Por Thomaz D’Addio, líder do GT Democracia do IRELGOV
Wesley Reis e Bianca Bossi – Bolsistas do IRELGOV, apoiadores do GT de Democracia

Ao longo dos encontros do Grupo de Trabalho Democracia, tivemos a oportunidade de refletir sobre um tema que está no centro da vida pública e da atuação de quem trabalha com Relações Institucionais e Governamentais: a própria construção da democracia. Mais do que buscar uma definição única, nosso objetivo foi compreender como esse conceito se desenvolveu historicamente, quais são seus fundamentos e de que forma ele se manifesta — ou é colocado à prova — nas democracias contemporâneas.
Iniciamos essa jornada discutindo os conceitos de democracia, autocracia e ditadura a partir das contribuições de Norberto Bobbio e Charles Tilly. Os textos serviram como ponto de partida para um debate que ultrapassou a teoria, conectando diferentes interpretações acadêmicas aos desafios concretos da prática política. Ao longo das conversas, revisitamos autores clássicos, analisamos experiências históricas e debatemos questões como cidadania, participação popular, igualdade perante a lei e os mecanismos de proteção contra o exercício arbitrário do poder.
As reflexões também evidenciaram que a democracia é um processo em constante construção. Não basta garantir eleições ou ampliar mecanismos de participação; é preciso assegurar que todos tenham acesso efetivo aos direitos, que as instituições funcionem com transparência e que o Estado respeite os limites impostos pelas leis. Nesse contexto, discutimos ainda o papel do lobby legítimo como instrumento de representação de interesses e de qualificação da tomada de decisões públicas, distinguindo-o de práticas ilícitas que comprometem a integridade das instituições.
Os textos a seguir reúnem os principais debates realizados pelo grupo e convidam o leitor a refletir sobre os desafios, as transformações e as perspectivas da democracia contemporânea, um tema indispensável para compreender o ambiente político e institucional em que atuamos.
Na primeira reunião do grupo, “O olhar teórico: o que é democracia?”, conduzida pelo líder do grupo de trabalho “Democracia” Thomaz D’Addio no dia 24 de abril, foram discutidos os conceitos de democracia, autocracia e ditadura, a partir de textos de Norberto Bobbio e Charles Tilly, sem se prender à dimensão puramente teórica dos textos, mas utilizando-os como ponto de partida para uma conversa aberta, que relacionasse os conceitos à prática política contemporânea.
Segundo o conceito de Bobbio, na democracia as leis são feitas por aqueles aos quais elas se aplicam, enquanto na autocracia, aqueles que elaboram as leis são diferentes daqueles a quem elas se destinam. A principal diferença está em saber se os cidadãos estão submetidos ao domínio das leis ou se determinados governantes dominam as leis sem necessariamente se submeter a elas.
A partir dessa perspectiva histórica, D’Addio percorreu diferentes interpretações sobre a democracia. Em referência a Tucídides, historiador e general na Grécia Antiga, destacou princípios como a igualdade perante a lei, o governo baseado nas leis — e não na vontade de um governante — e o respeito à liberdade pública e privada, ainda que o conceito de cidadania da época fosse bastante restrito. Ele também apresentou a visão de Maquiavel, que considerava a monarquia um modelo virtuoso e a democracia uma forma viciosa de governo, pela possibilidade de uma “ditadura da maioria”.
Na sequência, o debate se concentrou na contribuição de Charles Tilly para a compreensão da construção social da democracia. O autor analisa tanto os elementos formais do Estado — como instituições, aparato legal e arranjos políticos — quanto os elementos sociais, relacionados à cultura, às relações de classe, ao conceito de cidadania e ao respeito ao devido processo legal. A partir dessa combinação, Tilly propõe quatro dimensões de análise: igualdade de cidadania, alcance da cidadania, consultas à população e proteção contra a arbitrariedade estatal.
