Esta última edição da Diálogos em 2025 tem como tema principal uma questão que afeta todos os que vivem nesse planeta: as mudanças climáticas, que a cada dia se fazem mais presentes. Em novembro, a COP30 atraiu a atenção do mundo para Belém, na Região Amazônica, onde países, empresas e sociedade civil se encontraram para debater alternativas para o meio ambiente.
O evento reforçou a necessidade de cooperação entre empresas, governos e sociedade para acelerar a economia de baixo carbono e práticas sustentáveis, posicionando o Brasil como um ator estratégico nas discussões globais sobre clima e justiça socioambiental, apesar do cenário geopolítico complexo.
Profissionais de relações governamentais desempenharam um papel essencial ao articularem interesses do setor privado e da sociedade civil, qualificando o debate e contribuindo para a construção de políticas públicas e marcos regulatórios. A expectativa é que a COP30 acelere a adoção de práticas regenerativas e de baixo carbono, fortalecendo compromissos internacionais e a transição energética, com empresas cada vez mais atentas aos impactos climáticos em suas operações.
Os articulistas também abordaram o tema, com uma análise da repercussão do evento nas mídias digitais. Também debateram as novas formas de influência política, com centenas de atores com capacidade de influenciar decisões. Por fim, analisaram as expectativas do setor de relgov para o cenário eleitoral do próximo ano.
Desejamos a você, leitor, um Feliz Natal e um próspero 2026, com muitas realizações!
O Manifesto pela Legitimidade do Lobby do IRELGOV defende o diálogo, a pluralidade de vozes e a construção de políticas públicas mais justas e equilibradas — com participação de empresas, organizações, imprensa e cidadãos.
Chegou a hora de ressignificar o lobby no Brasil.
Chegou a hora de fortalecer a democracia.
O Instituto de Relações Governamentais (IRELGOV) divulgou os resultados do Censo de Relações Governamentais 2025, composto por dois levantamentos complementares — um voltado a profissionais (Pessoa Física) e outro a organizações (Pessoa Jurídica) que atuam no setor. As pesquisas mapeiam o perfil, a trajetória e os desafios de quem atua com relações governamentais e institucionais no país, oferecendo um retrato inédito sobre a profissão e seu papel crescente no fortalecimento da democracia e da transparência pública.
O IRELGOV desenvolveu cartilhas essenciais para a profissionalização e a correta compreensão do nosso setor. Os materiais são voltados para desmistificar a atividade de Relações Governamentais e fortalecer a transparência.
Em novembro, o IRELGOV lançou o paper “Relações governamentais e antirracismo: há estratégias ou apenas discurso?”, que examina o grau de incorporação efetiva da agenda antirracista nas práticas de Relações Governamentais (RelGov) no Brasil. A pesquisa foi assinada pela senior fellow Dayana Morais.
O paper traz uma análise sobre como o setor tem abordado — ou deixado de abordar — a agenda antirracista nas práticas de Relações Governamentais, provocando reflexão e incentivo à construção de estratégias reais e efetivas.
Agradecemos o apoio da Fundação Tide Setubal, da Nexa Políticas Públicas e do Coletivo Pretas e Pretos em Relgov.
O IRELGOV lançou recentemente novas edições do suplemento Cadernos. O primeiro, com o tema “I.A. como protagonista – A explosão da inteligência artificial nas relações governamentais”, foi produzido a partir dos debates conduzidos pelo Grupo de Trabalho de Transformação Digital nas Relações Governamentais, liderado por Hellen Abreu. A publicação traz reflexões sobre o avanço da inteligência artificial e seus impactos nas políticas públicas, destacando desafios relacionados à regulação, uso de algoritmos, segurança, inovação e o papel do Estado diante das transformações tecnológicas.
O segundo foi resultado do ciclo de debates conduzido pelo Grupo de Trabalho de Relações Públicas, Public Affairs e Relações Governamentais, liderado por Gisela Antakly. O material reúne reflexões de especialistas sobre os desafios de comunicar políticas públicas em um ambiente informacional fragmentado e marcado pela disputa de narrativas.
O terceiro, conduzido pelo GT de Profissionalização e Regulamentação do Lobby, com liderança de Lara Gurgel, reforça que a regulamentação não é um fim em si, mas sim um caminho para fortalecer as instituições, proteger bons profissionais e aprimorar a qualidade das interações entre governo e sociedade.
O IRELGOV, em parceria com Jackson Campos, diretor de Relações Institucionais da AGL Cargo e associado ao instituto, lançou um novo e-book.
A publicação reúne práticas e orientações diretas para quem deseja transformar conhecimento em influência legítima e fortalecer sua atuação no LinkedIn.
No dia 14 de novembro, o IRELGOV reuniu associados na COP30, no Pavilhão Pará, em Belém, fortalecendo conexões entre profissionais que atuam com Relações Governamentais e ESG. No mesmo dia, a diretora-executiva Lara Gurgel participou do painel da WIT na Agrizone, ao lado de representantes do MAPA, Embrapa, PepsiCo e lideranças do comércio internacional.
O debate abordou três temas centrais: segurança alimentar e comércio internacional, regulação baseada em ciência e comércio justo e inovação para agricultura sustentável. Lara destacou o papel das Relações Governamentais na construção de ambientes regulatórios previsíveis e no apoio a atores de todos os portes para se adequarem às novas demandas de rastreabilidade e sustentabilidade. O painel reforçou a importância de parcerias, ciência e diversidade — especialmente a participação feminina — para impulsionar soluções globais em segurança alimentar e agricultura sustentável.
O IRELGOV parabeniza o veículo Folha de S. Paulo pelo editorial publicado na quarta-feira (12/11), que esclarece de forma clara e didática a importância do lobby para a democracia. O Instituto vem reforçando em seus canais – na campanha “Lobby não é crime” e por meio de iniciativas como cartilhas educativas – o verdadeiro significado do lobby.
Apresentar documentos, análises ou propostas a parlamentares e autoridades é um ato legítimo de representação de interesses, acessível a qualquer cidadão, organização ou setor da sociedade.
O lobby transparente e responsável contribui para decisões públicas mais informadas, equilibrando visões distintas e garantindo que a democracia seja construída a muitas vozes.
O Diretório de Associados Pessoa Jurídica do IRELGOV reúne todas as organizações vinculadas ao instituto, incluindo empresas, consultorias e instituições que atuam direta ou indiretamente com Relações Governamentais.
O espaço tem como propósito dar visibilidade às organizações que contribuem para o fortalecimento e a profissionalização da atividade, consolidando uma rede de referência nacional no ecossistema de Relações Governamentais no Brasil.
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A noite fresca e chuvosa, atípica nos meses de dezembro, não atrapalhou a realização de mais uma edição do happy hour do IRELGOV. O diretor-regional da entidade, Gilvan Bueno, recebeu, no dia 17, associados da entidade e convidados de outras empresas na Zona Sul carioca. Na pauta, além do cardápio cheio de quitutes, capitaneado pelo chef Rodrigo Dias, houve também uma conversa estratégica sobre as principais pautas federais que impactam diretamente o Estado do Rio de Janeiro, com o managing partner da Impetus Public Affairs, Rodrigo Santiago.
Santiago abordou potencialidades e fraquezas do Rio, como sua força no mercado de energia, com destaque para produção de petróleo, assim como no segmento de aço. No entanto, ressaltou a crise institucional que o estado vive nos últimos anos, com a prisão de vários governadores, o que limita a negociação, em Brasília, junto do poder federal, de pauta relevantes para o Rio. “A segurança pública é nossa pauta número um. É preciso solucionar esse problema de uma vez por todas, pois todo o resto só acontece se houver condições de favoráveis. Depois, vêm insegurança jurídica e um certo nível de imprevisibilidade. Se equilibrarmos esses pontos, poderemos ter um desenvolvimento sustentável”.
Por Lara Gurgel, diretora-executiva do IRELGOV
Durante a COP30, dezenas de lobistas circularam por Belém representando os interesses de suas organizações — empresas, setores produtivos, entidades da sociedade civil e coalizões diversas. A condição de “capital federal” conferida temporariamente à cidade abriu uma janela única para apresentar iniciativas, demonstrar compromissos ambientais e estabelecer pontes com autoridades brasileiras. Foi, sem dúvida, um espaço fértil para diálogos nacionais.
Mas, para quem opera em ambientes regulatórios cada vez mais complexos e crescentemente interdependentes, limitar-se a esse eixo doméstico é um erro estratégico. As decisões que moldarão o futuro do clima — e, portanto, os mercados, cadeias produtivas e regras de comércio — não se esgotam nos ministérios brasileiros nem nos corredores da Esplanada temporariamente em Belém. Elas nascem, amadurecem e se consolidam em foros multilaterais como a Confederação das Partes (COP) e nas arenas técnicas que definem padrões, métricas e salvaguardas para todas as cadeias de comércio e serviços. São nesses espaços e momentos que as agendas se conectam, se tensionam e, sobretudo, se internacionalizam.
