A força do diálogo: sempre e cada vez mais, o diálogo
Por Gisela Antakly, Líder do GT Relações Públicas, Public Affairs e Relações Governamentais do IRELGOV

As discussões conduzidas pelo Grupo de Trabalho de Relações Públicas, Public Affairs e Relações Governamentais do IRELGOV revelam um ponto em comum entre especialistas de diferentes campos: comunicar políticas públicas e atuar institucionalmente no Brasil contemporâneo exige compreender, antes de tudo, o valor estratégico do diálogo.
Ao longo dos encontros, o grupo refletiu sobre temas que atravessam a atuação profissional e o próprio funcionamento da esfera pública, do impacto das plataformas digitais e da infodemia à necessidade de comunicação pública planejada, ética e baseada em evidências.
O ponto de partida é claro: vivemos um ambiente informacional fragmentado, em que a atenção é um ativo escasso e a desinformação, um fator de risco para a confiança institucional e para o debate democrático. Nesse contexto, o papel de quem atua em relações governamentais e comunicação corporativa vai muito além da defesa de interesses. Nós construímos pontes entre governo, empresas e sociedade, sustentadas por escuta ativa, transparência, clareza de propósito e compromisso com o interesse público.
A partir das contribuições de especialistas como Diogo Rais, Cláudio Penteado, Cíntia Torquetto, Ibiapaba Netto e Paulo Teixeira, o grupo debateu caminhos para fortalecer a legitimidade das políticas públicas, aprimorar estratégias de engajamento e reconstruir pontes em um ambiente de diálogo fragmentado.
Os encontros revelaram que comunicar políticas públicas passa por promover adesão social e manter viva a licença social para operar. Mostraram também que a comunicação institucional deve ser vista como um investimento em confiança e nunca como custo ou reação à crise.
Este caderno reúne as principais ideias e aprendizados desse ciclo de debates. Ele reflete o compromisso do IRELGOV com a produção de conhecimento e com a construção de práticas profissionais mais éticas, responsáveis e conectadas à sociedade.
O material é um convite para que sejamos lobistas pelo diálogo: aqueles que defendem a escuta, a transparência e a construção coletiva como bases da boa política pública. Quando o diálogo ocupa o centro das decisões, o processo de formulação se fortalece e a esfera pública se torna mais informada, plural e democrática. revelaram
A primeira reunião do Grupo de Trabalho de Relações Públicas, Public Affairs e Relações Governamentais teve como tema central a “Infodemia e o ecossistema de desinformação e seus impactos nas estratégias de relações governamentais”. O encontro, coordenado por Gisela Martinez e Heloisa Correia, contou com a participação do especialista Diogo Rais, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e doutor em direito constitucional, que iniciou o debate propondo uma mudança conceitual: substituir o termo popular fake news por notícias fraudulentas ou desordem informacional.
Rais argumentou que o erro primário é tratar o problema como uma simples questão de verdade versus mentira. A questão central que justifica a intervenção jurídica, segundo ele, é a existência de um conteúdo enganoso com potencial lesivo. “O direito não parecia punir a mentira em si, mas sim quando ela tinha potencial lesivo”, explicou, separando o que é apenas antiético daquilo que é efetivamente ilegal. A discussão aprofundou-se na escala do problema, definido como infodemia — uma poluição informacional com um volume de dados humanamente impossível de ser processado. “A cada minuto das nossas vidas, nós temos 500 horas de novos vídeos no YouTube”, exemplificou.
Nesse cenário, a atenção humana torna-se o bem mais escasso e valioso. O modelo de negócios das plataformas digitais foi apontado como um dos principais motores desse ecossistema de desinformação. Como destacou o participante Júlio Dalmado, os algoritmos são construídos para potencializar conteúdos provocativos, que causam posicionamento polarizado e mais tempo de tela. Uma vez que o lucro das plataformas deriva da atenção dos usuários, vendida a anunciantes, há um incentivo econômico direto para privilegiar conteúdos extremos, que geram mais engajamento. “Quanto mais escassa a atenção, mais valiosa ela fica”, afirmou Rais.