A análise também destacou que participação popular, por si só, não garante uma democracia ampla. Como exemplo, Thomaz D’Addio mencionou a Suíça, frequentemente apresentada como modelo de democracia participativa por realizar eleições, referendos e consultas populares regulares. Apesar disso, o voto feminino foi rejeitado em consultas públicas diversas vezes e só passou a ser permitido no país a partir dos anos 1970. “Como somente os homens votavam, a participação feminina nas eleições foi continuamente negada. Então, mesmo esse modelo de muita participação pode ter seus grandes defeitos”.
Victor Leal, um dos participantes da reunião, observou que muitas classificações de regimes políticos partem de uma perspectiva eurocêntrica ou centrada nos Estados Unidos, tentando impor parâmetros rígidos a fenômenos que são historicamente diversos. Para ele, a trajetória brasileira passou por diferentes formas de organização política, mas preservou características patrimonialistas que ainda influenciam os tomadores de decisão e, em alguns casos, se confundem com práticas de corrupção e troca de favores. Leal defendeu que os profissionais de Relações Governamentais e Institucionais contribuam para ampliar a igualdade e o alcance da cidadania, democratizando o conhecimento sobre os processos decisórios e tornando-os mais transparentes e participativos.
Thomaz D’Addio relacionou essa reflexão ao papel do lobby, defendendo que o lobby é uma parte integrante da democracia por ampliar a participação e permitir que os tomadores de decisão tenham acesso a diferentes informações e perspectivas. Ele diferenciou, contudo, a defesa legítima de interesses de práticas corruptas, como pagamentos clandestinos ou compra de favores, que não constituem lobby e já são condutas ilegais. Ao final, D’Addio reforçou que a democracia não é um conceito escrito em pedra, mas uma construção histórica, sujeita a disputas, adaptações e à necessidade permanente de proteção contra a concentração arbitrária do poder.
Na reunião “Democracia e processo eleitoral: lendo pesquisas de intenção de voto”, no dia 8 de maio, Thomaz D’Addio recebeu Rebecca Gharibian, diretora e sócia da Quiddity Brasil, pesquisadora especializada em comportamento e estratégia, e Daniel Marcelino, analista de dados do Jota, para debater a interpretação de pesquisas eleitorais. O encontro abordou as diferenças entre intenção de voto e resultado efetivo, os limites das margens de erro e a influência das metodologias de coleta sobre os números divulgados.
Gharibian explicou que a pesquisa quantitativa dimensiona opiniões e intenções, mas não revela necessariamente se uma decisão é profunda ou duradoura. Por isso, os dados precisam ser complementados por análises qualitativas, capazes de identificar fatores culturais, econômicos e emocionais que influenciam o comportamento. “A pesquisa quantitativa normalmente pega a intenção. No entanto, é preciso saber definir se é uma intenção profunda ou se há mecanismos que podem alterá-la. É aí que entram as pesquisas qualitativas”, explicou.
Para Marcelino, existe um conflito entre preferência e escolha: o eleitor pode manifestar uma intenção e mudar de decisão diante de novos acontecimentos. Para ele, mais importante do que um número isolado é observar a tendência ao longo do tempo. A diferença entre pesquisas espontâneas e estimuladas também ajuda a compreender o grau de lembrança e segurança do eleitor em relação aos candidatos. “É muito mais importante olhar para a tendência do que para um número específico, que uma pesquisa traz hoje ou amanhã ou até na véspera da eleição. A tendência às vezes informa muito mais”, afirmou.
A margem de erro foi apresentada na reunião como uma medida limitada da incerteza. Daniel Marcelino destacou que os cálculos estatísticos partem de uma situação de estabilidade, embora opiniões possam mudar durante a campanha por causa de eventos, declarações, crises e alterações na disposição de votar. Além do erro amostral, existem problemas de não resposta, indecisão e comparecimento às urnas, que podem ampliar a incerteza real. O analista também criticou o uso da expressão “empate técnico”, ressaltando que candidatos dentro do mesmo intervalo podem ter probabilidades diferentes de alcançar determinado resultado.