Para os lobistas que desejam atuar com visão de longo prazo, a lição é clara: é preciso olhar para além das fronteiras. Isso significa compreender dinâmicas geopolíticas, participar das negociações multilaterais, acompanhar debates técnicos internacionais e construir coalizões transnacionais capazes de influenciar normas que reverberam em todos os países — inclusive no Brasil. O lobby climático do futuro não será decidido apenas em diálogos nacionais, mas na capacidade de navegar, interpretar e influenciar múltiplas instâncias globais. Quem ficar restrito ao território doméstico perderá o ritmo das transformações que já estão acontecendo em escala global.
A crise atual do multilateralismo, marcada por polarização política, disputas geoeconômicas e fragmentação regulatória, torna ainda mais valiosos os fóruns internacionais que sobrevivem a esse ambiente adverso. Mesmo sem a presença plena de todos os governos ou com participação desigual entre regiões, essas arenas continuam sendo o melhor espaço disponível para construir consensos mínimos, articular interesses diversos e formar coalizões capazes de impulsionar agendas comuns. É nelas que divergências se tornam negociações, e negociações se tornam normas que moldam mercados, exigências ambientais e padrões de competitividade.
No centro desse processo está uma verdade incontornável para quem trabalha com advocacy e relações governamentais: o futuro da regulação climática não será decidido apenas dentro das fronteiras nacionais. Ele será negociado, disputado e alinhado em instâncias globais que impactarão todos os países. Por isso, a responsabilidade — e a oportunidade — dos lobistas é ir além do diálogo doméstico, ocupando os espaços multilaterais com preparo técnico, legitimidade e visão estratégica.
Se a transição climática é global por definição, o lobby também precisa ser. Limitar-se ao território nacional é abrir mão de influenciar as regras que, inevitavelmente, voltarão para moldar o ambiente regulatório brasileiro. Assim, participar dos foros internacionais não é somente um gesto diplomático: é um imperativo estratégico. Quem entender isso primeiro não só acompanhará as mudanças — ajudará a defini-las.
Todos os olhos do mundo estiveram voltados para Belém durante 11 dias de novembro. A COP30 reuniu especialistas em meio ambiente, autoridades, representantes de empresas e governos, personalidades e cidadãos comuns em torno do mesmo objetivo – debater soluções para a questão climática. No meio de todos esses personagens, estiveram figuras essenciais para o debate – os profissionais de relações governamentais, que atuaram para agregar valor aos debates e propor alternativas.

Para Juliana Marra, diretora de Comunicação e Assuntos Corporativos na Unilever e vice-presidente do IRELGOV, a COP30 destacou-se pela forte participação da sociedade civil, avanços regulatórios em energia limpa, incentivos à proteção da biodiversidade, fomento à agricultura regenerativa em larga escala e progressos em economia circular, como a Lei de Incentivo à Reciclagem e o novo decreto federal sobre plástico. O evento reforçou a necessidade de cooperação entre empresas, governos e sociedade para acelerar a economia de baixo carbono, ampliar práticas sustentáveis e construir regras globais mais justas e unificadas. “Espera-se que a conferência impulsione compromissos climáticos mais ambiciosos, investimentos em inovação e políticas públicas alinhadas às melhores práticas internacionais”, afirmou.
Segundo Marcio Sztutman, lembrou que a COP30 ocorreu em um momento delicado das relações geopolíticas globais. “Conflitos têm drenado recursos e atenção, e temos vivenciado uma nova ordem diplomática cujas implicações ainda são incertas. Isso adicionou uma camada de pressão e incerteza sobre as negociações climáticas”. Ao mesmo tempo, representou uma oportunidade histórica de sediar a conferência no coração da Amazônia, que concentra a maior biodiversidade e possui um dos principais estoques e sumidouros de carbono do planeta. “Foi extremamente simbólico e reforçou o papel estratégico do Brasil nas discussões sobre clima, natureza e justiça socioambiental”.

Catarina Corrêa, gerente de Public Affairs na Bayer, alertou que o resultado individual de cada Conferência das Partes pode, à primeira vista, parecer limitado, porque a dinâmica de negociação é altamente complexa, técnica e baseada na construção de consensos entre quase 200 países, com realidades, interesses e formas de desenvolvimento e maturidade da agenda muito distintos. “No entanto, é fundamental compreender que a COP não é um evento isolado, mas um processo contínuo. A repetição desses encontros, a convergência de países, a visibilidade crescente da agenda de ação climática e o diálogo permanente entre governos, setor privado e sociedade civil criam um ambiente propício para avanços graduais, porém consistentes. Esse processo resulta em um resultado cada vez mais pragmático sobre o que pode ser feito para conter as mudanças do clima, tanto no campo da mitigação quanto no da adaptação”.
Ecologia e bioeconomia são candidatas naturais a colher bons resultados de eventos como esse. Segundo Marcio Sztutman, diretor executivo da The Nature Conservancy (TNC) Brasil, a COP é uma vitrine global para políticas para o setor, pois coloca em evidência soluções que conciliam desenvolvimento econômico e conservação. A bioeconomia, ao gerar valor a partir da biodiversidade, cria oportunidades para indústrias de diferentes perfis — desde cosméticos e remédios até alimentos, turismo e biotecnologia — além de abrir espaço para empreendedores locais, comunitários e startups inovadoras. “Essas iniciativas fazem parte das Soluções Baseadas na Natureza (SbN), reconhecidas como alternativas de melhor custo-benefício para enfrentar o desafio climático. Elas não apenas reduzem emissões, mas também oferecem múltiplos cobenefícios: maior disponibilidade hídrica, conservação da biodiversidade, geração de empregos verdes e fortalecimento da resiliência de comunidades locais. Com a visibilidade da COP, a bioeconomia e as SbN podem conquistar maior acesso a financiamento climático, abertura de mercados, investimentos em pesquisa e incentivos fiscais”.

Marcus Peçanha, sócio-fundador da Verd Invest Consultoria Ambiental, ex-CFO da Fundação Florestal e ex-assessor especial do Ministério do Meio Ambiente, acredita que as políticas de bioeconomia vêm sendo beneficiadas desde a COP26, em Glasgow, com a regulamentação do artigo 15. Essa questão do desenvolvimento do mercado de carbono passou a acontecer e houve movimentação para a concessão de florestas por parte de organismos do governo, que trazem o mercado privado para o jogo e geram boas perspectivas para eles. “O fato de o evento ter acontecido no Brasil de alguma forma colocou pressão no governo para que políticas públicas antes só focadas no estado começassem a buscar mais investimentos privados. Isso indubitavelmente é uma questão que tá acontecendo em maior escala e em maior velocidade, justamente pela COP30 ter sido aqui”.
Marra concorda que políticas de bioeconomia e práticas ecológicas ganham força com incentivos econômicos, financiamento climático e marcos regulatórios claros, como discutidos na COP30. “O painel sobre agricultura regenerativa, liderado pela Unilever no pavilhão do Brasil, mostrou que a transição para modelos produtivos sustentáveis depende de suporte técnico, incentivos financeiros e acesso a mercados sustentáveis. A atuação conjunta de empresas, governo e setor financeiro viabiliza a escala dessas práticas, tornando-as competitivas e resilientes, além de promover inovação e conservação ambiental”.
Mas e para a sociedade e para as empresas brasileiras? Quais os impactos? Corrêa destaca que o evento pode gerar efeitos positivos concretos ao aproximar a agenda climática global da realidade local. Além dos legados locais que a conferência gera, ao sediar o encontro, o Brasil ampliou a possibilidade de participação direta de atores nacionais (empresas, governos subnacionais, academia e sociedade civil) nos debates e nas soluções, permitindo uma compreensão mais clara de como políticas, metas e compromissos internacionais podem ser aplicados no contexto brasileiro. “Esse processo ajuda a tangibilizar uma agenda que muitas vezes parece abstrata, traduzindo-a em oportunidades de inovação, investimentos, geração de valor, desenvolvimento territorial e fortalecimento de políticas públicas alinhadas às realidades econômicas, sociais e ambientais do país”.

Segundo Priscilla Negreiros, gerente sênior do CPI (Climate Policy Initiative), o fato de ter acontecido em Belém chamou atenção para o Brasil para a temática do meio ambiente. “Faz pouco tempo nosso país passou por um desastre climático grave no Rio Grande do Sul, então acho que a população ficou mais sensível a essa temática e isso pode ajudar a sociedade brasileira a avançar”, acredita. Ela destaca que acontecimentos como esse levantam a importância da redução de risco. “As empresas têm que estar atentas à questão climática, pois há um impacto direto sobre a produção. Basta ver o que aconteceu no sul. As empresas que tinham seguros climáticos conseguiram retomar a produção mais rapidamente, as que não tinham sofreram bastante”.
