da reforma será intensa, técnica e politicamente sensível, também representando pressão para uma transição viável para 2027. A publicação de atos conjuntos, a definição de obrigações acessórias, os contornos do contencioso administrativo e os mecanismos de conformidade fiscal serão temas centrais não apenas para especialistas, mas para setores inteiros da economia. Cada escolha regulatória produzirá vencedores, perdedores e, inevitavelmente, pedidos de ajuste.
Nesse contexto, outro ponto que veremos na pauta de 2026 será o projeto de lei do Imposto Seletivo, que desponta como uma das pautas mais emblemáticas do primeiro semestre. Seu impacto atravessa setores estratégicos, como veículos, bebidas, mineração e atividades intensivas em recursos naturais, e conecta o debate tributário brasileiro a discussões globais sobre externalidades, meio ambiente e política industrial. Não se trata apenas de arrecadar mais, mas de sinalizar comportamentos, alinhar incentivos e responder a pressões internas e externas.
Tudo isso ocorre, ainda, em um ano eleitoral. E anos eleitorais raramente são neutros. A implementação de reformas estruturais tende a conviver com disputas narrativas, demandas por exceções, pressões regionais e tentativas de reequilíbrio político. O risco não é a revisão da reforma, mas sua fragmentação interpretativa. O desafio dos atores institucionais envolvidos será preservar coerência regulatória sem perder capacidade de diálogo.
É nesse cenário que as relações governamentais ganham protagonismo. Mais do que acompanhar votações ou publicar posicionamentos, trata-se de atuar como ponte: entre técnica e política, entre norma e impacto econômico, entre o debate doméstico e as tendências internacionais. O sucesso da reforma tributária não dependerá apenas da solidez do texto legal, mas da qualidade das interações institucionais que a sustentarão.
Se 2025 foi o ano da aprovação, 2026 será o ano da interpretação. E, como toda boa interpretação, ela exigirá menos certezas absolutas e mais capacidade de escuta, coordenação e construção coletiva. O mundo observa — e o Brasil, mais uma vez, terá a chance de transformar um grande acordo legislativo em uma política pública efetiva.
Philipe Moura é diretor da Eurasia Group no Brasil
Em 1856, Victor Hugo publicou “As contemplações”, coletânea de poemas dividida entre duas seções: Outrora e Hoje. O livro é uma manifestação da memória e da saudade do autor por sua filha, que faleceu de forma trágica e súbita, e o pai, que estava viajando na ocasião, soube da notícia pelo jornal.
Em um dos poemas (“Resposta a uma acusação”), o autor, com sua elegância característica, escreveu: “Je nommai le cochon par son nom; pourquoi pas?” (“Chamei o porco pelo nome; por que não?”).
Confesso sem pudor que a reflexão sobre o verso veio muitos anos depois de o encontrar pela primeira vez. Hoje, no entanto, ao reconhecer que a memória percorre caminhos imprecisos – tal como um andarilho trôpego e vacilante – não me surpreende que esse verso me tenha vindo à mente. Afinal, eu me sentei para escrever sobre política internacional e o estado do mundo.
O ano, este que mal acaba de começar, já se configura como espetacular para o analista geopolítico. Escrevi sobre isso recentemente em outro veículo (na ocasião, falei de um brinde aos “tempos interessantes”); a frase foi originalmente dita por Ian Bremmer nos primeiros dias deste ano, quando do lançamento do esperado relatório Top Risks 2026 da Eurasia Group. O “espetacular”, admito, foi adição minha: tem sido um misto de angústia, exasperação e euforia acompanhar o espetáculo que virou o noticiário no final do dia. Em circunstâncias normais, seria uma overdose de notícias, mas quero crer que a tolerância é maior para quem trabalha com análise de risco político.
De fato, a demanda por acompanhar risco político como variável estratégica para as organizações está, como o boletim diário, explosiva. E há boas razões para isso.
No plano doméstico, decisões políticas deixaram de ser ruído de fundo e voltaram a ser determinantes diretos dos rumos e até da sobrevivência do negócio. Uma decisão no Brasil sobre uma grande empresa americana de tecnologia, por exemplo, derrubou suas ações em 7% na Bolsa de Nova Iorque.
No plano internacional, da assinatura simbólica do acordo Mercosul-União Europeia ao terremoto que balança as estruturas da OTAN, muitos eventos geopolíticos de alta relevância vêm ocorrendo em rápida sucessão, e todos são influenciados por uma mesma esteira: o mundo G-zero, ou o vácuo de liderança global em que nenhum país possui simultaneamente capacidade e interesse para impor estabilidade.
Em um passado não tão distante, a análise de risco político ocupava lugar periférico nas corporações – quando existia! –, mas isso também está em transformação. Operar no mundo G-zero significa que escolhas técnicas navegam em um mar de apostas geopolíticas. Um CFO alocando US$ 200 milhões em uma nova fábrica precisa decidir seus principais fornecedores, e a resposta vai incluir, para além de preço, prazo e qualidade, considerações sobre riscos de tarifas punitivas, acesso a financiamento e sobre certificações ESG exigidas em certas partes do mundo. Da inteligência artificial à cadeia de suprimentos, muitas das grandes decisões do negócio podem carregar um relevante peso geopolítico.
No Top Risks do ano passado, a Eurasia já falava sobre estarmos voltando à lei da selva: um mundo em que os mais fortes fazem o que podem, em detrimento dos mais fracos. Em quaisquer segmentos, o sistema multilateral que funcionou como colchão de proteção e previsibilidade para empresas de todos os portes está esticado ao limite.
O boom de demanda causado pelo crescente desconforto dos líderes na tomada de decisão também vem com expectativas terrivelmente altas. A análise política deve combinar rigor intelectual para determinar para onde os ventos sopram com ceticismo metodológico para revisar premissas constantemente, questionar vieses e admitir quando uma previsão envelheceu mal. Também exige robustez para influenciar decisões bilionárias, dando sinal verde ou sinal vermelho para um investimento, especialmente quando incentivos internos às organizações empurram na direção oposta. O analista, para além de prover clareza, precisa levar também a esperança de uma boa decisão – ou, ao menos, da melhor decisão que poderia ser tomada naquele momento.
E essa incerteza – mas não incompreensibilidade – deve ser cada vez mais a norma. O mundo de baixo risco geopolítico não deve voltar tão cedo, e o mar de 2026, que já começou revolto, dá sinais de tempestade. Fará muita diferença entender quais instrumentos serão usados nessa navegação desse momento em diante.
Configura-se, em câmera não tão lenta assim, um período marcado por competição permanente, fragmentação de cadeias de valor e erosão do multilateralismo e de algumas de suas premissas fundamentais. O consequente acirramento de assimetrias (por exemplo, de poder e de informação) deveria levar tomadores de decisão a diversificar as exposições geopolíticas. Para analistas veteranos e novatos, isso é simultaneamente estimulante e desafiador. Quem sabe não entraremos em uma nova era de ouro da análise política?