A metodologia de coleta foi apontada como outro elemento decisivo para a leitura dos levantamentos. Pesquisas presenciais, telefônicas e on-line alcançam públicos distintos e produzem retratos diferentes da sociedade. No conjunto analisado, menos de 5% das pesquisas eram on-line, mais de 55% presenciais e aproximadamente 40% telefônicas. Rebecca Gharibian alertou que a internet representa principalmente o ambiente digital, que amplifica comportamentos de manada, mas não necessariamente o conjunto do eleitorado. Marcelino acrescentou que as escolhas dos institutos — como amostra, distribuição regional, questionário e ponderação — geram vieses de medição, que não devem ser confundidos automaticamente com viés político.
A dimensão social da eleição foi analisada pela representante da Quiddity Brasil a partir do estudo anual “Tensões Culturais”. Segundo os dados apresentados, 58% dos brasileiros gastam tudo o que ganham ou mais do que ganham, enquanto 45% se declaram exaustos ou sobrecarregados, especialmente mulheres e pessoas de classes mais baixas. O aperto financeiro, o cansaço emocional e a desconfiança das instituições favorecem discursos antissistema e promessas de alívio imediato. A pesquisadora também alertou para o impacto de notícias falsas e conteúdos produzidos por inteligência artificial, que podem influenciar a percepção dos eleitores durante a campanha.
Ao final, um dos participantes provocou os dois palestrantes a refletirem sobre a crise de confiança na democracia e nas instituições, mencionando a aparente contradição entre o apoio à redução da maioridade penal e a empatia por pessoas pobres e vulneráveis. Daniel Marcelino observou que o apoio a determinadas medidas não significa necessariamente disposição para financiá-las ou implementá-las quando seus custos se tornam concretos.
Os dois convidados recomendaram que a leitura de uma pesquisa comece pela identificação de como os dados foram coletados, em que momento social o levantamento foi realizado e qual empresa foi responsável pelo estudo. “Às vezes, o número que mais importa não é o número da intenção de voto”, afirmou Daniel, reforçando que nenhum levantamento isolado é capaz de antecipar o resultado das urnas.
Acesse aqui a íntegra da pesquisa Tensões Culturais 2026.
Com o título “O impacto das redes sociais no processo eleitoral”, o terceiro encontro do GT aconteceu no dia 28 de maio. A mediadora Daniela Queiroz, gerente da ágora, conduziu a conversa com Leonardo Milano, especialista em dados e advocacy da ágora. Com mais de dez anos de experiência em comunicação estratégica, gestão de crises, advocacy e monitoramento de redes, ele apresentou uma análise sobre como as plataformas digitais estão modificando a relação entre candidatos, eleitores e instituições.
Segundo os dados apresentados, o Brasil possui uma adesão às redes sociais superior à média mundial e está entre os países com maior tempo de uso dessas plataformas. Cerca de sete em cada dez brasileiros utilizam as redes como parte da rotina, enquanto WhatsApp e YouTube alcançam mais de 90% da população, e Instagram e mecanismos de busca superam 85% de penetração. A pesquisa “Tensões Culturais”, utilizada na apresentação, indicou ainda que 42% dos usuários do Instagram recorrem à plataforma como fonte de informação, mostrando que as redes deixaram de ser apenas um fenômeno geracional e passaram a alcançar diferentes faixas etárias e perfis de eleitores.
Milano explicou que, antes da consolidação das redes, a força de uma candidatura era avaliada principalmente pelo tempo de televisão, pelas coligações, pelo apoio de lideranças regionais, pelos comitês físicos e pela estrutura partidária. Esses elementos continuam relevantes, mas passaram a dividir espaço com critérios digitais, como capacidade de viralização, engajamento, existência de comunidades organizadas e apoio de influenciadores. Para ele, as redes sociais estão reescrevendo as regras do jogo político eleitoral, permitindo que candidatos com pouca estrutura tradicional construam relevância, respondam rapidamente aos acontecimentos e transformem mobilização on-line em pressão política fora da internet. “A política extrapolou os espaços tradicionais. Antes você fazia política de fato no Congresso, nos ministérios; agora, muitas vezes a política acontece nos ecossistemas digitais. Muitas das decisões são tomadas e anunciadas no digital”, concluiu.