Muitos setores já entenderam que a produção sustentável é um caminho sem volta. Sztutman afirma que as empresas sabem que seus negócios estão diretamente expostos aos impactos das mudanças climáticas e que investir em práticas responsáveis é também uma estratégia de resiliência e inovação para seus negócios. Além disso, ações sustentáveis abrem portas em mercados cada vez mais exigentes em relação a critérios ESG. A COP30 foi uma grande oportunidade para o Brasil mostrar que conservação e desenvolvimento econômico são interdependentes e, por isso, se fortalecem mutuamente. “Mecanismos como o Tropical Forest Forever Facility (TFFF) e as concessões para restauração florestal são exemplos de instrumentos que usam a lógica de mercado para atrair capital, canalizando investimentos para iniciativas que geram retorno ambiental, social e econômico. Esses modelos permitem que governos e empresas atuem de forma sustentável em seus modelos pré-competitivos, contribuindo para a recuperação de ecossistemas e o fortalecimento das comunidades locais”, diz o diretor executivo da The Nature Conservancy (TNC) Brasil.
A tarefa de levar para o debate na COP30 interesses e necessidades do setor privado ficou a cargo dos profissionais de relações governamentais e institucionais. E nem poderia ser diferente: a primeira COP, que aconteceu durante a Rio 92, foi marcada pela participação da sociedade civil – empresas, representantes de minorias e ONGs, entre outros. “Está na essência das COPs contar com a participação desses grupos, então é normal que os profissionais de relgov tenham estado presentes nos debates e tentem participar de alguma forma dessas negociações por meio da produção de conhecimento técnico e informações”, acredita a gerente sênior do CPI (Climate Policy Initiative).
“Os profissionais de relações governamentais participaram dos debates da conferência como representantes e defensores de interesses legítimos, tanto do setor privado, quanto do terceiro setor e de associações, trazendo para o centro da discussão perspectivas econômicas, sociais e técnicas diversas, tanto do Brasil quanto de outros países”, comenta a gerente de Public Affairs da Bayer. Segundo ela, sua atuação é fundamental porque a agenda climática não se limita aos compromissos assumidos pelos países nos planos nacionais de clima, como as NDCs, mas se concretiza, na prática, por meio de políticas públicas, marcos regulatórios e instrumentos de implementação. “Ao estarem presentes, esses profissionais contribuíram para qualificar o debate, evidenciando impactos, limites e oportunidades das propostas em discussão, avaliando o que é viável no curto e no longo prazo e ajudando a construir soluções equilibradas e eficazes”.
Para Juliana Marra, os profissionais de RELGOV ocuparam muitos dos corredores da Blue Zone, Green Zone e tantos outros locais de Belém. “Fomos essenciais na articulação de painéis e no engajamento com representantes do setor público, privado e sociedade civil. E a nossa contribuição vai seguir, no que chamo de pós-COP. O debate sobre políticas públicas, incentivos econômicos e construção de marcos regulatórios precisa seguir vivo. Plantamos algumas sementes em novembro. Agora é hora de regar, cuidar e buscar colher os frutos no futuro breve”.

Marcio Sztutman, diretor executivo da TNC Brasil, destaca que os profissionais de relações governamentais tiveram um papel fundamental na COP, pois representam grupos de interesses legítimos. “As COPs são um espaço de escuta e construção coletiva entre as partes (os países), e o papel de quem trabalha com relações governamentais é conectar agendas, alinhar prioridades e assegurar que o mundo siga ampliando sua ambição climática com justiça social e conservação da natureza”, argumenta.
E como combater as mudanças climáticas e reverter a perda de biodiversidade? Para Sztutman, em primeiro lugar precisamos nos afastar de forma acelerada da dependência dos combustíveis fósseis – a chamada transição energética –, voltando-nos cada vez mais para fontes de energia limpa. Adicionalmente, ações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas precisam ser colocadas em prática num ritmo e escala muito superiores às observadas hoje. “As chamadas “Soluções Baseadas na Natureza” possuem uma relação de custo-benefício muito superior a outras e podem contribuir com até 30% das necessidades do planeta, porém ainda recebem uma parcela proporcionalmente pequena dos recursos climáticos disponíveis. Os diferentes setores industriais e de serviços precisam incorporar em seus balanços financeiros as externalidades ambientais de suas operações, a partir do entendimento de que a continuidade de suas operações, a longo prazo, depende diretamente de um ambiente saudável”.
Marra considera que a COP 30 contribuiu para acelerar a adoção de práticas regenerativas e de baixo carbono em escala global e fortalecer compromissos internacionais de redução de emissões e proteção da biodiversidade. “Estimulou a cooperação entre países, empresas e sociedade civil, ampliando o impacto das ações climáticas e ambientais em todo o planeta”. Peçanha, da Verd Invest Consultoria Ambiental, acredita que dez anos é um espaço de tempo muito curto para poder mensurar quais avanços esperar. “Agora é difícil precisar porque o ambiente geopolítico pode favorecer ou desfavorecer esses avanços. Aprendi a não fazer previsões, porque o mundo está muito volátil”.
Leonardo Milando, especialista e Eduardo Bresciani, diretor de Public Affairs na Ágora
Uma das apostas da gestão Lula para a política externa, a COP30, em Belém, não rendeu os dividendos políticos esperados, além de não ser um “turning point” na discussão sobre mudanças climáticas. O engajamento do setor privado, por sua vez, mostra que a iniciativa de trazer o evento para a Amazônia pode ter gerado algo de positivo para o governo, ainda que pontualmente.
Governo Lula tem dificuldade para gerar agenda positiva com COP30, mas repercussão no LinkedIn indica entusiasmo do setor privado com o evento
A realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30) em Belém foi uma esperança do governo Lula para tentar fortalecer sua política externa, focada no multilateralismo. O resultado tímido da conferência e os problemas na organização fazem com que o saldo não tenha sido suficiente para que o presidente brasileiro colha dividendos políticos.
Ao longo de 2025, cerca de 3,2 milhões de publicações em português mencionaram a COP 30 em ambientes digitais. Dessas, 1,4 milhão, ou 43,75%, foram negativas, 996 mil, ou 31,1%, foram neutras e 688 mil, ou 21,5%, foram positivas, como indica o gráfico abaixo.

Com o início oficial da COP30, perfis de oposição reforçaram a narrativa de que o evento — apelidado por esses perfis de “FLOP 30” — seria um fracasso, em razão da ausência de mais chefes de estado e de supostos problemas de infraestrutura, segurança e organização do evento.
Essas narrativas ganharam tração nas redes no dia 12 de novembro (83,9 mil menções negativas), com a invasão da blue zone por manifestantes alegadamente de esquerda, e atingiu seu ápice no último dia 20 (101,5 mil menções negativas), com a deflagração de um incêndio no pavilhão de negociações da COP.


Do lado governista, além do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do portal de notícias Mídia Ninja, poucos parlamentares, ministros ou influenciadores conseguiram engajar a opinião pública digital em torno da agenda do governo na COP30.
O Fundo Florestas Tropicas para Sempre, ou TFFF, na sigla em inglês — principal proposta brasileira para o encontro — foi mencionado em 40,3 mil publicações em português, durante o mês de novembro, volume que indica baixo conhecimento dos internautas a respeito do tema.

Repercussão positiva da COP30 no LinkedIn revela que evento foi bem recebido no universo corporativo
Se, num contexto geral, o governo teve dificuldades para gerar uma agenda positiva com a COP30, no LinkedIn representantes do setor privado e da sociedade civil demonstraram entusiasmo com o evento. Das cerca de 10,7 mil publicações em português, ao longo de 2025, na rede social, mencionando a COP30, 4,8 mil, ou 45,5%, foram positivas, 5,6 mil, ou 53,1% foram neutras e apenas 145, ou 1,4%, foram negativas.

Apesar dos desafios enfrentados pela organização do evento, as publicações em português com mais engajamento sobre a COP30 no LinkedIn indicam que os representantes do setor privado e da sociedade civil enxergaram no evento uma oportunidade para trocar experiências e apresentar projetos e iniciativas brasileiras de enfrentamento e mitigação da crise climática para o resto do mundo.
Ao longo do ano, a mineradora Vale e seu CEO, Gustavo Pimenta, lideraram o ranking de engajamento na rede social ao associar a celebração dos quarenta anos de operação da empresa na Amazônia com iniciativas no contexto da COP30.
Em uma dessas publicações, Gustavo Pimenta registrou 2,2 mil curtidas e 9 compartilhamentos ao divulgar o evento preparatório para a COP30, Carajás Roundtable, em Carajás (PA), organizado em parceria com a The Global Foundation e o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI). Nas palavras do executivo, o objetivo do encontro foi o de “debater temas críticos, como a governança climática global e a transição justa, buscando construir pontes entre setores e países” e “fortalecer a ação coletiva na jornada até a COP30”.
Ao divulgar sua participação em um painel na COP30, o CEO da Vale declarou que estaria vivenciando “dias intensos de colaboração, troca de experiências e construção de soluções que impulsionam o futuro do planeta”, registrando 1,3 mil curtidas e 16 compartilhamentos na rede social.