Em seu recente discurso em Davos, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, clamou, de forma inequívoca: parem de invocar a ordem internacional baseada em regras, já que ela não cumpre mais o que promete. Disse ainda que nostalgia não é estratégia (talvez isso vire título de um artigo um dia), e propôs que lidemos com o mundo como ele é ao invés de esperar o mundo que gostaríamos que fosse.
Pensando bem, acho que devo a Carney a lembrança ao poema de Victor Hugo. A morte metafórica, neste caso, talvez seja a da ordem internacional que se estabeleceu no pós-guerra fria. Devemos, afinal, chamar o porco pelo nome; por que não?
Paula Bernardes é professora da pós-graduação de Geopolítica da Transição Energética na Fundação Escola de Sociologia e Política
A energia sempre foi o elemento central da sobrevivência e da organização da humanidade. Do domínio do fogo à fissão do átomo, cada salto civilizatório esteve diretamente associado à capacidade de acessar, controlar e transformar fontes de energia. Sem energia não há produção, não há circulação, não há poder. Ao longo da história, pensar novas fontes energéticas nunca foi apenas um exercício de inovação tecnológica, mas uma questão de estratégia de segurança, de autonomia econômica, política e de soberania.
Nesse sentido, a chamada transição energética não é um fenômeno recente. Como fator consciente, ela surge depois da Segunda Grande Guerra e ganha forma como preocupação estratégica a partir da década de 1970, em meio às crises do petróleo, quando os países centrais percebem sua vulnerabilidade diante da concentração geográfica das reservas fósseis e da instabilidade das rotas de abastecimento. Naquele momento, diversificar a matriz energética era, antes de tudo, uma resposta à insegurança e ao risco de escassez.
É apenas a partir do final dos anos 1980, com a criação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e o avanço dos monitoramentos científicos, que a transição energética passa a incorporar a dimensão ambiental. A partir desse marco, a energia deixa de ser tratada apenas como variável econômica ou geopolítica e passa a ser reconhecida também como vetor central do risco climático. Em 2015, com o Acordo de Paris, essa dimensão se consolida politicamente: substituir as fontes fósseis torna-se uma necessidade explícita para a estabilidade climática do planeta. O petróleo passa a ocupar o centro da narrativa como principal vilão e a substituição dos combustíveis fósseis por fontes mais limpas passa a ser um desafio indispensável para garantir qualidade de vida e equilíbrio ambiental no longo prazo.
O problema é que essa leitura, embora necessária, não é suficiente para explicar a conjuntura em curso do sistema internacional. No atual momento político, marcado pela fragmentação da governança global, pelo recrudescimento de disputas geopolíticas e por uma retomada explícita da lógica de poder — inclusive bélica — a transição energética revela sua face mais dura: a de disputa por controle, autonomia e segurança.
Não há uma substituição da geopolítica do petróleo. O que existe é a transição energética surgindo como uma camada adicional dessa disputa, ampliando o tabuleiro e tornando-o mais complexo. Energia limpa, minerais críticos, tecnologia e cadeias produtivas passam a integrar o mesmo jogo estratégico. Resumir esse tabuleiro ao petróleo, apenas, é olhar de forma superficial o cenário que vivemos.
O primeiro dado que desmonta qualquer narrativa simplificada é que a transição ocorre antes do fim do petróleo. Apesar do crescimento acelerado das fontes renováveis, da eletrificação e do aumento recorde de investimentos em tecnologias limpas, a economia global continua estruturalmente dependente dos combustíveis fósseis. Em 2023, cerca de dois terços do crescimento da demanda global de energia foi atendido por petróleo, gás e carvão, levando as emissões energéticas a novos recordes. As projeções da Agência Internacional de Energia indicam que a demanda global por petróleo ainda cresce ao longo desta década. Essa convivência prolongada entre fósseis e renováveis caracteriza uma transição incompleta, sujeita a choques de preço, subinvestimento e instabilidade política.
Esse quadro se agrava em um mundo que voltou a operar sob uma lógica multipolar. A ideia de uma transição coordenada, guiada por regras multilaterais estáveis e por mercados plenamente integrados, já não corresponde à realidade. Estados Unidos, China, União Europeia, Rússia e economias emergentes seguem trajetórias distintas, com interesses frequentemente conflitantes. A energia retorna ao centro da agenda de segurança nacional. Sanções econômicas, conflitos regionais, nacionalismo energético e políticas industriais agressivas passam a moldar o ritmo e o formato da transição.
Nesse contexto, a transição energética é explicitamente industrializada. Não se trata apenas de reduzir emissões, mas de decidir onde serão produzidos painéis solares, turbinas eólicas, baterias, eletrolisadores, transformadores, semicondutores e softwares de gestão energética. A União Europeia, ao aprovar o Net-Zero Industry Act e o Critical Raw Materials Act, reconhece que sua vulnerabilidade não está apenas na dependência de gás russo, mas na concentração global das cadeias produtivas e de refino de minerais estratégicos. Os Estados Unidos seguem lógica semelhante ao atrelar incentivos à transição a critérios de conteúdo doméstico e alianças seletivas. A transição deixa de ser apenas uma agenda climática e assume o contorno inequívoco de uma disputa por capacidade industrial, empregos qualificados, inovação e influência regulatória.
As cadeias globais de produção tornam-se o principal campo de batalha. Tecnologias limpas são intensivas em materiais, logística e infraestrutura. Estimativas do Banco Mundial indicam que a produção de minerais como lítio, grafite e cobalto precisaria crescer quase 500% até 2050 para atender às demandas da transição. Mais relevante do que a existência desses recursos é o controle das etapas de processamento, refino e manufatura, hoje altamente concentradas. A dependência não é apenas geográfica; ela é, sobretudo, tecnológica e industrial.
Paralelamente, o próprio conceito de segurança energética se transforma. Se no século XX ele se referia essencialmente ao acesso a petróleo e gás, hoje envolve a estabilidade dos sistemas elétricos, a capacidade de armazenamento, a resiliência das redes, a cibersegurança e a segurança das cadeias industriais que sustentam a eletrificação. O crescimento acelerado da demanda por eletricidade, impulsionado pela mobilidade elétrica, pela urbanização e pela expansão de data centers e inteligência artificial, desloca o eixo da segurança energética para a infraestrutura elétrica e para os insumos que a tornam possível. A soberania energética do século XXI depende menos de reservas naturais e cada vez mais de capacidade tecnológica, regulatória e industrial.