A linha do tempo apresentada incluiu a campanha de Marina Silva em 2010, as Jornadas de Junho e a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, apontadas como momentos importantes para a consolidação das redes como força política. Em 2024, a atuação de Pablo Marçal teria reforçado a possibilidade de um candidato com baixa estrutura partidária alcançar grande visibilidade por meio do engajamento digital. Milano também destacou a pauta da escala 6×1, cuja repercussão nas redes superou, na comparação apresentada, a discussão sobre a reforma do imposto de renda. O caso demonstraria como uma mobilização digital pode impor temas à agenda pública e obrigar diferentes grupos políticos a reposicionar seus discursos.
A discussão também abordou a diferença entre influência digital e poder institucional. Em resposta a uma pergunta, Milano afirmou que parlamentares muito ativos nas redes nem sempre utilizam sua audiência para aprovar projetos de lei. Muitas vezes, o objetivo principal é gerar polêmica, marcar posição e manter o engajamento da própria base. A influência digital pode ser mais eficiente para reagir a propostas, pressionar o Executivo ou impedir a aprovação de determinadas medidas do que para construir maioria dentro do Congresso. Exemplos relacionados ao Pix, à regulação das redes e a propostas sobre alimentos foram citados para mostrar como campanhas digitais conseguem provocar recuos ou alterar estratégias, embora não necessariamente resultem em políticas públicas concretas.
Milano destacou que os algoritmos formam bolhas digitais ao oferecer aos usuários conteúdos semelhantes aos seus interesses e posicionamentos, reduzindo o contato com perspectivas divergentes. Esse mecanismo contribui para a polarização e a radicalização, embora as redes também tenham ampliado a participação política e aproximado eleitores de candidatos e autoridades. Segundo ele, o principal desafio atual não é a falta de engajamento político, mas a dificuldade de diálogo e de construção de convergências em um ambiente no qual os adversários frequentemente passam a ser tratados como inimigos.
Com o tema “Jornalismo e comunicação e seu impacto na democracia”, o quarto encontro do GT teve como moderador o líder Thomaz D’Addio, que recebeu, no dia 25 de junho, Flavia Maia, jornalista do Jota especializada na cobertura do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral, e Iuri Pitta, âncora e editor de política da CNN Brasil, para discutir as transformações do jornalismo, o avanço da desinformação e os desafios da imprensa em um ambiente de crescente polarização.
Maia começou destacando o protagonismo assumido pelo Judiciário após as reformas de 2004 e sua maior exposição em julgamentos relacionados a escândalos como o mensalão, a Lava Jato, o caso Banco Master e a tentativa de golpe de Estado de 2022. Segundo ela, esse cenário ampliou o interesse sobre a atuação dos ministros, os limites do poder judicial e o equilíbrio entre as instituições democráticas.
O âncora da CNN Brasil apresentou a emissora como um exemplo das mudanças provocadas pela pandemia e pela transformação dos hábitos de consumo de informação. Criada no Brasil em março de 2020, a empresa precisou adaptar sua operação em poucos dias, inclusive com a transmissão de telejornais a partir da residência de seus profissionais. Para ele, a experiência mostrou que os veículos precisam alterar constantemente seus modelos de negócio e compreender uma audiência que busca cada vez mais notícias nas redes sociais, especialmente por meio de vídeos. Nesse contexto, afirmou que a CNN conseguiu alcançar um alto índice de confiança entre o público brasileiro, em movimento diferente do observado em boa parte da mídia internacional.