Entre as postagens que mais registram engajamento no LinkedIn, a startup Planeta Pós-Pandemia reuniu 1 mil curtidas e 34 compartilhamentos ao reportar que a professora Karine Lopes, da Escola do Futuro de Goiás (EFG) Raul Brandão, seria homenageada com o Troféu Destaque “Rede Mulher Florestal”, durante a COP30, como reconhecimento pelo seu trabalho à frente da Naturicap, startup criadora de cápsulas biodegradáveis lançadas por drones para reflorestamento.


As menções negativas sobre a COP30 no LinkedIn foram minoritárias e registraram engajamento baixo. Representantes da sociedade civil, como a Oxfam Brasil e a Associação para a Cooperação Entre os Povos (Acep), além de empresas que oferecem soluções ambientais, como a My Trusted Source e a Rede Igapó, criticaram a suposta insuficiência das propostas e metas apresentadas pelos países durante o evento. Nenhuma dessas publicações registrou mais de 10 interações na rede social.
Sobre supostas falhas na organização do evento, o consultor Técnico de Planejamento e Controle de Projetos e Manutenção na empresa Emerick Construction Company Marcio Emerick de Oliveira (206 curtidas e 37 compartilhamentos) e o influenciador Luís Fernando Marcante (121 curtidas e 12 compartilhamentos) foram os que mais registraram engajamento ao comentar o tema de maneira crítica para o governo.
Prisão de Jair Bolsonaro e debate sobre segurança pública desviam atenção da COP30
O gráfico abaixo revela que, mesmo com o esforço de comunicação do governo e as críticas da oposição, a COP30 ficou distante de engajar os internautas como outros temas políticos que marcaram o ano de 2025 no Brasil. Além disso, a prisão de Jair Bolsonaro pela Polícia Federal (PF), no último dia 22, rapidamente deslocou a atenção da opinião pública digital para outro tema, ofuscando suposta falhas cometidas durante a COP30.

Resultados da conferência
O documento final da conferência gerou uma sensação de frustração entre cientistas e ambientalistas. A exclusão do tema de combustíveis fósseis mostra como ainda não há coesão internacional para os debates mais áridos. Em relação ao financiamento, aprovou-se uma meta de triplicar os recursos, mas sem a esperada pactuação de responsabilidades. A escolha da Turquia como próxima sede é outra polêmica, pelas situações políticas específicas do país de Erdogan. Inclusive, os países acordaram de as negociações serem lideradas pela Austrália, não pelo país-sede, algo inédito.
De positivo, a aprovação em Belém da Meta Global de Indicadores, ainda que com escopo reduzido ao inicialmente proposto. O TFFF sai da COP30 com um compromisso de investimentos de US$ 6 bilhões, com expectativa de crescimento. Outro destaque foi a criação de um mecanismo de transição justa, que permite aos países em desenvolvimento planejarem suas mudanças econômicas contemplando trabalhadores e comunidades vulneráveis.
Saúde é tema de destaque
A relação entre o agravamento da crise climática e a intensificação de problemas sanitários ganhou destaque especial nesta edição da COP. No dia da Saúde (13/11), voltado à discussão do tema, foi apresentado o Plano de Ação em Saúde de Belém (BHAP), construído pelo Ministério da Saúde com o apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS), universidades, associações científicas e sociedade civil.
O plano é uma estratégia global para fortalecer a adaptação e a resiliência dos sistemas de saúde frente aos impactos das mudanças climáticas, por meio de três linhas de ação: (1) vigilância e monitoramento; (2) políticas e capacidades baseadas em evidências; e (3) inovação, produção e saúde digital. Segundo Ethel Maciel, ex-secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, o plano pode ser entendido como uma espécie de “Acordo de Paris” para a saúde.
Os países endossantes deverão enviar relatórios à OMS e à UNFCCC até a COP33 (2028), apresentando os avanços e metas alcançadas. Embora o Plano ofereça diretrizes estratégicas, seu caráter é orientador e não obrigatório, cabendo aos países aderidos decidir sobre sua implementação. Para apoiar países de baixa e média renda, a Coalizão de Financiadores de Clima e Saúde anunciou um aporte de US$ 300 milhões.
No âmbito nacional, outros dois programas foram anunciados: o Plano de Adaptação à Mudança do Clima do Setor Saúde (AdaptaSUS), que dependerá de investimento e adoção pelos gestores estaduais e municipais; e a Agenda Mais Saúde Amazônia Brasil, que reconhece as especificidades territoriais, demográficas e climáticas da região e estrutura uma resposta integrada para reduzir desigualdades históricas e fortalecer a resiliência sanitária diante das mudanças climáticas.
Apesar dos esforços de inserção da saúde como eixo prioritário na agenda climática, o impacto real dessas iniciativas dependerá da capacidade de adesão, coordenação e engajamento local, seja no plano internacional, seja no âmbito nacional.
Camila Barbosa, cientista política e diretora executiva da Prospectiva Public Affairs Lat.Am.
Nas últimas duas décadas, o processo de formação de políticas públicas na América Latina passou por uma transformação profunda e pouco percebida à primeira vista. A dinâmica decisória, antes concentrada em governos e alguns poucos interlocutores tradicionais, passou a refletir um ecossistema muito mais amplo e diverso.
Os debates recentes sobre regulação de plataformas digitais, reforma tributária ou políticas ambientais mostram isso com clareza. O que antes se limitava a representantes eleitos e organizações consolidadas hoje envolve formadores de opinião independentes, movimentos articulados em redes, imprensa especializada, academia, influenciadores digitais, setores empresariais e comunidades locais mobilizadas. Cada um deles disputa espaço na construção de agendas públicas e na definição de prioridades do Estado.
Esse movimento decorre da democratização do acesso à informação e da capacidade de mobilização trazida pelas redes sociais. Quando o Congresso discutiu o marco regulatório das criptomoedas, por exemplo, influenciadores do setor financeiro com milhões de seguidores exerceram pressão equivalente, ou superior, à de associações tradicionais. A mesma lógica se repetiu em discussões sobre moderação de conteúdo e temas fiscais.
O resultado é um ambiente político mais aberto, porém mais volátil. Debates surgem e ganham força em poucas horas. Uma postagem viral, um relatório técnico bem articulado ou uma carta assinada por figuras públicas pode alterar o ritmo ou até o desfecho de uma tramitação legislativa. Nesse cenário, o monitoramento tradicional — focado em proposições, audiências e falas oficiais — se tornou insuficiente.
Atuo há anos com relações governamentais e acompanhamento regulatório, e essa mudança aparece diariamente na prática. Não basta saber o que está no Diário Oficial ou o que disse determinada autoridade. É preciso identificar quem pauta discussões nas redes, quem amplifica narrativas, quem conecta setores distintos e como opiniões aparentemente periféricas se transformam em pressões reais sobre o processo decisório. A observação dos espaços formais já não captura o todo; entender as redes informais e os fluxos de influência tornou-se indispensável.
Essa nova realidade traz desafios metodológicos claros. Como mapear, em tempo real, centenas de atores que se manifestam simultaneamente sobre um tema? Como identificar nuances de posicionamentos e distinguir ruído de sinal relevante? Durante anos, tentamos contornar isso combinando análise manual, ferramentas fragmentadas e muita curadoria. Funcionava, mas era lento, custoso e desatualizava rápido demais diante da velocidade dos debates atuais.
Foi desse diagnóstico que nasceu o Prysmo, uma plataforma que combina inteligência artificial e análise humana para mapear atores relevantes, identificar posicionamentos e acompanhar conexões que moldam decisões de governo. A intenção não é substituir a interpretação especializada, mas ampliá-la com uma base empírica mais sólida e atualizada, capaz de revelar movimentos que antes passavam despercebidos.
A ferramenta permite acompanhar quem ganha ou perde espaço nos debates, identificar argumentos emergentes, mapear redes de influência e antecipar movimentos antes que se cristalizem em posições formais. Em um ambiente saturado de informação, essa inteligência deixou de ser diferencial e passou a ser requisito básico para quem atua em relações governamentais, advocacy ou gestão de risco regulatório.
A política sempre foi sobre pessoas, sobre quem influencia quem e como ideias circulam até se tornarem decisões. O que mudou foi a escala: hoje são muitas mais pessoas, interagindo em formatos e velocidades que ultrapassam a capacidade da observação tradicional. Compreender esse novo mapa de influência não é apenas uma questão operacional; é fundamental para qualificar o debate público e aprimorar a formulação de políticas no século XXI.
Elisa de Araújo, senior manager de Relações com Governo e Stakeholders na Coca-Cola Brasil
A transição ecológica global tem reposicionado o setor produtivo como ator político central na governança climática e econômica. À medida que governos e empresas disputam os caminhos da nova economia verde, emerge a diplomacia corporativa – entendida como o conjunto de práticas político-institucionais por meio das quais corporações constroem legitimidade e influência nas arenas decisórias, atuando como coprodutoras de políticas públicas.