Outro ponto crucial da reunião foi a análise do componente emocional na adesão à desinformação. Diogo Rais corroborou essa visão com base em pesquisas próprias, que identificaram as emoções de amor, ódio, raiva e medo como centrais no processo. Ele relatou um estudo em que pessoas confrontadas com a falsidade de um conteúdo respondiam: “Ah, eu não estou nem aí se é verdade ou mentira”. Isso demonstra que, muitas vezes, a adesão a uma narrativa não ocorre no campo da racionalidade, mas sim no da emoção e da identidade.
Para os profissionais de relações governamentais, essa constatação é fundamental, pois evidencia que estratégias baseadas unicamente na apresentação de fatos e dados podem ser completamente ineficazes. O impacto na atuação de advocacy é direto: o ambiente digital contaminado pela infodemia cria uma enorme barreira para o diálogo construtivo e a formulação de políticas públicas baseadas em evidências. Como resumiu a coordenadora Gisela Martinez, esse ecossistema “distancia do diálogo o Poder Público com engajamento multissetorial”, comprometendo a capacidade dos profissionais de fazerem uma incidência eficaz.
O debate sobre os desafios da comunicação digital foi o tema da segunda reunião do Grupo de Trabalho de Relações Públicas, Public Affairs e Relações Governamentais do IRELGOV. Conduzido por Gisela Martinez e Heloisa Correia, o encontro teve como convidado o especialista Cláudio Penteado, professor da UFABC e coordenador do Observa (Observatório de Conflitos Online). A discussão partiu do conceito de plataformização da sociedade, processo em que atividades sociais e profissionais se tornam cada vez mais dependentes das plataformas digitais.
Para os profissionais de relações governamentais, Penteado destacou que o primeiro e mais crucial desafio é entender esse ambiente. Ele argumentou que muitos atuam sem a real consciência de como as plataformas funcionam, de suas lógicas e gramáticas internas, que sutilmente agenciam e condicionam o comportamento dos usuários. Para navegar neste cenário, o professor delineou como estratégia fundamental a adoção do que na comunicação política se chama de campanha permanente: “A necessidade de desenvolver estratégias de gerenciamento de ocupação dos espaços online de uma maneira que esteja sempre produzindo conteúdos”.
Essa presença constante, segundo ele, visa construir uma rede de seguidores e parceiros que possa ser ativada rapidamente em momentos de crise. O professor foi enfático ao afirmar que, se uma instituição for começar do zero durante uma crise, ninguém vai ver. Outro ponto crítico abordado foi a falta de coordenação na comunicação governamental e institucional, citando como exemplo secretarias onde cada equipamento cultural possui um perfil próprio, sem estratégia unificada. “Quando penso em relações governamentais, tenho que criar alguma unidade”, defendeu Penteado, ressaltando a importância de uma mesma identidade pública, o que não significa replicar o mesmo conteúdo, mas garantir um planejamento estratégico.
A discussão também abordou a crescente dependência das Big Techs, classificada pelo professor como um solucionismo tecnológico, onde gestores públicos e privados preferem comprar soluções prontas em vez de desenvolver suas próprias alternativas. Esse cenário, segundo Penteado, agrava a crise de confiança nas instituições. “É um problema muito mais grave do que a gente está pensando, porque você tira a capacidade das pessoas de atuarem coletivamente”, alertou. O desafio para os profissionais de relgov, portanto, é recuperar a confiança no sistema coletivo, o que passa por um uso mais estratégico das ferramentas e pela coragem de debater a regulação das plataformas.
Como a comunicação pode atuar como pilar estratégico para a formulação e sustentação de políticas públicas? Esse foi o foco da terceira reunião do Grupo de Trabalho de Relações Públicas, Public Affairs e Relações Governamentais do IRELGOV. O encontro teve como convidada Cíntia Torqueto, especialista em comunicação pública e cofundadora do Infra Women Brazil. A premissa central do debate foi que comunicar políticas públicas não é simplesmente divulgar ação de governo, mas sim um processo complexo para promover adesão social e manter a legitimidade institucional.