É nesse tabuleiro que o Brasil ocupa uma posição singular. O país reúne atributos raros: uma matriz elétrica majoritariamente renovável, com cerca de 90% da oferta baseada em fontes limpas, além de uma base relevante de recursos naturais, que inclui biomassa, potencial solar e eólico e reservas estratégicas de minerais. Ao mesmo tempo, o Brasil é um grande produtor de petróleo, com o pré-sal respondendo por mais de três quartos da produção nacional e a exploração da margem equatorial em curso de implementação. Essa dupla condição sintetiza o dilema central da transição: como avançar na descarbonização sem comprometer receitas fiscais, segurança de abastecimento e estabilidade econômica.
Infelizmente, a resposta não está em negar o petróleo. Ainda não podemos. Tampouco é possível apostar exclusivamente na expansão das renováveis. O cerne da questão está em transformar a vantagem comparativa da eletricidade limpa em estratégia de desenvolvimento, atraindo indústrias, internalizando tecnologias, fortalecendo cadeias produtivas e capturando mais valor além da exportação de commodities. O risco, caso contrário, é repetir um padrão histórico conhecido: fornecer energia, minerais e matérias-primas enquanto importa equipamentos, tecnologia e serviços de alto valor agregado.
A América Latina enfrenta dilema semelhante. A região é estratégica para a transição global por sua abundância de minerais críticos, potencial energético renovável e capacidade de expansão de infraestrutura. Organismos como a IEA e a CEPAL destacam o papel do lítio, do cobre e de outros minerais latino-americanos na eletrificação global. No entanto, os países centrais já estruturam políticas para internalizar manufatura e proteger suas cadeias produtivas, o que amplia o risco de um novo ciclo de neocolonialismo verde, no qual o Sul Global exporta insumos e importa tecnologia, empregos qualificados e poder de decisão.
Nesse contexto, a transição energética deixa de ser apenas um desafio ambiental e se consolida como uma disputa comercial, industrial e diplomática. Controle de cadeias, acesso a mercados, definição de padrões e segurança de suprimento tornam-se instrumentos de poder. Para o Brasil, isso impõe uma exigência estratégica clara: será necessário atuar com inteligência diplomática, capacidade de negociação comercial e leitura geopolítica refinada para explorar a multipolaridade a seu favor, construir alianças diversificadas e evitar novas formas de dependência estrutural.
No mundo multipolar, a energia deixou de ser apenas combustível da economia — tornou-se o idioma do poder. Compreender essa língua será uma das principais tarefas do Brasil nas próximas décadas.
Luiza Veronese Lacava é coordenadora de Relações Governamentais e Raffaela Valdemarca Norcia é coordenadora de Estratégia e Desenvolvimento Institucional, ambas da Meridiana
Parte importante da literatura em ciência política aponta para a existência de um déficit de atuação e de envolvimento do Poder Legislativo em matéria de política internacional. Argumenta-se que o Congresso não teria exercido a contento suas prerrogativas constitucionais, ou até mesmo delegado a política externa ao Poder Executivo, conformando-se aos assuntos da esfera interna. Ao mesmo tempo, para as relações internacionais, uma literatura que data de 2006 até atualmente aponta uma “lacuna” entre a elaboração da norma internacional e sua aplicação local. Essa é uma literatura não mainstream, que aponta para a importância do processo que faz a ponte entre essas duas etapas e que pode ser chamado de tradução, vernacularização ou localização, a depender do autor.
Para os profissionais de relações governamentais que atuam em temas transversais à agenda multilateral, esta constatação talvez seja empírica: muitas vezes, é difícil engajar parlamentares em temas de ordem geopolítica, conferências internacionais contam com baixa participação e é menor ainda a presença em arenas com relevância decisória.
Este cenário, entretanto, muda na medida em que o próprio contexto geopolítico se imiscui na agenda nacional de forma sem precedentes: no intervalo de menos de um ano, assistimos, entre outros, ao tarifaço, à assinatura do acordo UE-Mercosul, à invasão de um país fronteiriço e ao Brasil sediar o maior evento climático do planeta. Esta conjuntura tem desafiado a tese da abdicação por parte do parlamento e instigado setores de lobby até então menos atuantes a frequentar a arena internacional, antes majoritariamente dominada por empresários.
Neste breve artigo, investigamos algumas das características deste fenômeno, e exploramos como profissionais de relações governamentais podem fazer pontes e fomentar a internacionalização do legislativo brasileiro.
Impactos do internacional no local – Apesar de parlamentares brasileiros se engajarem pouco em debates que ocorrem no cenário internacional, as decisões tomadas em fóruns internacionais têm efeitos diretos e práticos no contexto local. A literatura do construtivismo de normas nas relações internacionais sugere que ocorre uma “viagem das normas” – todo o processo subjetivo, complexo e não linear que faz um “consenso” ou decisão internacional se cascatear até se tornar uma norma local.
Profissionais de relações governamentais vivem todos os dias a influência de políticas internacionais ou regionais no debate do Congresso, como na intensa troca observada entre legislações europeias sobre redes sociais e proteção de dados e a produção legislativa brasileira resultante sobre o assunto.
Seja qual for a agenda, é inegável que, conforme o debate internacional e a opinião pública vão aprofundando um tema, de alguma forma isso tende a cascatear para a política local. Podemos dividir em dois tipos de efeitos:
1. Direto: quando alguma política internacional, regional ou bilateral tem efeitos práticos sobre a política doméstica. Por exemplo: acordos comerciais, aplicação de tarifas; ou
2. Indireto: quando esta política internacional, regional ou bilateral não tem um efeito prático claro, mas vai impactar a médio e longo prazo domesticamente. Por exemplo: acordos sobre clima, direitos humanos e migração, entre outros.
Para fins da atuação das relações governamentais, o segundo efeito é o mais interessante.
Para isso, contribui dialogar com os pilares da literatura da “abordagem situada” (ENGBERG-PEDERSEN; FEJERSKOV, 2020, p. 257), que traz debate interessante sobre a relação local X agendas internacionais, argumentando que:
i) o engajamento normativo é eminentemente político;
ii) as normas prescritivas frequentemente tratam de valores profundamente arraigados, refletidos em normas e práticas tidas como certas, o que inibe a influência das normas globais e enfatiza a necessidade de reconhecer a lacuna entre a formulação de políticas e a implementação de políticas e práticas diárias;
iii) atores procuram dar sentido às normas globais à luz de seus contextos, histórias e situações contemporâneas particulares.
Levando esses pilares em consideração, a importância do profissional de relações governamentais fica ainda mais evidenciada. Ele pode ser a “ponte” entre esses dois mundos, ou como a literatura indica: um “norm translator” ou “norm entrepreneur”. É este profissional que pode, por meio de um processo de agenda setting, colocar um tema nas prioridades do político, bem como traduzir uma norma ou debate internacional em alguma iniciativa que faça sentido para o contexto local, à luz dos valores e necessidades locais. Sendo assim, é um ator crucial nesse processo complexo.