No contexto brasileiro, a realização da COP30 em Belém (PA) desloca o debate climático para o coração da Amazônia, região simbólica e estratégica para o país. Ao escolher sediar a conferência na região amazônica, o Brasil reposiciona sua diplomacia ambiental e amplia a presença de atores não estatais – especialmente o empresariado – na definição da agenda de transição ecológica. Nesse cenário, podemos olhar para a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e o Sustainable Business COP30 (SB COP30) como iniciativa que sintetiza o papel das empresas como coautoras da política climática nacional.
O SB COP30 nasce como plataforma de diplomacia corporativa, reunindo empresas, governo e organismos multilaterais para formular soluções concretas para a descarbonização, a economia circular e a bioeconomia. Organizado em oito eixos temáticos, que vão de transição energética a empregos verdes, a plataforma promove o engajamento direto do setor produtivo nas negociações climáticas e reforça o papel político das empresas brasileiras na implementação de compromissos globais.
Mais do que vitrine de boas práticas, o SB COP30 constitui um espaço de governança compartilhada, em que o setor privado exerce influência legítima sobre o desenho de políticas públicas. A 7ª Carta da Presidência da COP30, assinada pelo presidente da COP, Embaixador André Corrêa do Lago, convoca formalmente as empresas a atuarem como “coautoras da agenda climática brasileira”. Esse chamado simboliza a consolidação da diplomacia corporativa como instrumento de corresponsabilidade política, aproximando o empresariado das arenas decisórias nacionais e multilaterais.
A análise do SB COP30 permite identificar quatro dimensões complementares da diplomacia corporativa:
Essas dimensões demonstram que a diplomacia corporativa não substitui, mas integra e amplia o escopo do exercício do lobby.
O lobby, entendido como prática legítima de defesa de interesses, constitui uma ferramenta essencial do diálogo democrático entre Estado e setor privado. Já a diplomacia corporativa organiza esse diálogo em um nível mais abrangente e relacional, conectando a atuação política das empresas a objetivos públicos de longo prazo.
Essa integração transforma o papel das relações institucionais e governamentais, combinando a representação de interesses com a coprodução de soluções políticas e socioambientais.
No ambiente da COP30, as relações governamentais e a diplomacia corporativa convergem. Ambas lidam com a tradução de agendas complexas, o diálogo intersetorial e a construção de confiança. O profissional de RIG assume, assim, funções próximas às de um diplomata: interpretar dinâmicas políticas, articular coalizões e mediar compromissos entre o setor produtivo, o Estado e organismos multilaterais. Essa convergência amplia a responsabilidade das empresas e reforça o papel do diálogo institucional como ativo estratégico da transição ecológica.
Os desafios permanecem. A diplomacia corporativa só se legitima quando acompanhada de transparência, accountability e compromisso público. O risco de greenwashing impõe a necessidade de governança ética e de métricas verificáveis de impacto. Contudo, quando exercida de forma responsável, a diplomacia corporativa amplia a qualidade democrática da formulação de políticas e fortalece o papel do setor privado como agente da sustentabilidade.
A experiência brasileira demonstra que a transição ecológica é também uma transição política. O SB COP30 exemplifica como empresas podem atuar não apenas como destinatárias de políticas públicas, mas como coautoras de soluções que combinam prosperidade econômica e compromisso ambiental. Essa é a essência da diplomacia corporativa: transformar influência em cooperação, poder em legitimidade e crescimento em impacto positivo.
Gabriel Borges, gerente de Políticas Públicas da Buser Brasil
A atuação em Relações Institucionais e Governamentais (RIG) em ano eleitoral exige uma combinação cuidadosa de estratégia, técnica, transparência e rigor jurídico. Embora o calendário eleitoral altere a dinâmica entre setor público e setor privado, ele não paralisa o trabalho institucional; ao contrário, exige que ele seja ainda mais estruturado e profissionalizado. Nesse contexto, compreender as restrições legais impostas à administração pública e aos agentes privados torna-se fundamental para evitar riscos e manter a integridade das interações. Em ano eleitoral, a administração funciona sob limites específicos estabelecidos pela legislação, especialmente no que diz respeito à comunicação oficial, participação em eventos, anúncios governamentais e repasses voluntários. Isso aumenta a imprevisibilidade das agendas e torna essencial que organizações e os profissionais que as representam preparem-se antecipadamente, ajustando prazos e fortalecendo seus protocolos. Além disso, candidatos que ocupam cargos públicos passam a dividir sua agenda entre funções institucionais e atividades de campanha, o que exige do profissional de RIG um olhar atento para assegurar que cada interação mantenha caráter estritamente institucional, mas que também seja construída com efetividade para a construção política que se pretende.
Sabendo que a paisagem política brasileira se tornou mais fragmentada e profundamente polarizada, a capacidade de construir consensos diminuiu de forma significativa, e o trabalho de RIG passou a enfrentar não apenas o desafio técnico de argumentação, mas também o desafio de navegar em um ambiente marcado pela guerra cultural e ideológica que permeia as esferas de decisão. Em muitos casos, mesmo propostas embasadas em evidências podem ser capturadas por disputas identitárias ou narrativas políticas, o que exige dos profissionais um entendimento mais sofisticado do contexto simbólico e das dinâmicas de polarização. Isso fortalece a necessidade de uma postura institucional clara, pautada por coerência, previsibilidade e responsabilidade.
A esse quadro se soma a transformação tecnológica que digitalizou a política. Os debates e decisões não acontecem apenas dentro das instituições formais, eles se desdobram em tempo real nas redes sociais, moldando percepções, pressionando autoridades e influenciando agendas. A opinião pública tornou-se mais volátil, conectada e emocionalmente mobilizada, e a reputação das instituições pode ser construída e destruída em segundos. Assim, o profissional de RIG precisa monitorar não apenas processos legislativos e regulatórios, mas também o impacto comunicacional de temas sensíveis, tendências digitais e comportamentos de atores políticos e sociais na esfera online. A interseção entre comunicação, dados e relações governamentais deve ser realizada de forma permanente, o que amplia a complexidade da atuação.
Paralelamente, cada vez mais novos atores passam a exercer um papel mais decisivo no ecossistema político. Órgãos de controle, como Tribunais de Contas e Ministério Público, assim como o próprio Poder Judiciário, expandiram sua influência em matérias historicamente concentradas no Executivo e no Legislativo. Assim, a atuação de RIG deixou de se limitar à interlocução com representantes eleitos ou gestores públicos e passou a exigir compreensão de litígio estratégico, accountability, mecanismos de fiscalização e debates constitucionais. Isso transformou o campo em uma atividade ainda mais multilateral, em que a construção de estratégias depende da articulação com diferentes esferas do Estado, cada uma com agenda, lógica e tempos distintos.
Apesar desse ambiente complexo, uma parte significativa da atuação de RIG permanece legítima e necessária em ano eleitoral. Interações técnicas, participação em consultas públicas, produção de estudos e construção de posicionamentos setoriais continuam sendo atividades regulares, desde que conduzidas com máxima transparência e rigor documental. Reuniões institucionais precisam ser pautadas com clareza, registradas e realizadas de modo isonômico, especialmente quando envolvem agentes que também disputam cargos eletivos. Também é essencial evitar qualquer ação que possa ser interpretada como apoio, favorecimento ou coordenação com campanhas eleitorais, bem como a solicitação de compromissos futuros ou participação em atividades partidárias. O foco deve permanecer no interesse público e na consistência técnica das contribuições.
Diante dessas transformações do setor e da política, adaptar estratégias é indispensável. O fortalecimento de agendas estruturantes e de longo prazo — menos dependentes de indivíduos e mais ancoradas em instituições — reduz riscos e aumenta a resiliência das políticas defendidas. A construção de protocolos internos robustos ajuda a orientar equipes sobre como proceder em interações sensíveis, como responder a convites, quais materiais podem ser produzidos e de que maneira registrar reuniões. Antecipar prazos e compreender as limitações impostas pelo calendário eleitoral melhoram o planejamento e reduzem incertezas, enquanto o monitoramento contínuo de discursos, decisões judiciais, movimentos regulatórios e comportamentos sociais digitais torna-se ainda mais estratégico.
O compliance, por sua vez, é um pilar indispensável. Em ano eleitoral, as práticas de governança precisam ser reforçadas para garantir rastreabilidade, segurança jurídica e coerência institucional. Isso inclui, em especial, a garantia de que a comunicação institucional seja neutra e livre de conotações eleitorais. A transparência e a isonomia são fundamentais para preservar a credibilidade das organizações e para afastar qualquer risco reputacional.
Atuar em RIG durante o ano eleitoral não apenas é possível, como pode ser produtivo e relevante. O período amplia o debate sobre prioridades e desafios estruturais do país, permitindo que organizações contribuam com dados, análises e propostas qualificadas. Quando essa contribuição ocorre com responsabilidade, ética e foco no interesse público, fortalece a democracia, reduz assimetrias de informação e melhora a qualidade das políticas públicas. Em um ambiente polarizado, digitalizado e com múltiplos centros de poder, o profissional de RIG que compreende essa complexidade e ajusta sua atuação com transparência e rigor reforça não apenas a proteção institucional, mas também a legitimidade e a importância crescente do campo de relações governamentais.