A pandemia também acelerou a disseminação de notícias falsas e a desconfiança em relação ao jornalismo. A jornalista do JOTA explicou que sua geração profissional precisou aprender a lidar com a desinformação ao longo da carreira, em um momento no qual jornalistas e instituições passaram a ser questionados de maneira mais intensa. A multiplicação de conteúdos nas redes deixou parte do público sem referências claras sobre o que era notícia, análise ou opinião. Para ela, veículos especializados como o Jota podem se consolidar como marcas de confiança ao oferecer informações aprofundadas, proximidade com os centros de decisão e compromisso com o interesse público. O crescimento do fact-checking e a valorização da reputação dos veículos e dos repórteres seriam respostas a esse ambiente de incerteza. “Hoje todo mundo produz conteúdo e posta nas redes sociais. Então as pessoas ficaram um pouco sem referência no que acreditar, no que realmente é notícia e no que não é. Nesse contexto, veículos com o Jota atuam como uma fonte de informação de confiança, porque traz notícias aprofundadas, fruto de uma relação muito próxima com os poderes”.
Pitta ressaltou que a desinformação não é um fenômeno novo, mas ganhou escala e velocidade com as plataformas digitais. Ele citou episódios históricos de manipulação de informações, como a distorção de um discurso do Brigadeiro Eduardo Gomes em uma disputa eleitoral de 1945, além do caso Escola Base, para mostrar que erros e campanhas deliberadas já influenciavam a opinião pública antes da internet. A diferença atual está no volume e na dificuldade de interromper a circulação dos conteúdos, especialmente em debates sensíveis como a segurança e a eficácia das vacinas durante a Covid-19. A inteligência artificial pode ampliar a produção de materiais falsos, mas também poderá contribuir para identificá-los. “Desinformação, distorção de informação e manipulação de informação sempre existiram. O desafio é que ela ganhou uma escala muito maior, muito mais complexa de se lidar. A Inteligência Artificial pode acabar sendo um instrumento para nos ajudar nesse desafio, mesmo que ainda não esteja claro de como isso pode acontecer”.
Ao discutirem o papel da iniciativa privada, das Relações Governamentais e do lobby na formação da agenda pública, os participantes destacaram a função de filtro exercida pelo jornalismo. Flavia Maia lembrou que nenhuma informação chega de graça e que o jornalista precisa investigar quem está fornecendo determinado documento, quais interesses estão envolvidos e se o conteúdo possui efetivo interesse público. Para isso, são fundamentais a formação, o repertório e a consulta a várias fontes, evitando que o veículo se torne apenas um instrumento de reprodução de uma narrativa particular. Pitta acrescentou que “raramente existem apenas dois lados em uma questão; o jornalista recebe o material bruto das organizações e o transforma em uma informação de interesse público por meio de apuração, contexto e responsabilidade ética”.
A polarização impôs novos desafios à ideia de isenção e equilíbrio. Pitta explicou que, na CNN, a opção é trabalhar com os conceitos de equilíbrio e independência, sem compromisso com qualquer força política, enquanto Maia defendeu que a transparência sobre a linha editorial e a pluralidade de perspectivas ajudam o leitor a compreender de onde cada veículo fala. Para ela, oferecer diferentes pontos de vista — como posições de juristas, lideranças indígenas e representantes do agronegócio em um debate sobre terras, por exemplo — pode ser mais efetivo do que uma pretensão abstrata de neutralidade. Ambos também destacaram a necessidade de distinguir informação, opinião e análise, além de tentar “furar as bolhas” criadas pelas redes sociais. A expectativa apresentada foi de que a disputa eleitoral de 2026, embora intensa, seja menos marcada pela hostilidade contra a imprensa do que a de 2022.
Na parte final, o debate abordou a responsabilidade das empresas na defesa da democracia e no combate à desinformação. Pitta defendeu que organizações privadas devem apresentar suas demandas a todas as campanhas e instâncias de poder, independentemente de preferências políticas, sempre com transparência, regras de compliance e respeito às instituições. Maia acrescentou que empresas precisam ter clareza sobre seus valores e proteger sua reputação, inclusive diante de notícias falsas que circulam no ambiente corporativo. Ao comentar pesquisas de confiança, os participantes observaram que as pessoas tendem a confiar mais em familiares, vizinhos e figuras próximas, enquanto instituições públicas enfrentam maior desconfiança. Ainda assim, Pitta concluiu que o jornalismo permanece indispensável: pode não ser sempre agradável ou popular, mas é necessário diariamente para o funcionamento saudável da sociedade.