Oportunidades e importância do profissional de relações governamentais – Sem pretensão de esgotar o debate, pode-se argumentar, com razão, que um grande fator inibidor do envolvimento legislativo em matéria internacional teria natureza institucional, ou seja, seria a forma como nossa república (mais precisamente nossa Constituição) arquitetou as esferas de participação interna X externa.
Um grande elemento apontado pela doutrina seria o de que a CF/88 previu desequilíbrio entre os poderes ao reservar ao Poder Executivo o papel de negociar e celebrar acordos internacionais e ao Legislativo aprovar posteriormente o texto (Art. 84, VIII) (LIMA, 2000). Ainda que seja, de fato, uma aparente discrepância de poder de agência, lembramos que nada impede legalmente ao Congresso legislar sobre política internacional, como já realizou muitas vezes (a exemplo da Lei 15.122/25, a “Lei da Reciprocidade”). Para além disso, a divisão constitucional não exaure e nem impede ações de influência política direta e indireta do Legislativo em contexto internacional, a exemplo da missão oficial do Senado nas negociações pelo tarifaço.
Ademais, destacamos outros instrumentos – constitucionais ou previstos em regimento interno – úteis a esta atuação: i) pedidos de informação ao Executivo a respeito de ato praticado em política externa; ii) o instrumento da indicação parlamentar, que autoriza o deputado a sugerir a outro Poder a “adoção de providência, a realização de ato administrativo ou de gestão, ou o envio de projeto sobre a matéria de sua iniciativa exclusiva” (Art. 113 do Regimento Interno da CD); iii) a realização de audiências públicas, a exemplo da série que tratou da adesão da Venezuela ao Mercosul.
Nesse sentido, o profissional de RIG pode ser um catalisador do processo de transferência, tradução ou vernacularização das normas internacionais. Autores também ressaltam o papel importante dos atores políticos como “embaixadores de políticas públicas” ou intermediários na promoção de políticas dentro de organizações internacionais e países. Em certa medida, são eles os responsáveis pela tradução, uma vez que devem adaptar a norma ou política para que sua equipe, ou autoridades governamentais, a aceitem ou a acolham (Porto de Oliveira; PAL, 2018, p. 209).
Por fim, ressaltamos também a possibilidade de articulação direta com organizações ou instituições internacionais de congregação de parlamentares. Alguns exemplos: i) Climate Parliament (rede que congrega mais de 2,5 mil legisladores de 121 países por pautas de clima); e o ii) Conservative Environment Network (rede de parlamentares do partido conservador de UK por pautas de clima, com atuação global).
Temas de política externa não são amplamente discutidos pela sociedade como um todo. Lima (2003, p.51) afirma que “essa cultura política poderá se modificar na medida em que a própria política externa passe a ser um assunto também da sociedade e não mais apenas do Estado”. O envolvimento de profissionais de RIG é o primeiro passo para essa mudança.
Bibliografia
Boarin, P. (2018) “Lobby e Política Externa No Legislativo Brasileiro: A Comissão De Relações Exteriores e Defesa Nacional Da Câmara Dos Deputados,” CSOnline – Revista Eletrônica de Ciências Sociais. Universidade Federal de Juiz de Fora. doi: 10.34019/1981-2140.2018.17455.
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Norcia, Raffaela. (2021). “Tradução de Normas e Políticas Internacionais: a localização da Agenda 2030 por meio de uma abordagem situada.” Dissertação de Mestrado pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Governança Global e Formulação de Políticas Internacionais, na linha de pesquisa “Sociedade Civil e Políticas Públicas em Âmbito Internacional” da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Silva dos Santos, Vinicius. Por que não eu? Em busca de uma análise de política externa legislativa no Brasil | Why not me? Towards a legislative foreign policy analysis in Brazil. Mural Internacional, Rio de Janeiro, v. 16, p. e92705, 2025. DOI: 10.12957/rmi.2025.92705. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/muralinternacional/article/view/92705. Acesso em: 5 fev. 2026.
Zwingel, Susanne. (2012), “How do norms travel? Theorizing international women’s rights in transnational perspective”; International Studies Quarterly, v. 56, n. 1:115-129.
Thais Fonseca Cruz é analista e Victor Leal é gerente de Public Affairs, ambos da Powell Tate
Este artigo analisa como o profissional de relações governamentais navega pelo complexo cenário da política energética brasileira, marcado pela tensão global entre a crescente demanda por energia e a aceleração da transição para fontes renováveis. O Brasil personifica esse dilema: embora seja um dos grandes produtores de petróleo do mundo, possui simultaneamente uma matriz energética majoritariamente renovável. O objetivo é examinar, sob essa ótica, os desafios e os impactos das decisões políticas em contextos regionais e internacionais.
Cenário sul-americano – No início deste ano, a exploração de petróleo voltou a ser tema de debate no cenário internacional, depois da operação militar dos Estados Unidos na Venezuela que resultou na captura de Nicolás Maduro. O debate foi intensificado pela crise política, em um país que possui as maiores reservas de petróleo do mundo, estimadas em 303 bilhões de barris. Nesse contexto, o presidente Donald Trump planeja incentivar o investimento de empresas norte-americanas na exploração dessas reservas, mas o cenário permanece incerto.
A descoberta de petróleo no país aconteceu nas décadas de 1920 e 1930, tornando-se um dos maiores produtores mundiais. Em 1976, nacionalizou a indústria com a criação da Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA), transformando a produção em monopólio estatal. Isso gerou sanções internacionais, agravando a crise econômica e, junto à queda das receitas do petróleo, impulsionou a inflação no país. No final de janeiro, menos de um mês depois da captura de Maduro, a Assembleia Nacional da Venezuela aprovou a reformulação da lei do setor de energia, permitindo a abertura do setor petrolífero à participação privada.
Além deste contexto petrolífero, a Venezuela reivindica o território de Essequibo, que corresponde a 70% da Guiana e abriga vastas reservas de petróleo e minerais. Sob controle guianense desde o fim do século XIX, as fronteiras atuais foram definidas em 1899, durante o domínio britânico. Em 1966, a Venezuela e o Reino Unido firmaram o Acordo de Genebra, que reconheceu a reivindicação venezuelana e assumiu o compromisso de buscar soluções para resolver a disputa. No final de 2023, a Venezuela realizou um plebiscito para anexar o território, mas a ONU determinou que era ilegal. A tensão aumentou com a exploração de petróleo na Guiana, que quadruplicou sua economia em cinco anos.
Como o Brasil tem se posicionado no cenário internacional? – Sobre essa questão, o Brasil assumiu uma posição diplomática de tentativa de mediação do conflito da Venezuela. Ao mesmo tempo, a política brasileira reflete essa tensão global e regional, materializada no debate sobre a exploração de petróleo na Margem Equatorial, na Foz do Amazonas. O Governo Federal tem sinalizado que a exploração de novas reservas é um objetivo estratégico. O argumento central é que as receitas geradas pelo petróleo são necessárias para financiar a transição energética e políticas sociais, além de garantir a autossuficiência e a segurança energética do país no médio prazo.