Gilvan Bueno, consultor econômico e diretor regional do IRELGOV no Rio de Janeiro
Para entender os movimentos recentes da economia chinesa — e seus efeitos sobre o Brasil — é necessário observar o instrumento que orienta as prioridades estratégicas do país: o Plano Quinquenal.
Desde 1953, o governo chinês organiza seu planejamento de desenvolvimento em ciclos de cinco anos. Cada Plano Quinquenal estabelece:
Esses documentos funcionam como um mapa estratégico que coordena governos locais, empresas estatais, grandes corporações privadas, universidades e investidores internacionais.
A China está em pleno 14º Plano Quinquenal (2021–2025), que tem como eixos principais:
Essas diretrizes moldam o ambiente econômico chinês — e colocam a Greater Bay Area (GBA) em posição de destaque.
A Greater Bay Area, que reúne Hong Kong, Macau e nove cidades da província de Guangdong, foi designada como o principal laboratório econômico e tecnológico do governo chinês.
Com cerca de 80 milhões de habitantes e um PIB próximo ao de economias europeias, a região combina características únicas:
A concentração de capital, tecnologia, manufatura e comércio exterior torna a GBA uma das áreas mais dinâmicas do país.
A região lidera o desenvolvimento de tecnologias consideradas estratégicas pela China, como inteligência artificial, robótica, biotecnologia, semicondutores e energia limpa. E a convivência entre diferentes sistemas administrativos — especialmente Hong Kong e Macau — torna a GBA um modelo de integração para futuras reformas nacionais.
Mas a grande pergunta é: por que isso importa para o Brasil?
Uma parcela significativa dos produtos chineses que chegam ao Brasil é desenvolvida, montada ou distribuída por empresas sediadas no GBA. O Brasil tem diversos setores em expansão — como energia solar, mobilidade elétrica e automação — fortemente influenciados pelas tecnologias produzidas na região.
Também é preciso destacar que o Brasil atua como fornecedor de alimentos, energia e matérias-primas, enquanto o GBA entrega inovação, tecnologia e manufatura avançada. Além disso, empresas do GBA ampliam sua atuação no país em áreas como energia renovável, infraestrutura, logística e fintechs — segmentos destacados pelo Plano Quinquenal como estratégicos para expansão internacional.
Para o Brasil, acompanhar o desenvolvimento da GBA significa antecipar tendências, identificar oportunidades de cooperação e entender os caminhos futuros da relação econômica entre os dois países.
Por fim, este artigo marca também minha participação na Pearl Bay Climate Investing & Finance Conference, um dos principais eventos dedicados à discussão de investimento climático, inovação financeira e integração econômica na Ásia. Contribuir com esse debate reforça a importância de aproximar o Brasil — por meio de empresários e investidores — das conversas globais que influenciam o futuro do desenvolvimento sustentável e das finanças internacionais.
Jonathan Goudinho, gerente de Relações Governamentais e Assuntos Regulatórios na IBM Brasil
Em setembro de 2021, o DataSenado realizou uma pesquisa sobre as percepções acerca da regulamentação do lobby. Os resultados mostraram que há maciço apoio social à atividade profissional quando o objetivo é abrir novos mercados (88%), proteger empregos (83%), apoiar causas sociais (82%) e melhorar a competitividade dos negócios (75%). Um dado, porém, merece atenção: 40% dos respondentes disseram que não é aceitável que as empresas atuem junto ao governo com vistas a obter financiamentos e subsídios, mesmo quando isso é feito por meio de canais legítimos. Ou seja, a sociedade aceita que empresas atuem junto ao governo quando isso parece gerar ganhos difusos (emprego, competitividade, causas sociais), mas rejeita quando a atuação se aproxima da ideia de privilégio ou de “dinheiro público para empresas”.
Avance quatro anos no tabuleiro. Em setembro de 2025, um levantamento Genial/Quaest indicou o nível de confiança do brasileiro em instituições públicas que são o coração da democracia. O retrato é pouco animador: 52% não confiam no Congresso, 47% não confiam no Supremo Tribunal Federal, 44% não confiam na Presidência da República.
O que as duas pesquisas têm em comum? Ambas evidenciam um clima de desconfiança institucional. Como aponta o Edelman Trust Barometer de 2025, 64% dos brasileiros sentem ressentimento moderado ou alto em relação às instituições. Quando esse ressentimento se intensifica, a queda de confiança se torna generalizada. Nem mesmo as empresas, que costumam apresentar índices de credibilidade superiores aos do setor público, escapam desse desgaste. Nesse ambiente, qualquer aproximação entre iniciativa privada e o poder público tende a ser menos vista como diálogo e mais como suspeita de favorecimento.
Diante desse cenário, surgem algumas perguntas urgentes: como construir pontes quando se opera sob suspeição permanente? Como influenciar políticas públicas quando a própria presença no debate é recebida com ceticismo? As respostas exigem mais do que ajustes táticos. Passam pela construção e manutenção contínuas de uma espécie de licença social para operar, concedida (ou retirada) tacitamente aos atores que transitam entre o mundo corporativo e o poder público, como os profissionais de relações governamentais.
Nessa atividade, a desconfiança não surge do vácuo. Ela é alimentada sistematicamente por práticas que corroem a reputação: informações de baixa qualidade; relações institucionais baseadas em interesses de curto prazo; e foco exclusivo nas aspirações privadas, sem conexão mais abrangente com o bem público.
Informações de baixa qualidade são como uma moeda falsa que circula até ser descoberta – e destrói a credibilidade de quem as distribui. Quando um profissional apresenta dados enviesados, omite contextos relevantes ou superestima impactos para fortalecer sua narrativa, ele não compromete apenas aquela interlocução. Compromete todas as futuras. Agentes públicos experientes identificam rapidamente material tendencioso. E, uma vez rotulada como fonte não confiável, a credibilidade dificilmente se recompõe.
O antídoto é entregar informações úteis ao interlocutor. E isso não significa volume. Significa relevância para quem decide. Uma boa policy message antecipa as perguntas que o decisor precisa fazer: quais são os custos e os benefícios desta política? Quem ganha e quem perde? Existem experiências comparadas que iluminem a questão? Há alternativas que alcancem o objetivo público com menos distorções? Profissionais que apresentam análises equilibradas, reconhecem limitações em suas propostas e trabalham com dados verificáveis acumulam, gradualmente, um capital raro: reputação de seriedade, um ativo que não se compra nem se transfere.
O segundo problema corrosivo é estabelecer relações orientadas apenas a aspirações imediatas. Empresas que só aparecem quando precisam revelam uma visão utilitarista da política que é, no mínimo, ingênua. Relacionamentos institucionais, como quaisquer outros, exigem investimento contínuo. Afinal, ninguém se mobiliza intensamente por quem só aparece nas emergências. A lógica da reciprocidade, embora raramente verbalizada, permanece em operação.
A presença vai além da frequência das reuniões, é claro. Trata-se de construir relacionamentos genuínos sem precisar deles (ou antes que isso aconteça). Isso significa contribuir para discussões, oferecer expertise sem contrapartida imediata e participar de debates mesmo quando o resultado já está dado. Memória institucional importa. Quem ajuda a esclarecer uma questão complexa hoje será lembrado quando precisar de atenção amanhã.
Também é grave a incapacidade de articular interesses corporativos com o interesse público mais amplo. Empresas que defendem posições baseadas exclusivamente em sua rentabilidade, sem articular efeitos em fatores como empregos ou bem-estar social, perdem a batalha antes mesmo de começá-la. O argumento “isso vai nos custar caro” raramente mobiliza um formulador de políticas públicas. Já algo como “isso vai encarecer produtos essenciais para 20 milhões de famílias” costuma produzir outros resultados.
Conciliar interesses talvez seja uma das competências mais sofisticadas nas relações governamentais. Não se trata de camuflar intenções, mas de encontrar genuinamente onde o que beneficia a empresa também beneficia a sociedade. Uma empresa de tecnologia que defende um marco regulatório claro para a proteção de dados não está apenas protegendo seu modelo de negócio, mas também contribuindo para um ecossistema digital mais saudável. Uma indústria que propõe incentivos fiscais vinculados a metas de emprego em regiões com altos índices de desocupação não está apenas reduzindo custos, está apoiando políticas de desenvolvimento regional.
Se a reputação é a fundação invisível que sustenta a atividade, a comunicação é a estrutura que a torna funcional e visível. A prática de relações governamentais é, em sua essência, comunicacional. O desafio cotidiano é elevar a qualidade da informação nos debates que precedem as decisões públicas.
