Vice-presidente do IRELGOV é entrevistada pela Pequod Advisory Group
30 de outubro de 2019

Suelma  faz análise da conjuntura política, fala sobre as oportunidades de negócios e as expectativas para a retomada do crescimento econômico.

 

Suelma Rosa, Vice-presidente do IRELGOV, foi entrevistada pela consultoria Pequod Advisory Group. O tema foi o ambiente político e de negócios do Brasil, analisando a conjuntura atual, as propostas de reformas do governo Bolsonaro, oportunidades de negócios para investidores internacionais e as expectativas para a retomada do crescimento econômico. “O Brasil tem feito mudanças nos ambientes regulatórios que podem trazer grandes oportunidades para alguns setores específicos”, disse Suelma. Um dos setores que merecem atenção é o de petróleo e gás. A entrevista faz parte do podcast Mercados Emergentes: Série Brasil, produzido pela Pequod Advisory Group. 

 

NOVO GOVERNO BRASILEIRO IMPULSIONARÁ CRESCIMENTO ECONÔMICO

 

Após o impacto das investigações de corrupção da Operação Lava-Jato na economia brasileira, o país tenta retomar o caminho para o crescimento econômico. A agenda do atual governo envolve importantes reformas, abrir a economia para o comércio internacional, novas regulamentações para otimizar o campo de negócios do Brasil e atrair investimentos estrangeiros. “Isso traria grandes oportunidades para alguns setores específicos da economia”, diz Suelma Rosa, PhD, especialista brasileira em ciência política e relações governamentais. Em sua ocupação como vice-presidente do Instituto de Relações Governamentais, ela conversou com o Pequod Advisory Group (Consultoria Pequod, em tradução livre) sobre diversos assuntos, incluindo Lobby, o campo de Relações Governamentais, corrupção, a ascensão do Presidente Bolsonaro e investimentos no Brasil, comentando os melhores setores para investimentos. Essa entrevista é parte do podcast Mercados Emergentes: Série Brasil, produzido pelo Pequod Advisory Group.

O inquérito da Operação Lava-Jato tem investigado um dos maiores escândalos de corrupção da história do Brasil e se tornou um marco em ambas as esferas, política e econômica. “A operação já investigou cerca de 500 pessoas, envolvendo 18 empresas, aprisionando mais de 30 executivos e ainda está em trânsito, devido aos inúmeros projetos envolvidos”, explica Suelma. Na última década, o Brasil foi sede de alguns dos maiores eventos internacionais, como as Olimpíadas e a Copa do Mundo da FIFA, o que requereu uma grande escala de investimentos em infraestrutura. Vários desses projetos foram investigados pela Operação Lava-Jato. “[A operação] está investigando projeto por projeto, analisando diferentes redes e conexões. Cada conexão gera, em si, uma investigação separada.”

Rosa diz que as maiores construtoras do Brasil estavam no centro da operação. Autoridades descobriram negociações diretas entre oficiais de governo e as empreiteiras que utilizavam de propina para terem acesso preferencial a licitações. O foco da investigação era entender como essas negociações ocorriam e como o sistema financeiro do esquema foi planejado para receber o dinheiro de propina e remetê-lo ao exterior. O envolvimento dessas empresas na Operação teve um grande impacto sobre a situação financeira do país e, portanto, dos investimentos.

 

A ASCENSÃO DE BOLSONARO

O escândalo da Lava-Jato foi o que pautou as eleições brasileiras que resultaram na vitória do Presidente Jair Bolsonaro (PSL) no ano passado, de acordo com Rosa. Bolsonaro ocupou o cargo de Deputado Federal do Rio de Janeiro por 27 anos antes de se tornar presidente. Devido à sua carreira militar, ele tem especificamente apoiado o Exército e instituições policiais, entidades que o apoiaram durante sua campanha. “Ele era desconhecido antes de começar a tomar a frente de um debate bem contraditório durante o processo de impeachment da Presidente Dilma [Rousseff]. Ele a opunha, mas se posicionava avidamente contra o Partido dos Trabalhadores [O partido do governo anterior]”, diz Rosa.

Bolsonaro tirou proveito do movimento anticorrupção que se espalhou pelo país. Antes, no início das campanhas de eleição presidencial, ele não era visto como um candidato que realmente assumiria o poder, aponta Rosa. “Mas o país precisava de algo diferente e os eleitores consideraram um político com 30 anos de experiência uma novidade, porque ele não era nada conhecido.”

 

A CORRUPÇÃO E AS INSTITUIÇÕES 

Apesar de muitos associarem o atual debate sobre corrupção no Brasil com partidos políticos específicos ou alguns setores da economia, a corrupção é, historicamente, a base do sistema político brasileiro, de acordo com Rosa: “Assim como vários países em desenvolvimento, o Brasil não possuía instituições fortes no passado que pudessem prevenir a corrupção. Conforme o Brasil fortalece suas instituições, o mesmo ocorre com a habilidade de investigação e promoção da justiça.”

Para Rosa, a Operação Lava-jato deve ser vista de forma positiva, visto que sua ocorrência é prova da força das instituições. “Em nenhum outro momento no país presenciamos procuradores públicos trabalhando em conjunto com a Polícia Federal em uma investigação contra a administração que estava no poder. A questão agora é o quanto essas instituições ainda estão investidas no poder e o quanto isso vai mudar a cultura política no país.”

 

OS EFEITOS DA CORRUPÇÃO NA ECONOMIA BRASILEIRA

Apesar dos escândalos de corrupção, o Brasil tem sido palco de desordem política nos últimos anos, o que resultou no impeachment da Presidente Dilma Rousseff em 2016, em um processo do Congresso baseado em alegações que a presidente havia cometido crimes fiscais. “O ano do impeachment derrubou o PIB.Depois disso a economia começou a se recuperar, mas sem que houvesse crescimento, os números se mantinham perto do zero. Então todas as expectativas foram depositadas na nova administração,” alega Rosa.