Dessa maneira, em outubro de 2025, a Petrobras iniciou a perfuração de um poço, com autorização do IBAMA. No entanto, a operação sofreu um revés significativo em janeiro de 2026, quando ocorreu um vazamento de fluido de perfuração, levando à suspensão imediata das atividades no local. Embora o material vazado não fosse petróleo, mas um composto biodegradável de baixa toxicidade, o incidente intensificou o debate sobre a segurança das operações na região. A exploração de reservas não convencionais de petróleo e gás é questionada por ambientalistas, que alertam sobre os riscos de contaminação de aquíferos e os impactos negativos na agricultura e nos recursos hídricos. A abertura de novas frentes de exploração é vista como incompatível com as metas climáticas assumidas pelo país.
Em várias ocasiões, o presidente Lula enfatizou a importância de um modelo de transição energética baseado na cooperação internacional e em benefícios mútuos. Alinhado com estes compromissos, o Brasil sediou a COP30 em Belém com expectativas de destravar o mapa do caminho para a transição energética. Entretanto, o resultado da conferência divergiu das metas mais ambiciosas, uma vez que a proposta de eliminação gradual dos combustíveis fósseis foi removida do acordo final. Um fator de influência registrado foi a maior participação de lobistas da indústria de combustíveis fósseis. Ambientalistas questionaram sua influência nas negociações, enquanto o setor argumentou que sua presença é um compromisso com a pauta de redução de impactos ambientais.
Ainda assim, o comprometimento brasileiro na questão ambiental tem avançado em política de energia renovável. A promulgação da Lei dos Combustíveis do Futuro (Lei nº 14.993, de 8 de outubro de 2024) instituiu um novo marco regulatório com investimentos estratégicos na expansão da energia eólica e na substituição gradual de termoelétricas por fontes mais limpas.
A situação política e energética do Brasil, marcada por tensões internas e externas, ilustra a complexidade deste contexto internacional. O desafio estratégico consiste em conciliar a necessidade de desenvolvimento econômico com a urgência da transição energética e os compromissos climáticos.
Análise de impacto para as relações governamentais – De maneira geral, a instabilidade decorrente de conflitos geopolíticos impacta o mercado e os preços do petróleo, refletindo no contexto nacional. A coexistência de objetivos conflitantes na política energética brasileira apresenta desafios e oportunidades para a atuação em relações governamentais. Em diversos contextos de conflitos internacionais mais recentes, o Brasil tem se posicionado em defesa da soberania nacional e do multilateralismo. No caso do tarifaço imposto pelos Estados Unidos, o posicionamento do governo foi uma tentativa de negociação baseada no discurso nacional e na diversificação da economia e das exportações.
Neste sentido, os questionamentos sobre os rumos da política energética permanecem como uma questão a ser acompanhada. A decisão de expandir a exploração de combustíveis fósseis apresenta um paradigma complexo para os setores de energia e ESG. É fundamental analisar se as receitas geradas por essa expansão serão, de fato, alocadas para acelerar a transição para uma matriz renovável ou se essa estratégia representa um retrocesso nos compromissos de sustentabilidade, independentemente da volatilidade dos preços.
Para o profissional de relações governamentais, é interessante manter um olhar político e econômico sobre o cenário internacional mais amplo de poder, mas também sobre esses contextos regionais dentro da América do Sul. A competência reside na capacidade de traduzir a antecipação de tendências políticas e econômicas em estratégias concretas para mitigar riscos e capitalizar oportunidades em cenários de instabilidade. Para as empresas do setor, o cenário exige uma avaliação de risco que contemple a instabilidade política regional, a incerteza regulatória interna e os potenciais impactos reputacionais. A estratégia de engajamento deve ser multifacetada, envolvendo o diálogo com diferentes níveis e esferas do governo.
Beatriz Fortunato e Cecília Passos Diniz são estudantes do Centro Universitário de Brasília (CEUB) com interesses em relações internacionais, políticas públicas e cooperação internacional
A ascensão da IA (Inteligência Artificial) no cenário internacional reconstrói o debate sobre poder em bases materiais ignoradas pelo discurso da inovação digital. A capacidade de coletar, armazenar e processar grandes volumes de dados tornou-se um recurso estratégico central para Estados e corporações, tornando-se um fenômeno que está longe de ser estritamente técnico ou imparcial e vem abalando hierarquias no sistema internacional. A IA depende de infraestruturas físicas de alto custo, regimes jurídicos específicos para seu funcionamento e cadeias globais de valor altamente concentradas, o que faz com que decisões aparentemente técnicas estejam diretamente ligadas a relações assimétricas de autoridade e dependência.
Dados, Inteligência Artificial e poder no sistema internacional – Essa materialidade política dos dados desloca o eixo clássico do poder internacional, historicamente associado à força militar, para uma lógica informacional marcada pela assimetria no acesso a recursos computacionais, capital tecnológico e marcos regulatórios. Países e empresas capazes de transformar dados brutos em sistemas de decisão automatizada acumulam vantagens estratégicas que se traduzem em influência, capacidade de vigilância e poder normativo, enquanto outras nações permanecem relegadas à posição de fornecedoras de dados ou consumidoras passivas de tecnologias desenvolvidas externamente e com regulações fora do seu controle. Nesse contexto, a IA opera como um intensificador de desigualdades, aprofundando dependências históricas entre Norte e Sul Globais e introduzindo novas formas de subordinação.
Soberania de dados e governança estatal – A centralidade dos dados e da IA no sistema internacional impõe aos Estados o desafio de redefinir os limites de sua autoridade em um ambiente marcado pela circulação transnacional de informações e pela concentração de poder em corporações tecnológicas globais, um novo campo de batalha em que a quantidade das suas armas não importa em comparação com a qualidade e a inovação. Nesse contexto, a soberania de dados emerge como uma dimensão estratégica da soberania e poder estatal, associada à capacidade de controlar, proteger e orientar o uso de dados produzidos em seu território segundo interesses públicos, direitos fundamentais e prioridades nacionais. A soberania de dados não se limita à localização física da informação, mas envolve um conjunto de capacidades estatais que incluem marcos regulatórios eficazes, instituições de fiscalização independentes, infraestrutura digital própria e poder normativo para estabelecer condições legítimas de compartilhamento internacional. Na ausência desses elementos, a governança dos dados tende a ser capturada por interesses privados ou estrangeiros, reduzindo o Estado a um gestor passivo de fluxos informacionais que escapam ao seu controle.