Formuladores de política enfrentam diariamente torrentes de referências contraditórias, estudos com metodologias opacas, pressões de múltiplos grupos de interesse e, cada vez mais, ondas de desinformação estruturada. Profissionais capazes de clarificar questões complexas, apresentar fatos incômodos, mas necessários, e estruturar debates produtivos prestam um serviço que transcende o interesse imediato de suas organizações. Ajudam a estabelecer critérios de qualidade no processo decisório do Estado.
Essa função comunicacional carrega uma dimensão quase diplomática. Diplomatas profissionais traduzem posições nacionais para audiências externas e interpretam realidades internacionais para seus respectivos governos. Profissionais de relações governamentais fazem um movimento semelhante: traduzem as complexidades empresariais para a racionalidade do poder público e explicam as contingências políticas para as corporações. Quando bem executada, essa mediação melhora a própria política pública.
Essa dupla missão — traduzir e educar — exige um tipo específico de profissional. Não basta entender tecnicamente o setor que se representa. É preciso compreender os gatilhos que movem agentes públicos, os constrangimentos políticos que enfrentam, e as janelas de oportunidade que eventualmente se abrem. Também é preciso coragem para confrontar expectativas irrealistas na própria empresa, sinalizando quando posições estão descoladas da realidade ou quando estratégias precisam ser recalibradas.
A licença social para operar não é concedida por decreto. Não se obtém por meio de conexões políticas, investimentos em marketing institucional ou normas de compliance, por mais importantes que esses elementos sejam. Constrói-se pela demonstração sistemática de que a participação corporativa no debate público agrega valor — não apenas para as empresas, mas também para a qualidade da democracia.
Em um país onde a desconfiança em relação às instituições atinge níveis preocupantes, restaurar as condições de funcionamento da política passa também por reabilitar a legitimidade de quem atua na interface entre o privado e o público. O custo de não fazê-lo não é apenas reputacional para empresas e profissionais. É a corrosão silenciosa da própria capacidade do Estado de deliberar, formular e implementar políticas públicas de qualidade.
Leonardo Volpatti, advogado e cientista político
Em janeiro deste ano, participei de uma imersão acadêmica do mestrado do IDP no Vale do Silício com o objetivo de estudar regulação de inteligência artificial, inovação em políticas públicas e os impactos das novas tecnologias na tomada de decisão governamental. Mas o maior aprendizado não veio de um laboratório tecnológico, e sim de um centro de estudos sobre democracia: o Deliberative Democracy Lab, da Universidade de Stanford.
Ali, fui apresentado ao deliberative polling, método criado por James Fishkin para aprofundar o debate público sobre temas polêmicos e de alta sensibilidade social. O princípio é simples, mas poderoso: as decisões políticas ganham legitimidade quando são precedidas por escuta qualificada, informação equilibrada e deliberação estruturada entre cidadãos diversos. Em um cenário de polarização como o brasileiro, isso é um diferencial estratégico para qualquer campanha de advocacy.
A metodologia já foi aplicada em temas como energia nuclear (Coreia do Sul), reforma da saúde (EUA), mudanças climáticas, legalização de drogas e encarceramento. O processo envolve cinco etapas: seleção de uma amostra representativa da população, aplicação de um questionário inicial, fornecimento de materiais informativos neutros (validados por especialistas de visões opostas), deliberação mediada em grupos pequenos e reaplicação do questionário ao final. O impacto é mensurável: redução da polarização afetiva, aumento da empatia com o “outro lado” e disposição para consensos realistas.
Esse tipo de escuta não substitui o trabalho institucional tradicional, mas pode qualificá-lo. Em advocacy, não basta convencer autoridades; é preciso sustentar decisões politicamente viáveis e socialmente legítimas. A experiência na Universidade de Stanford me levou a propor uma nova lógica para campanhas de influência: começar pelo diagnóstico do risco ideológico, seguir com deliberação entre stakeholders (usando princípios do deliberative polling), construir narrativas técnicas com base empírica e social e só então engajar com decisores públicos.
Essa abordagem tem aplicações práticas claras no Brasil. Veja alguns exemplos:
Executivos e líderes de RIG podem se beneficiar dessa abordagem com quatro ações imediatas:
O maior risco hoje não é ser ignorado — é ser percebido como ilegítimo. Em um país onde a opinião pública pode transformar uma proposta técnica em um ringue ideológico, navegar exige mais do que influência: exige método, escuta ativa e disposição para o dissenso construtivo.
A inovação em políticas públicas não começa no plenário. Começa no espaço que poucos estão dispostos a ocupar: o da conversa difícil, com quem pensa diferente.
Olá Sr. Detrator, você aceitaria um café e uma boa conversa?
Por Nádia Marucci, gerente de Relações Governamentais na SHEIN Brasil
A formulação de políticas públicas eficazes não deve ser um exercício de crença ou ideologia, mas sim um processo rigoroso e fundamentado em fatos. É nesse contexto que trago para discussão um conceito que há anos é discutido e defendido no ambiente acadêmico, mas está longe de ser aplicado com maestria no ambiente político: as Políticas Públicas Baseadas em Evidências (PPBE).
Com o objetivo de criar políticas mais assertivas, sustentáveis e eficazes, a abordagem de PPBE parte de uma premissa muito clara: fazer com que decisões governamentais, que afetam a vida de milhões de cidadãos, sejam embasadas no uso de dados e pesquisas. Quando fundamentadas em dados objetivos sobre o que funciona, para quem, sob quais condições e a que custo – antes e depois de as mudanças serem implementadas –, as políticas fazem muito mais sentido para todos os atores envolvidos. Note que essa abordagem pode ser aplicada em qualquer área – da saúde pública à educação –, visando sempre a melhoria dos resultados e do status quo.
No cerne de um governo responsável está a premissa de que as políticas devem visar o bem-estar social e levar em conta o fator de mercado. É imperativo que haja uma colaboração transparente e construtiva entre todos os setores: governo, setor privado e sociedade civil. No entanto, em um ambiente complexo, frequentemente assistimos à implementação de políticas que se disfarçam de regulamentação a favor do equilíbrio mas que, na prática, acabam por restringir o acesso e onerar indevidamente o cidadão.
Embora a aplicação desse conceito seja relativamente comum em políticas regulatórias – especialmente no âmbito de Agências Reguladoras -, observamos que os demais poderes, notadamente o Legislativo, demonstram baixo engajamento com essa prática deliberativa. O que se constata, na maioria das vezes, é a promulgação de leis ancoradas em perspectivas ideológicas ou pontos de vista setoriais, em detrimento da necessária fundamentação em dados concretos e evidências empíricas. O recente caso da “taxa das blusinhas”, que acabou com a isenção para compras internacionais de baixo valor, é um exemplo de política que falha em ouvir a voz do consumidor e desconsidera as evidências.
A medida, que instituiu uma alíquota de 20% sobre importações de até US$ 50 (com base na Lei 14.902/2024), tinha um objetivo muito claro: proteger o varejo e a indústria nacionais da competição das novas plataformas. No geral, não houve um aprofundamento do debate técnico nem a avaliação rigorosa das evidências e do cálculo dos múltiplos impactos em todas as esferas. Essa ausência de análise abrangente deixou de considerar as consequências no mercado, na inflação, no acesso do consumidor a bens diversificados e na efetividade da geração de empregos no país.
As evidências empíricas confirmam o impacto da medida: segundo um estudo da LCA, um ano após a aplicação da taxa, as importações de bens de consumo de baixo valor caíram 43%, diretamente impactadas pelo aumento médio dos preços desses itens nos 12 meses seguintes ao início da taxação. Quanto ao resultado fiscal, a arrecadação federal obteve um suposto “aumento” (pois partiu de zero para um valor positivo), mas este foi acompanhado por uma queda significativa na arrecadação pelos estados devido à redução no volume de transações.
Esse resultado pode ser analisado à luz da Curva de Laffer, uma teoria econômica que demonstra que, a partir de um certo ponto, o aumento da alíquota de um imposto leva, paradoxalmente, a uma menor capacidade de arrecadação total. A tímida arrecadação obtida com a “taxa das blusinhas” ilustra esse princípio, sugerindo que a alíquota de 20% não apenas prejudicou o consumidor e a diversidade de bens, mas também se mostrou ineficaz para gerar o incremento fiscal esperado – contradizendo seu propósito inicial.
Outro dado importante a ser avaliado é o da geração de emprego. O estudo, amparado pelos dados do Ministério do Trabalho, constatou que o crescimento do emprego em setores do varejo e da indústria favorecidos com a taxação da importação de baixo valor se manteve no mesmo patamar verificado nos 12 meses anteriores – ou seja, sem a “proteção” trazida pelo imposto de importação mínimo. Segundo a LCA, a alta na taxa de emprego nesse mesmo período posterior à taxa está abaixo da expansão do emprego geral no Brasil: 0,97% no comércio varejista beneficiado e 0,97% nas indústrias beneficiadas, contra 3,04% na média nacional. Os números desmistificam o argumento de que a “taxa das blusinhas” impulsionaria a criação de vagas, indicando que ela não foi capaz de gerar um diferencial significativo no nível de emprego dos setores supostamente beneficiados.