Torqueto definiu política pública como uma resposta organizada do estado a uma demanda da sociedade e posicionou a comunicação no coração de todo o ciclo, argumentando ser vital em todas as etapas, da identificação do problema à avaliação. Segundo ela, nas fases iniciais, o objetivo é construir legitimidade social; na tomada de decisão, é sustentar politicamente a política; e na implementação, é garantir que ela chegue viva no final do processo. Essa abordagem transcende a transparência legal e entra no campo da licença social para operar.
Este conceito, um dos pontos altos da discussão, foi definido por Cíntia como uma aceitação de confiança da sociedade que autoriza a ação do Estado. Sem essa licença, uma política bem formulada pode se tornar inviável. A desinformação surge como o maior desafio, pois corrói a confiança de instituições. “Polariza o debate e coloca em risco a política pública. Para combatê-la, o monitoramento proativo deve antecipar narrativas, transformando o apagar incêndio em investimento estratégico.
O debate também abordou desafios práticos, como a dificuldade em tangibilizar o valor de áreas vistas como etéreas. Cíntia sugeriu seguir a máxima conhecida como follow the money: “O primeiro passo é a gente conseguir mostrar como isso impacta, o quanto de dinheiro pode ser evitado de se perder. Fazer política e política pública também é saber contar histórias”, destacando os profissionais de relgov como construtores de narrativas essenciais para reconstruir a confiança entre o Estado e a sociedade.
Em sua última reunião, o Grupo de Trabalho de Relações Públicas, Public Affairs e Relações Governamentais abordou o posicionamento de associações no debate público. O encontro teve como convidado especial Paulo Teixeira, presidente executivo da Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico), que apresentou o programa Recircula como um caso de estudo sobre como um setor pode sair de uma posição reativa para liderar uma agenda propositiva, contrapondo-se a um debate frequentemente descrito como emocional e pouco embasado.
Teixeira explicou que o programa Recircula nasceu de um incômodo com o foco limitado da discussão sobre logística reversa, que se concentrava na recuperação do material, sem garantir sua destinação. “A iniciativa nasceu para responder à pergunta crucial: esse plástico vai para onde?”, explicou. A solução inovadora foi aproveitar um ativo único do Brasil: o sistema de notas fiscais eletrônicas (NF-e). Ao estender o modelo de créditos de logística reversa, o Recircula passou a rastrear o resíduo até a fabricação da embalagem, criando um selo que comprova a origem e a circularidade do material.
A articulação multissetorial foi apontada como chave para o sucesso. Paulo Teixeira detalhou conversas com entidades gestoras, o Ministério do Meio Ambiente, o Ministério Público e associações de catadores. Uma parceria estratégica foi firmada com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), que viu no piloto um modelo replicável para outras cadeias, como alumínio e têxtil. O ponto de virada, segundo ele, foi a apresentação no fórum da ONU para o Tratado Global dos Plásticos, em Paris, onde o governo brasileiro adotou a iniciativa. “Isso aqui é uma solução do Brasil”, disse o então secretário do Ministério do Meio Ambiente, Adalberto Maluf, ao apresentar o programa, que foi posteriormente reconhecido pela ONU.
A inclusão social dos catadores foi um pilar fundamental da iniciativa. O modelo foi desenhado para não ter custos para as cooperativas; ao contrário, gera um dashboard de informações que ajuda a direcionar investimentos e oferece subsídios a empresas que compram desses grupos, fortalecendo o elo mais vulnerável da cadeia. O debate também abordou o complexo cenário do Tratado Global dos Plásticos, criticado por Teixeira pela superficialidade da discussão, focada em banir produtos subjetivamente desnecessários” em vez de debater padrões de produção e consumo.
Por fim, a reunião discutiu a relação com a imprensa e o combate à desinformação. O presidente da Abiplast admitiu a dificuldade em lidar com um comportamento ativista da mídia e a crise do jornalismo científico. A estratégia adotada tem sido o diálogo, usando academia e cientistas como porta-vozes independentes para qualificar o debate. “Quando apresentamos a avaliação de uma das maiores pesquisadoras do mundo, o depoimento ganha força”, relatou Teixeira, reforçando o papel das associações em atuar como letradoras sociais para embasar as discussões públicas.
Expediente #03 – Novembro – 2025
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