Circulação transnacional de informações e vulnerabilidades – A ideia da “nuvem” como um espaço imaterial e etérico constitui um mito contemporâneo que mascara uma realidade física e política de extrema complexidade. Na prática, a infraestrutura digital é composta por ativos físicos e lógicos, tais como cabos submarinos, centros de processamento de dados (data centers) e servidores, que possuem endereços geográficos específicos e estão submetidos a jurisdições legais determinadas. Apesar dessa aparência de fluidez, os dados possuem uma materialidade intrínseca; o armazenamento de informações de cidadãos brasileiros em servidores localizados, por exemplo, no norte da Virgínia, submete tais dados ao poder de império de legislações estrangeiras. Um exemplo crítico dessa vulnerabilidade é o Cloud Act (2018) dos Estados Unidos, que autoriza autoridades americanas a acessar dados armazenados por empresas sediadas no país, independentemente da localização física do servidor. Essa prática gera profundos conflitos de jurisdição, como evidenciado no caso Schrems II do Tribunal de Justiça da União Europeia, que invalidou transferências de dados para os EUA por considerar que os programas de vigilância americanos não oferecem garantias de proporcionalidade e direitos fundamentais equivalentes aos europeus.
Esta dinâmica de poder e extração fundamenta o conceito de Colonialismo de Dados, teorizado por Nick Couldry e Ulises Mejias. Longe de ser apenas uma metáfora, trata-se de uma nova fase do capitalismo que se apropria da vida humana por meio da extração e processamento de informações, replicando o modelo extrativista histórico. Nesse sistema, o Sul Global atua como provedor de “matéria-prima” (dados brutos), que é processada e valorizada nos centros de poder do Norte Global, retornando ao Sul na forma de serviços de Inteligência Artificial e plataformas proprietárias. Tal relação, conforme apontam os autores, aprofunda a dependência tecnológica e transforma nações em “sujeitos digitais” em vez de entes soberanos.
Dilemas éticos e responsabilidade internacional – A discussão sobre a soberania digital evolui do trânsito físico dos dados para a análise crítica de sua finalidade e aplicação, onde o uso de sistemas de IA impõe desafios severos à transparência democrática e aos direitos humanos. Um dos maiores obstáculos éticos é a opacidade algorítmica, frequentemente referida como o problema da “caixa preta” (black box). A complexidade desses sistemas é tamanha que, muitas vezes, nem mesmo os engenheiros das corporações conseguem explicar detalhadamente o funcionamento dos algoritmos em tempo real. Quando o Estado utiliza tais sistemas para nortear políticas públicas em áreas como segurança, saúde ou educação, ocorre um silenciamento social: se os critérios de uma decisão pública são opacos e não admitem o contraditório, a natureza dessa decisão torna-se autoritária. A ausência de transparência sobre os métodos de produção do conhecimento social gera uma ilegitimidade democrática, diluindo a responsabilidade entre desenvolvedores estrangeiros, empresas compradoras e o Estado que permite o uso sem a devida regulação.
A Inteligência Artificial não se manifesta como uma ferramenta neutra, mas como um mecanismo que reproduz e amplifica assimetrias e preconceitos contidos nos dados de treinamento. Como alerta Cathy O’Neil em “Algoritmos de Destruição em Massa”, esses sistemas, quando aplicados em larga escala sem supervisão, funcionam como “armas de destruição matemática” que aumentam a desigualdade e penalizam os mais pobres. Algoritmos de predição comportamental e sistemas de identificação biométrica, por exemplo, tendem a discriminar minorias étnicas, violando liberdades fundamentais se não forem estritamente limitados por avaliações de impacto independentes.
Diante dessas reflexões, defendemos o fortalecimento da governança da IA como medida indispensável no contexto analisado. Nesse cenário, o Brasil deveria priorizar um marco regulatório nacional robusto e uma supervisão estatal efetiva em vez de depender exclusivamente de um único padrão global. Isso implicaria em legislações claras sobre transparência algorítmica, avaliações de impacto independentes produzidas nacionalmente, regras de responsabilidade e mecanismos de auditoria para sistemas usados em políticas públicas e serviços essenciais. Ao mesmo tempo, recomendase articular essa agenda em níveis regionais e plurilaterais — por meio de BRICS, Cepal, Mercosul e outras instâncias de cooperação — para promover o intercâmbio de boas práticas entre países do Sul Global.
Gabriel Franco é analista de política internacional
O ano de 2026 foi aberto com significativas atualizações no cenário internacional. Após 25 anos de negociações, uma maioria no Conselho da União Europeia foi alcançada para a assinatura do Acordo de Parceria com o Mercosul, que agora aguarda ratificação. Embora esta ainda esteja longe de ser concluída, a cerimônia de assinatura realizada em 17 de janeiro marca um desenvolvimento significativo nas negociações e repercute tanto dentro quanto fora das fronteiras da UE. Porém, o que mudou após um quarto de século de conversas para que esse marco finalmente se realizasse?
É imperioso salientar as alterações no contexto europeu desde o início das conversas em 1999. Nas últimas décadas, a UE se deparou com uma queda na sua capacidade econômica. Se antes a Europa representava quase 25% da economia global, atualmente se aproxima de 15%. Essa redução econômica acompanha uma queda de influência global e uma redução de seu lugar na mesa das grandes potências, que cada vez mais parecem optar por deixar o multilateralismo de lado, buscando criar polos de poder próprios.
Além disso, eventos nos anos recentes jogaram luz sobre diversas vulnerabilidades críticas do continente. Dentre eles, três se sobressaem:
1 – A invasão da Ucrânia, que forçou o continente a enfrentar e corrigir sua dependência da energia russa;
2 – A adoção de mudanças heterodoxas na política tarifária e comercial dos Estados Unidos, explorando a dependência europeia do mercado americano como instrumento de pressão econômica visando seus objetivos geopolíticos, inclusive, no caso da Groenlândia, de caráter territorial;
3 – A dominação significativa da China no fornecimento de recursos minerais críticos para a Europa, criando receios a respeito da segurança e estabilidade europeia caso a China decida instrumentalizar seu domínio no setor.
Agora, considerando esses pontos, a crescente disposição europeia para o acordo com o Mercosul se torna mais clara. A Europa permitiu-se estabelecer uma infraestrutura comercial e econômica dependente da boa vontade de alguns poucos atores, para cooperar e agir em coletivo, seguindo o mesmo conjunto de regras, em detrimento da sua própria independência econômica. Quando esses atores deixam de observar as regras do jogo, essa interdependência se torna uma vulnerabilidade a ser explorada e a Europa se depara com desafios estratégicos. Esses conceitos são cada vez mais estudados por especialistas europeus, como no caso russo, onde a Europa optou por diminuir sua dependência de mais de 45% do gás e 27% do petróleo russo, antes do início do conflito na Ucrânia em 2022, para 19% e 3%, respectivamente, em 2025. Sob essa ótica, podemos entender a nova disposição europeia em relação ao acordo como apenas uma parte de um projeto maior, buscando autonomia por meio da diversificação.