Parte da estratégia do novo governo para enfrentar os problemas da economia é focar em reformas. A reforma da previdência social avançou no Congresso Brasileiro esse ano, e a reforma tributária está sendo debatida. A economia é regida pelo ministro Paulo Guedes, promessa econômica de Bolsonaro durante sua campanha. “Guedes, que é um ministro poderoso por conta da mesclagem de cinco ministérios em um. Está cumprindo com a sua promessa, mas reformas levam tempo”, analisa Rosa.

 

A NECESSÁRIA REFORMA TRIBUTÁRIA NO BRASIL

Com a reforma tributária, o governo tem a intenção de reduzir os custos das empresas ao contratar funcionários no país. A legislação trabalhista brasileira foi desenhada na década de 1940 e protegia fortemente os trabalhadores. Michel Temer, que assumiu a presidência após o impeachment de Dilma Rousseff, redigiu uma pequena reforma trabalhista, aprovando a terceirização e a contratação temporária, por exemplo, mas não modificou o sistema tributário ao redor da reforma. “Para cada dólar que um brasileiro recebe, as empresas pagam outro dólar em tributação trabalhista. O objetivo agora é reduzir os custos trabalhistas em forma de tributação. Essa é a proposta da reforma tributária”, explica Rosa.

O desafio da aprovação de reformas no Brasil é a estrutura política. “Por causa da abundância de partidos [políticos], 34, compor uma maioria no Congresso é um processo extremamente difícil”, diz Rosa. Tradicionalmente, a estratégia do presidente para construir uma coalizão, para garantir sua capacidade de aprovar reformas, era distribuir os ministérios entre diferentes partidos, aponta Rosa. “E esse não é mais o caso. Bolsonaro nomeou políticos como ministros, mas sem associar as nomeações com a construção de uma coalizão e os analistas políticos estão tentando entender como isso vai afetar a dinâmica das votações em Congresso.”

 

INVESTIMENTO ESTRANGEIRO NO BRASIL

Além das reformas, o Brasil está trabalhando em prol da abertura da economia. “O Brasil é conhecido como um país protecionista em termos de comércio exterior e possui uma cota pequena no fluxo de comércio global quando levamos em consideração o tamanho de sua economia”, aponta Rosa. “Nós tivemos algumas mudanças para a facilitação do comércio, que é o tipo de regulamentação que não precisa de aprovação no Congresso, e o governo aprovou o que chamamos de pacote de liberdade econômica, que consiste em um número de conceitos e pequenas mudanças burocráticas.”

Na opinião de Rosa, o ministro Paulo Guedes está levando a nova agenda adiante, mesmo que os resultados ainda deixam a desejar, visto que a capacidade de investimento do setor público praticamente não existe em razão da magnitude do déficit público. Guedes está tentando, também, construir a confiança do mercado para atrair investimentos privados.

Outra estratégia do governo para estimular a economia consiste em mudanças regulatórias. “Recentemente, [o] Brasil tem feito mudanças nos ambientes regulatórios que podem trazer grandes oportunidades para alguns setores específicos”, diz Rosa. Um dos setores que merecem atenção é o de petróleo e gás. “[A] Petrobrás mantinha o monopólio do mercado, da extração à distribuição, e agora isso está sendo quebrado e eles estão deixando algumas áreas.” Alguns dos negócios estão a venda no mercado, e algumas empresas compraram arrendamentos que antes pertenciam à Petrobrás.

Outro setor que está passando por mudanças é o setor de mineração, com oportunidades na Amazônia e em Minas Gerais, por exemplo. “Estão facilitando para investidores internacionais investirem em operações mineradoras. Há diversos minerais disponíveis e em grandes quantidades. Isso é um fator a ser levado em consideração”, alega Rosa. Além disso, há novas regulamentações de mercado para gás natural que alterarão o custo de distribuição que resultarão em oportunidades para setores downstream como o petroquímico e o de fertilizantes, de acordo com Rosa.

“Há também uma porção de processos de privatização que estão por vir. Um deles é o do setor energético, onde a Eletrobrás está sendo preparada para ser privatizada.” Em questão de infraestrutura, o governo está elaborando um pacote que envolve água, saneamento, rodovias e portos. “Em novembro, em um evento em São Paulo chamado ’Fórum de Investimento Brasil’, o governo tentará vender seu portifólio de investimentos e outras oportunidades”, informa Rosa.

 

TECH STARTUPS PARA IMPULSIONAR A ECONOMIA

O Brasil está visando atrair startups e empresas de tecnologia como parte de sua estratégia de investimentos, de acordo com Rosa. Ela vê três áreas em destaque. Uma é a de tecnologias para o agronegócio, ou agrotec: “O Brasil é um grande produtor de commodities e a tecnologia relacionada ao setor é extremamente necessária, como, por exemplo, análise de clima, previsibilidade, planejamento.”

Outra área é a de tecnologia da mobilidade, que é um desafio devido ao tamanho das metrópoles brasileiras. “Essa também é associada com segurança por conta dos níveis de violência nas metrópoles”, diz Rosa. A terceira área de tecnologia é a de fintech (tecnologia financeira). “O sistema bancário brasileiro é extremamente dependente de tecnologia por conta dos altos níveis de inflação do passado. E a tecnologia para gerenciar portifólios foi desenvolvida no Brasil anteriormente, comparando com os EUA e a Europa. É uma oportunidade e um setor que vem crescendo rapidamente.”

 

A entrevista original, em inglês, e o podcast podem ser acessados AQUI.

 

 

 



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