Registro aqui, ainda, um dos dados que mais chamam a atenção: o impacto no cidadão brasileiro. Hoje, cerca de 70% de toda a arrecadação com a taxa advém de consumidores das classes C, D e E – justo a população que possui maior sensibilidade ao aumento de preços, dada sua menor disponibilidade de renda. Impactados pela taxa, a parcela de consumidores dessas classes que desistiu da compra após checar o preço final com o novo imposto subiu de 35% para 45%. Ou seja, a criação do imposto tirou esse cliente do mercado. Além disso, 80% dos consumidores dessa camada buscavam produtos difíceis de encontrar no mercado nacional, indicando que a política também reduziu a diversidade de bens disponíveis.
No entanto, vale ressaltar que enquanto o consumidor de renda menos favorecida perde acesso com a nova política, viajantes brasileiros que vão ao exterior não sentem o mesmo impacto. Segundo dados do Banco Central, os gastos desses viajantes registraram em 2025 a maior alta em 11 anos, somando mais de R$ 70 bilhões em quase um ano. A discrepância entre a imposição de uma nova taxa sobre compras online populares e a manutenção da isenção para gastos de alto valor em viagens aponta para uma lacuna na equidade da política fiscal.
Os números provam e nos lembram, durante todo o tempo, que o consumidor não pode ser deixado de lado – ele deve ser o protagonista na formulação das políticas públicas. A concorrência e a escuta ativa são chaves para um mercado mais justo e inclusivo. A isenção fiscal para bens de baixo valor não é um privilégio, mas sim uma política de acesso que beneficia diretamente o público de baixa renda. A verdadeira solução, no entanto, reside em atacar o problema estrutural de competitividade que a isenção apenas tenta mascarar: o famigerado “custo Brasil”.
Quanto à solução para a “taxa das blusinhas” — formalmente conhecida como o modelo De Minimis — ela já está delineada pelas principais instituições globais de comércio e economia. Tanto a Organização Mundial do Comércio (OMC) quanto a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontam para a necessidade de isenção total do Imposto de Importação (II) para pequenas remessas, combinada à cobrança do imposto de consumo (como IVA/ICMS) de forma estritamente isonômica à produção nacional.
Enquanto não incorporarmos dados concretos e evidências robustas ao debate, continuaremos falhando na formulação de políticas eficazes. Somente a ciência é capaz de garantir que o governo cumpra seu papel de promotor do bem-estar social e do crescimento econômico de forma sustentável e equitativa.
Olavo Soares, jornalista, head em Brasília do Radar Governamental
“O processo está engavetado há seis semanas!”, “Como esse cara ainda não foi expulso do Congresso?”, “Mas tem tudo isso de etapa até virar lei? Que burocracia!”. Frases como essas, ou similares, são ditas em profusão por pessoas que recebem notícias da política que consideram desagradáveis, e que mostram alguma dificuldade para assimilar os fatos.
Esse tipo de reação, via de regra, é comum em pessoas que não acompanham a política, ou que não a entendem a fundo. São questionamentos – muitas vezes, válidos – que indicam uma certa desconexão entre o olhar de fora, desejoso por soluções rápidas, e os mecanismos que realmente fazem as coisas acontecerem.
Isso porque, em muitas ocasiões, a política é lenta. E arrastada, e difícil. Por incompetência ou desinteresse dos seus protagonistas? Não exatamente. Aliás, na maior parte dos casos, não. A lentidão da política se deve à sua essência, pelo que a política realmente representa: a busca por soluções que sejam consensuais ou, na pior das hipóteses, que desagradem o menor número possível de pessoas.
Um exemplo clássico deste quadro se dá quando um projeto aguarda sua apreciação no Legislativo, seja em plenário ou em uma comissão. Um parlamentar é designado relator e pode, em muitas ocasiões, “demorar” na entrega do seu relatório. As aspas aí são necessárias; o que ao olhar externo pode soar uma “demora”, para quem está no meio é sinal de um processo em construção, que envolve muito diálogo, muita reflexão e a passagem de tempo que se mostra necessária em muitas ocasiões.
(Sim, não podemos desconsiderar que haverá casos em que o que ocorre é de fato uma demora, e sem aspas. Pode ser que o parlamentar não tenha se dedicado ao caso como deveria ou mesmo que queira retardar o processo para a obtenção de benefícios próprios. Mas essa não é necessariamente a regra.)
Na mesma linha, outro termo que causa estranhamentos no público externo é a palavra acordo. A política fez com que “acordo” se tornasse sinônimo de coisa ruim – um acordo motivado por interesses individuais ou mesmo por conta de uma corrupção pura e simples. Mas à parte de sua conotação negativa, acordo é o que se busca na política real. É a mediação de interesses e a construção de uma realidade possível. A chegada a um acordo significa o descarte de uma utopia e a obtenção de algo significativamente mais positivo, ainda que todas (ou quase todas) as partes tenham que ceder em um ponto ou outro.
Diante de todo esse cenário, o trabalho do profissional de relações governamentais se faz significativamente necessário.
Quando o relgov tem como principal tarefa a de repassar informações, cenários e tendências aos clientes, a compreensão do tempo da política se torna chave no sentido de “traduzir” o que realmente ocorreu. Aí entra em cena um jogo constante de sobrevalorizar algumas ocorrências e subvalorizar outras. Por exemplo, reforçar que a designação de um relator, algo que a “olho nu” poderia parecer um passo pequeno, é mais do que decisivo no andamento de uma proposição. Ou, na mão oposta, esclarecer que a aprovação por uma comissão pode ser um passo protocolar, ainda não representando a consolidação do processo.
Já o relgov que atua na representação de interesses tem que compreender o tempo da política para identificar quando e como depositar seus esforços. Retomando o exemplo da designação de um relator, o relgov precisa compreender a importância desta etapa para influenciar (ou não, dependendo do interesse) neste processo. E, também em outro exemplo hipotético, não empreender esforços quando uma votação já está encaminhada.
Todo esse contexto reforça a necessidade do profissional de relgov de intensificar suas relações interpessoais e também sua capacitação. Os relacionamentos – que estão até no nome da nossa profissão – ajudam a compreender o avanço das propostas e a direcionar energia para o que mais faz sentido. E a capacitação leva a um melhor entendimento das dinâmicas regimentais, que são o fio condutor da atividade parlamentar.
Roberto Bastianetto, publicitário com especialização em Marketing e Negócios e em Gestão, Marketing e Mercados
Dia 30 de outubro de 2025, logo após a “Operação Contenção” ocorrida no Rio de Janeiro, os governadores Romeu Zema (Minas Gerais), Ronaldo Caiado (Goiás), Jorginho Mello (Santa Catarina), Eduardo Riedel (Mato Grosso do Sul), Ratinho Jr. (Paraná), Eduardo Leite (Rio Grande do Sul), Mauro Mendes (Mato Grosso), Celina Leão (vice-governadora do Distrito Federal) e Tarcísio de Freitas (São Paulo, por videoconferência) se reuniram no Rio de Janeiro com o governador Cláudio Castro tendo como objetivos prestar solidariedade ao governador do Rio de Janeiro, demonstrar apoio às ações de combate ao crime organizado, criticar o Governo Federal e aproveitar o momento para anunciar o “Consórcio da Paz”.
Essa reunião, que foi muito bem articulada e no timing correto, demonstra que a política, como dizia Tancredo Neves “se faz muito mais de gestos do que de palavras”, tangibiliza discursos e passa o recado.
Meu objetivo aqui é analisar esse evento pela ótica da comunicação pública e demonstrar como os gestos na vida pública não são apenas necessários, mas vitais para o sucesso da gestão e do gestor.
Afinal, um dos maiores desafios dos secretários, marqueteiros e consultores de comunicação pública é conseguir encontrar meios de comunicar as realizações, obras e projetos dos governos aos diversos públicos de interesse.
Conseguir, pela ótica de quem recebe a informação, que a mensagem seja primeiro recebida, depois compreendida e, ao final, que a paternidade das ações seja reconhecida, criando um vínculo entre a ação realizada, o cidadão beneficiado e o gestor público, é uma tarefa árdua. Ela envolve muito planejamento, estudo, compreensão do ambiente em que se deseja comunicar, das particularidades dos seus públicos-alvo e, no meio disso tudo, conseguir se destacar na avalanche de conteúdos a que estamos expostos diariamente.
Não é simples, não é fácil, mas os gestos ficam na memória.
A reunião realizada entre os governadores poderia ser batizada de “Operação tiro certeiro”. Conseguiu seu objetivo: atingiu em cheio a atenção da grande mídia e mídia especializada, marcou a posição dos governadores e, principalmente, a atenção e o apoio dos eleitores de centro-direita.
O IRELGOV dá as boas-vindas aos seus novos associados, que chegam para fortalecer essa grande rede de conhecimento que estamos construindo diariamente!
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Expediente #04 – Dezembro – 2025
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