Exportadores europeus dependem do mercado consumidor americano como principal destino de seus produtos, o que coloca a Europa em uma posição desfavorável no contexto de conflito tarifário. A abertura de novos mercados na América Latina pode aliviar os efeitos das tarifas americanas, estabelecendo parceiros econômicos confiáveis, assegurando sólidas estruturas de exportação em setores como automóveis, maquinários, produtos químicos e farmacêuticos. Ao mesmo tempo, as grandes reservas minerais latinas diminuem a dependência da China, que atualmente representa 90% das importações de terras raras para a Europa, limitando assim potenciais riscos e a capacidade chinesa de ferir interesses europeus ou capitalizar sua influência no setor em qualquer hipotético conflito futuro.
A aproximação com a América Latina apresenta uma oportunidade singular para mitigar essas fragilidades e dependências, permitindo e facilitando a diversificação das relações comerciais e a maior introdução de uma região historicamente marcada pela influência norte-americana e, mais recentemente, pelo crescente interesse chinês, ao espaço de influência europeu. Portanto, não se trata apenas de comércio, é uma questão de manutenção de influência e autonomia estratégica em uma era de incertezas.
Ainda olhando para além de “meros” ganhos comerciais imediatos, é importantíssimo considerar o valor e peso simbólico e ideológico da concretização do acordo. Como foi mencionado anteriormente neste texto, cresce a percepção, principalmente no hemisfério norte, de aparentes rupturas nas estruturas de instrumentalização da paz e das relações internacionais criadas após a Segunda Guerra Mundial, assim como quebras no sistema neoliberal e multipolar dominante pós-Guerra Fria. Há receios de que esses mecanismos e instituições, como as organizações multilaterais, os fóruns de resolução de controvérsias baseados no diálogo, a observância de regras comuns para a cooperação entre Estados, assim como a partilha de valores fundamentais, tenham chegado ao limite de sua utilidade e sejam agora descartadas em prol de uma volta à “diplomacia da selva”, baseada na assimetria de poder e intimidação.
Enquanto os EUA, por meio de realinhamentos em suas políticas externa e comercial, levantam preocupações entre a comunidade internacional quanto à possibilidade de terem se tornado um aliado instável e de confiabilidade questionável, representantes de ambas as partes do acordo UE-Mercosul foram ágeis em apontar para a assinatura do acordo como uma vitória do diálogo e multilateralismo. Simbolicamente, a concretização do acordo, baseado nas “regras do jogo” e cooperação, representaria um retorno à ordem internacional liberal, e a prova de que a mesma é capaz de produzir resultados positivos para todos. Em uma era de tarifas, protecionismo, insegurança e quebra de linhas de diálogo, o acordo pode ser apresentado como uma forte vitória ideológica.
Por fim, é necessário manter uma análise racional e reconhecer que os pontos aqui trabalhados não representam a totalidade do que informam as negociações, nem uma resolução final para os desafios enfrentados pela Europa. Há, afinal, um limite para a capacidade do Mercosul de absorver o potencial industrial europeu, e a Europa segue buscando diversificar suas parcerias por meio de acordos comerciais semelhantes, como com a Índia. Semelhantemente, o domínio da China no fornecimento mineral foi a culminação de anos de investimento estratégico pelo governo chinês, e não é provável que desapareça do dia para a noite, enquanto o setor no Mercosul ainda enfrenta questões de subinvestimento, gargalos na infraestrutura e o mais crítico: falta de capacidade de processamento. O acordo representa apenas uma peça no tabuleiro do cenário internacional.
Compreender esses pontos oferece uma contextualização importantíssima para o entendimento das dinâmicas internacionais, sempre em mudança. Resta apenas aguardar novos desenvolvimentos no lado europeu. Com um parlamento dividido, levando o acordo para análise do Tribunal Europeu de Justiça, a ratificação ainda pode levar anos.
Lucas Maia é doutorando em sociologia política no IUPERJ
No ano de 2010, Tulia Falleti lançou um artigo revolucionário sobre o processo de descentralização do sistema de saúde no Brasil. A autora explica que até o final da década de 1980, o sistema de saúde brasileiro era administrado de forma centralizada pelo Governo Federal e os estados-membros e municípios tinham um papel mínimo na gestão e na prestação de serviços.
Até o início da década de 1990, os serviços de saúde eram organizados em três subsistemas: 1 – O setor privado cobria de 20% a 30% da população por meio de grupos de médicos, cooperativas, planos de autogestão ou seguro de saúde privados; 2 – O setor público era mal financiado e majoritariamente focado em campanhas de vacinação e controles de endemias; 3 – O setor previdenciário fornecia assistência médica para trabalhadores da indústria e cobria cerca de 9% da população. Duas décadas depois, em 2010, um novo sistema de saúde com cobertura universal, acesso gratuito e atendimento público estava integrado com uma prestação de serviços descentralizada onde os estados e municípios passaram a ter autonomia. O que ocorreu?
A maioria dos estudiosos que analisam o processo de universalização da saúde no Brasil explica que o movimento se deu devido à redemocratização e a promulgação de uma nova Constituição, em 1988. Em outras palavras, atribuem o resultado final a uma conjuntura crítica e a um momento de ruptura institucional legal. No entanto, Falleti (2010) traz uma nova e surpreendente visão. Para a autora, a mudança institucional ocorre não por fora, mas por dentro do sistema de saúde em plena ditadura militar, quando os agentes de saúde, sobretudo aqueles pertencentes ao movimento sanitarista, teriam, ao longo de vinte anos, se aproveitado de lacunas proporcionadas pelos militares durante o regime para a construção de uma saúde universal e descentralizada. A nova teoria de descentralização endógena teve impacto imediato na literatura contemporânea sobre o tema e ajudou os pesquisadores a compreenderem com mais detalhes o complexo comportamento das instituições.
Embora a perspectiva de Falleti seja central, o fenômeno se apresenta de forma multidimensional. Outros estudos trazem contribuições distintas que nos auxiliam na compreensão de processos de mudança de políticas sociais. É possível compreender os fenômenos de mudança institucional a partir dos incentivos proporcionados aos administradores públicos estaduais e municipais que encontram na mudança uma vantagem política e/ou financeira (Arretche, 1999). Outras hipóteses seriam o impulso de agentes do Legislativo e do Executivo em realizar uma reparação histórica após o processo de redemocratização fazendo a população perceber uma divisão política de modelo de atuação na administração pública (Fagnani, 1997) ou até mesmo no marco legal da Constituição de 1988 (Elias e Cohn, 2003), como vimos mais acima.