O último encontro do GT de Democracia, realizado no dia 15 de julho, encerrou o ciclo de debates do primeiro semestre com uma conversa entre o líder do GT e conselheiro do IRELGOV, Thomaz D’Addio, e Tacyra Valois, vice-presidente da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (Abrig), fundadora da Sinapse Brasil e diretora da Decomsaúde/Fiesp. Com formação em enfermagem e trajetória nas áreas assistencial, acadêmica e de gestão hospitalar, Valois atua há quinze anos com relações institucionais e governamentais e desenvolve pesquisa de doutorado sobre como a tecnologia pode aprimorar a governança e produzir valor público na área da saúde.
A partir de sua experiência profissional e acadêmica, ela destacou que a saúde oferece um exemplo particularmente relevante para compreender a participação social e sua relação com a democracia. Por envolver situações de vulnerabilidade, barreiras de acesso e impactos concretos na vida da população, o setor reúne associações de pacientes, entidades profissionais, organizações empresariais e diferentes instâncias de governo em torno da formulação e da implementação de políticas públicas. Para ela, participação social não significa apenas ter a possibilidade de falar ou contar com conselhos e audiências públicas. É necessário que as manifestações da sociedade sejam recebidas por uma escuta qualificada, mediadas e convertidas em decisões capazes de produzir consequências concretas.
“A gente vive um paradoxo. Nunca houve tanto espaço de manifestação. A gente tem muitos espaços, muitos canais de comunicação, muita capacidade de mobilização, muita rede social; ainda assim, tem uma distância muito significativa entre falar, ser ouvido e produzir consequências. Hoje existem muitos lugares de fala, mas poucos lugares com uma escuta qualificada, para que isso realmente se traduza numa consequência política”, explicou.
A discussão ressaltou que a sociedade civil organizada precisa combinar mobilização, produção de conhecimento e capacidade de interlocução com o Estado. Tacyra Valois apresentou como exemplo o mapeamento de instituições do sistema de saúde desenvolvido no livro “Poder e Saúde”, que identifica os diferentes papéis de sindicatos, federações, confederações, associações e entidades setoriais. Segundo ela, a incidência política exige compreender a estrutura de poder, formular pleitos, construir consensos e acompanhar os processos decisórios de maneira metodológica. Para produzir resultados, é necessário apresentar evidências robustas, delimitar responsabilidades e identificar corretamente a arena — Executivo, Legislativo ou Judiciário — em que cada decisão deve ser tomada. A ausência de método, acrescentou, tende a ampliar desigualdades, já que grupos com mais recursos, informação, capacidade técnica e proximidade com os decisores conseguem fazer suas demandas avançarem com maior facilidade.
A abrangência e as desigualdades do sistema de saúde brasileiro também foram destacadas. Thomaz apontou que, enquanto em alguns estados uma parcela significativa da população depende exclusivamente do SUS, em outros essa proporção chega a cerca de 95%; além disso, centros médicos e serviços especializados estão concentrados principalmente nas regiões litorâneas, obrigando pacientes com doenças raras a percorrer centenas de quilômetros em busca de tratamento. Valois lembrou ainda que o SUS está presente na vida de toda a população por meio da vigilância sanitária, da vacinação e das ações de promoção e proteção da saúde, mesmo quando o cidadão não utiliza diretamente seus serviços assistenciais. Ao encerrar, defendeu que a saúde seja tratada de forma transversal no planejamento nacional. Para ela, fortalecer a democracia nesse campo exige transformar a experiência dos usuários em informação pública, aprimorar os mecanismos de escuta e garantir que a participação social produza influência real sobre políticas sustentáveis e capazes de atender a todos.
Expediente #03 – Julho – 2026
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