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ASSOCIE-SE

Capitalismo: de shareholders para stakeholders

Um novo capitalismo para reduzir desigualdades e enfrentar a emergência climática

Por Marcel Fukayama (Cofundador do Sistema B Brasil e atual head de global policy do B Lab Global)

Em 13 de setembro de 1970, o Nobel de Economia Milton Friedman moldou o capitalismo atual ao argumentar em artigo no New York Times que a maior responsabilidade social das empresas é a maximização do lucro. A doutrina Friedman, como é conhecida a tese, criou uma era de enorme geração de riqueza. Desde 1980, segundo o Banco Mundial, mais de 1 bilhão de pessoas deixaram a linha da pobreza extrema. A globalização e a corrida tecnológica trouxeram um desenvolvimento jamais visto. As empresas, de fato, se tornaram o principal agente econômico. 

Contudo, a primazia do acionista (shareholder primacy) gerou distorções sociais e graves consequências ambientais. Além disso, orientou governanças e gestões das empresas para um olhar de curto prazo e orientado puramente à maximização de lucros.

Em janeiro de 2020, pela primeira vez em mais de 40 anos, o Fórum Econômico Mundial atualizou seu manifesto e endossou o conceito de Capitalismo de Stakeholders. A ideia central é que as empresas deixem de gerar valor para um só stakeholder, o shareholder (acionista), e passem a multiplicar valor para todas as partes interessadas: colaboradores, membros da comunidade, fornecedores, consumidores e, claro, o acionista. Essa abordagem redefine o papel das empresas na sociedade e propõe um novo paradigma em que os negócios passem a gerar valor no longo prazo e criem bem-estar para as pessoas, para a sociedade e para o planeta.

Nessa linha, uma das maiores provas de conceitos que o setor empresarial já vez, B Lab e Sistema B trabalham globalmente identificando líderes empresariais comprometidos em atuar com (i) propósito de impacto positivo; (ii) com responsabilidade com seus stakeholders; (iii) e compromisso com a transparência ao medir, gerenciar e reportar seu triplo impacto. 

Atualmente, mais de 150 mil empresas utilizam a Avaliação de Impacto B para gerenciar seu impacto e mais de 5 mil delas em 80 países e 150 setores distintos alcançaram um nível rigoroso de performance social e ambiental e receberam a certificação de Empresa B. 

Entre alguns exemplos, destaca-se uma das maiores empresas B do mundo, a brasileira Natura &Co, que atua em mais 100 países como uma grande plataforma de impacto positivo. Pioneira na contabilidade integrada, a empresa publica seus resultados incorporando o impacto social e ambiental em seu balanço. A lógica de “floresta em pé” permite ao negócio triplicar a renda nas comunidades onde atua sem a necessidade de extração predatória.

Mais de 80% das empresas certificadas são pequenas e médias. O Brasil tem se destacado pela adoção de grandes empresas. Entre elas estão Movida, ClearSale, Cia Hering, Reserva, Mãe Terra e Danone Brasil. Outras assumiram pública e concretamente o compromisso, como Gerdau e Magalu.

É importante destacar que todas as Empresas B são exigidas a alterar seu contrato ou estatuto social para vincular a responsabilidade fiduciária dos administradores com a geração de impacto positivo e a consideração dos stakeholders na decisão de curto e longo prazo. Tudo isso passa a ser o “melhor interesse da companhia”. O que era uma certificação se tornou um movimento global com a visão de criar um sistema econômico inclusivo, equitativo e regenerativo para todas as pessoas e para o planeta. As Empresas B têm contribuído para isso ao mostrarem ser possível fazer mais, melhor e, sobretudo, diferente. 

Contudo, estão longe de ser suficientes. No Brasil, o movimento chegou a 240 Empresas B certificadas e mais de 8 mil usando a ferramenta de gestão de impacto. Ao mesmo tempo, o Mapa de Empresas do Ministério da Economia aponta que são mais de 19 milhões de negócios no país.

A fim de apoiar todos os negócios a se comportarem como Empresas B, precisamos, portanto, mudar as regras do jogo e influenciar as instituições a reconhecerem e identificarem esse novo segmento econômico. Para isso, desde 2010, o B Lab atua pela proposta legislativa conhecida como Benefit Corporation. Um status legal que já foi aprovado em mais de 40 estados americanos e diversos países, incluindo Itália, Canadá, Colômbia, Equador, Peru, Uruguai e Panamá. No Brasil, a proposta tramita no Senado Federal por meio do PL 3284/2021 de autoria do senador Rodrigo Cunha. A autorregulamentação é outra forma de incidir na mudança das regras do jogo. O B Lab e Sistema B também têm atuado com Bolsas de Valores de todo o mundo a fim de promover uma mudança de comportamento no coração do mercado de capitais. 

Uma das propostas é a criação de um novo index com empresas que adotem três práticas: (i) alteração do estatuto social para incorporar a linguagem legal do Sistema B; (ii) criação de espaços na governança que considerem os stakeholders na decisão, como um comitê de stakeholders ou até mesmo a co-participação, quando colaboradores ou membros da comunidade passam a ser parte do Conselho de Administração; (iiI) adotem uma ferramenta de terceira parte e independente para medir, gerenciar e reportar seu impacto.

A identificação clara e objetiva de empresas com esses compromissos ajudariam os investidores com capital alocado em ESG, acelerando a transição do mercado para a nova economia.

É fundamental, portanto, criar infraestrutura para a governança de stakeholders, como as práticas mencionadas acima para não se esvaziar o conceito e dar espaço para um novo tipo de greenwashing. Ao instrumentalizar de forma concreta e clara gestores e investidores para uma nova forma de fazer negócio, um novo capitalismo que usa a força do mercado para reduzir desigualdades e enfrentar a urgência climática passa a ser a maior potência que temos.

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