Independentemente da linha interpretativa adotada, o debate provoca uma reflexão sobre a essência das relações governamentais no Brasil. A visão tradicional tende a concentrar o advocacy exclusivamente nos grandes projetos e na interlocução com o alto escalão do Legislativo e do Executivo nacional. No entanto, frequentemente acabamos por negligenciar os operadores técnicos das instituições, as pequenas mudanças regulatórias que ocorrem ao longo do processo e a relevância estratégica dos administradores locais.
Mesmo após a aprovação de marcos legais, são os profissionais que entendem a alma das políticas públicas e dominam a expertise técnica que irão definir a real efetividade daquela mudança. No caso apresentado por Falleti (2010), o conhecimento técnico dos sanitaristas garantiu a eles a influência necessária para gerir a reforma que gostariam que fosse implementada – afinal, eram eles que operavam na ponta.
Outro pilar fundamental do trabalho apresentado por Falleti (2010) que pode nos ajudar a ilustrar ainda mais a complexidade da atuação do RelGov contemporâneo é que, por muitas vezes, as mudanças institucionais não ocorrem a partir de um “grande projeto de lei”. A autora explica que no caso da universalização da saúde no Brasil a mudança ocorreu a partir de um processo de layering, onde novas camadas de regras foram sendo sobrepostas a outras regras já existentes, a longo prazo, de forma lenta e gradual, por meio de pequenos decretos, normas, portarias e resoluções, reconfigurando o sistema de saúde.
Por fim, Arretche (1999) nos mostra que nenhuma política pública nacional sobrevive sem que se apresentem incentivos aos estados e municípios ou que se ofereça ganhos tangíveis aos entes subnacionais. Uma conquista em Brasília só se concretiza, de fato, se o desenho institucional for capaz de mobilizar e incentivar governadores e prefeitos. Para os profissionais de RelGov, esse é um ponto crítico. Devemos estar atentos e mapear não apenas Brasília, mas os implementadores na ponta.
Em suma, o processo de descentralização e universalização da saúde no Brasil nos ensina que as grandes transformações institucionais extrapolam a aprovação de um grande marco legal. Embora a sanção de um projeto de lei seja fundamental para garantir segurança jurídica, a reforma real de uma instituição é um fenômeno complexo e multifacetado.
Leonardo Milano, especialista em analytics e public affairs e Eduardo Bresciani, diretor de Public Affairs na Ágora
Enquanto o debate sobre tarifas ganha frequentemente as manchetes após a posse de Donald Trump, outro tema fundamental para o funcionamento das empresas passou a ser um fator decisivo para a definição do rumo da política externa dos países. A questão da propriedade intelectual está no centro da arena internacional e tem influenciado posicionamentos públicos das nações no debate global.
A famosa Rua 25 de Março, em São Paulo, virou um ponto da investigação aberta nos Estados Unidos sobre o Brasil. O maior centro do comércio popular da América Latina foi apontado pelos norte-americanos como um dos maiores mercados de produtos falsificados do mundo. E o Brasil foi acusado de não combater a pirataria.
O debate sobre patentes da indústria farmacêutica é outro tema relevante para as relações bilaterais. A PhRMA (Pharmaceutical Research and Manufacturers of America), principal associação comercial que representa empresas de pesquisa biofarmacêutica e de biotecnologia nos EUA, pediu à Casa Branca que pressione o Brasil para compensar seus laboratórios por atrasos nas patentes farmacêuticas pelo INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial).
O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu em 2021 que o prazo de 20 anos para a proteção intelectual de patentes corre desde o registro e não há prorrogação levando em conta o tempo de análise do INPI para a concessão do registro. A principal reclamação é que isso foi aplicado sem nenhuma transição e desde então alguns medicamentos perderam a produção intelectual e podem ser fabricados e vendidos por qualquer laboratório.
E mesmo quando há proteção, a insegurança permanece. Recentemente a Câmara dos Deputados deu urgência a um projeto que quebra patentes das canetas emagrecedoras. Mesmo na indústria nacional houve manifestações contrárias pela insegurança jurídica gerada pela possível ação do Congresso.
O acordo entre Mercosul e União Europeia também trata da propriedade intelectual, tendo sido este um dos temas que foi negociado até o final. O documento prevê o registro mútuo. Ou seja, quem registrar a patente em um dos países terá a garantia dela ser observada por todos os signatários. A expectativa é que isso possa aumentar o registro de propriedade intelectual no Brasil.
Outro tema de proteção de propriedade intelectual que merece destaque no acordo é o de Indicações Geográficas (IGs). Isso vedará que produtos nacionais usem expressões de regiões europeias. A proteção valerá também para produções brasileiras.
Repercussão nas redes
O principal pico de menções à possibilidade de quebra de patentes no Brasil foi registrado em 10 de julho de 2025 (6,7 mil menções), data em que o Estadão publicou uma matéria afirmando que o Governo Federal estaria considerando a possibilidade de quebra de patentes — destacadamente de medicamentos — como alternativa de retaliação pelo tarifaço americano sobre produtos brasileiros. No dia da publicação da matéria, perfis governistas de grande alcance nas redes sociais comentaram em tom de celebração nacionalista a possibilidade de quebra de patentes no país.
Fontes: Notícias, Blogs, Instagram, Facebook, X, Bluesky, LinkedIn, YouTube e Reddit
Cinco dias depois, em 15 de julho (4,8 mil menções), mesma data em que a Representação Comercial dos Estados Unidos (USTR) anunciou a abertura de uma investigação formal contra o Brasil por supostas práticas comerciais consideradas injustas, discriminatórias ou restritivas — entra elas, a alegada demora na concessão de patentes de medicamentos —, a deputada Erika Hilton (PSOL/SP) registrou 61 mil curtidas e 5 mil compartilhamentos no X ao argumentar que o Brasil poderia quebrar a patente de medicamentos de fabricantes norte-americanas, gerando, em suas palavras, “perdas em fundos de investimento, desemprego e até mesmo abalos no sistema previdenciário nos Estados Unidos”.
Nos dias subsequentes, páginas de esquerda, com destaque para o portal Mídia Ninja, que registra 4,9 milhões de seguidores no Instagram, e a deputada federal Duda Salabert (PDT/MG), com 674 mil seguidores no Instagram, fizeram diversas publicações defendendo a quebra de patentes de medicamentos. No entanto, com as declarações de diversos representantes do Governo Federal, como o próprio ministro da Saúde, Alexandre Padilha, desmentindo essa possibilidade, a repercussão do tema arrefeceu.


Em 2026, apesar do aumento no volume de menções a patentes, os principais picos de interesse pelo tema em ambientes digitais não estiveram associados com o debate envolvendo a possibilidade de quebra de patentes no país. Em 19 de fevereiro foram registradas 4,8 mil menções ao termo “patentes” após declarações da pesquisadora Tatiana Sampaio de que cortes na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) prejudicaram o registro da patente internacional da polilaminina, e em 13 de janeiro foram registradas 4 mil menções ao tema, em razão da oficialização do açaí como fruto nacional.
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